O Encontro Secreto de Kissinger na China
por Antônio João
Nesse momento de crise na relação entre Estados Unidos e China, notícias nos dão que Henry Kissinger é recebido como convidado para comemorar os 52 anos de um primeiro encontro, no início dos anos setenta, quando os dois países se tornaram aliados. Pelas fotos vemos que é muito bem recebido, mas não se toca no fato de aquele primeiro encontro ter se dado de modo secreto.
A China, naquela data (1971), ainda vivia a ‘Revolução Cultural’, com o governo chinês se posicionando de modo extremamente radical na oposição ao capitalismo, ainda mais do que a Rússia. Em 1965, Lin Piao, então ministro da defesa, em declaração oficial, incitava camponeses, e trabalhadores, da Ásia, América Latina e África, a deflagrarem guerras populares de libertação do imperialismo norte-americano.
O regime chinês teve papel importante quando a vizinha Coreia comunista resistiu aos EUA, nos anos 50 e, naquele momento, no início dos anos setenta, financiava a luta armada em territórios dominados pelo capitalismo, dava apoio ao Vietnã, e mesmo assim, com tudo isto, Kissinger conseguiu a reviravolta completa do posicionamento chinês, cujo regime passa da mais radical oposição, a aliado do capitalismo. O atual governo chinês não deve mesmo querer se lembrar de como se deu essa reviravolta, pois que esta veio no formato de um golpe de estado.
A aproximação com os EUA começou com a chamada diplomacia do Ping Pong, em que atletas chineses e norte americanos se encontravam durante o período das disputas esportivas. Por meio desses contatos, em seguida vem a aproximação com políticos que se opunham à Revolução Cultural, caso de Deng Xiao Ping e Chou en Lai (Zhou Enlai), entre outros. É com políticos como estes que acontece o celebrado primeiro encontro: em 09 de julho de 1971, Winston Lord, ex-secretário adjunto de Estado, e o conselheiro de segurança nacional dos EUA, Henry Kissinger, entraram sorrateiramente em um voo de Ismamabad, no Paquistão, a Beijing, penetrando secretamente na China.
Esse encontro teria selado a aliança. E as consequências são imediatas: “Entre 10 e 15 de setembro[…]uma crise súbita veio quebrar a unidade aparente do Bureau Político, provocando o desaparecimento de Lin Piao, de sua esposa Yeh Chun e dos quatro mais altos responsáveis do Exército de Libertação.” ( )
( ) Francis Audrey, China, 25 anos 25 séculos, Editora Paz e Terra, 1976, p. 174. Tradução de Moacir Werneck de Castro.
Na noite de 12 para 13 de setembro de 1971 um avião chinês explodiu no ar, e os destroços caíram na Mongólia. Segundo informações chinesas Lin Piao era um dos passageiros e estaria fugindo para a Rússia, junto com a esposa e militares da cúpula do exército. Tudo indica que o avião foi sabotado.
A Revolução Cultural durou de 66 até essa reviravolta política no final de 1971: No início de julho acontece a visita de Kissinger, em setembro morre Lin Piao; pouco mais de um mês depois, em 25 de outubro, após 22 anos de veto, os EUA permitem, e acontece a admissão da República Popular da China na Organização das Nações Unidas (ONU). E já em fevereiro de 1972, o presidente norte-americano, Richard Nixon é recebido com festas na China.
Hoje deve ser difícil para os populares chineses avaliarem aquele acordo. Com o apoio norte americano a China se industrializou, e teve esse extraordinário crescimento, que agora ameaça superar os seus ex-parceiros, podendo tornar-se a primeira economia mundial. Kissinger, por sua vez, venceu a guerra fria ao trazer a China para a aliança com o capitalismo, desse modo, isolando a União Soviética, e enfraquecendo a Rússia comunista, ao ponto em que se submetesse, e renunciasse ao socialismo, ao final dos anos oitenta. Mas agora que Rússia e China se uniram novamente, o que o ex-secretário teria para oferecer aos chineses para mais uma vez afastar as duas potências asiáticas?
Antônio João é jornalista e escritor: no momento (2023) lança, ‘O Significado da Vida’, pela Editora Ninho da Palavra.
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