10 de junho de 2026

O saldo político do tarifaço, por Aldo Fornazieri

A pulverização de candidaturas não significa indício de que Lula possa vencer no primeiro turno. É preciso olhar para o horizonte político.
Ricardo Stuckert

O saldo político do tarifaço, por Aldo Fornazieri

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O governo e o presidente Lula, até agora, auferiram poucos dividendos políticos do tarifaço decretado por Trump. O momentum para obter esses ganhos parece ter chegado ao auge, entrando num processo de estamento e declínio. Pode até começar a reverter-se em perdas. É mais uma oportunidade que o governo, Lula e os partidos de esquerda desperdiçam por conta da ausência de uma inteligência estratégica e de um comando político.

Duas pesquisas atestam a dificuldade encontrada pelo governo, partidos e Lula de auferirem ganhos políticos. Na última, o Datafolha mostra que para 35% acham que Lula é culpado pelo tarifaço, 22% dizem que Jair Bolsonaro é o culpado, 17% indicam Eduardo Bolsonaro e 15% apontam para Alexandre de Moraes. A soma de Jair e Eduardo Bolsonaro alcança 39% e a de Lula e Moraes, 50%.

Considere-se que os Bolsonaros tendo feito o que fizeram, com o Eduardo articulando o tarifaço a mando de Jair. Considere-se que a carta de Trump e outras manifestações suas deixam claro que o tarifaço se deve também ao julgamento do ex-presidente. Isto fica ainda mais evidente com a imposição de punições a Alexandre de Moraes. A conclusão é uma coisa só: o governo, as esquerdas e Lula estão falhando na estratégia, no discurso, na retórica, na comunicação.

No início de agosto, o Datafolha divulgou uma pesquisa sobre a avaliação do governo, mostrando, também, que o tarifaço não o favoreceu. O indicador bom ou ótimo subiu apenas um ponto, passando de 28% para 29% em relação à pesquisa de junho. O ruim ou péssimo ficou estacionado nos 40%. E o regular oscilou de 31% para 29%.

Lula, no entanto, obteve vantagem em todos os cenários e sobre todos os outros candidatos na pesquisa de intenção de voto divulgada pelo Datafolha no início de agosto. A mudança foi discreta. Neste ponto, o tarifaço pode ter provocado um efeito negativo sobre os possíveis candidatos bolsonaristas e de direita. De modo geral,  eles se posicionaram mal em relação ao tarifaço, passando a impressão de que eram a favor.

Diante de fatos tão negativos para o bolsonarismo e a direita e, aparentemente, tão positivos para o governo e as esquerdas, é preciso se perguntar acerca das razões que impedem ganhos políticos significativos em termos de avaliação da opinião pública. Uma coisa que salta aos olhos é a falta de estratégia e de coerência no discurso dos governistas na abordagem do tarifaço.

O presidente Lula num momento afirma que quer dialogar e em outro diz que não vai se humilhar e que não dialogará com Trump. Já Alckmin e Haddad se mostram pró-diálogo, mas falta uma estratégia retórica diante da recusa do diálogo por parte do governo Trump.

Quem olha o governo a partir da planície não sabe o que ele quer e para onde quer ir. Lula se comporta mais como candidato do que como estadista que tem a responsabilidade de resolver os desafios que o país enfrenta. As empresas afetadas, os trabalhadores que nelas trabalham e a população em geral querem saber das soluções para o problema. Os governadores e os deputados bolsonaristas conseguem explorar essas lacunas na estratégia política e retórica dos governistas culpabilizando-os.

A palavra mais usada na retórica dos governistas é a “soberania”. Mas quantas pessoas do povão e até das classes médias sabem o significado de “soberania”? O termo “soberania” deveria ser o foco principal do discurso governista? O governo e sua comunicação fizeram pesquisas ou avaliaram o impacto do discurso governista? Qual o impacto que esse discurso produz na opinião pública? A impressão que passa é que o governo navega no escuro, joga na espontaneidade, atira a esmo.

Este é um problema que é recorrente no Lula 3: não há comando político, não há inteligência estratégica e a comunicação tropeça nela mesma. Os governistas deveriam deixar de lado o discurso formalístico-abstrato em favor de uma retórica persuasiva que tocasse nos sentimentos e nos afetos das pessoas, articulado com o ethos, os valores comuns do povo brasileiro. Mas, repito: o governo aparece com a face de gente cansada, sem vigor, sem energia para agir, sem disposição para o combate.

Chega a ser impressionante como o bolsonarismo, mesmo com os fatos e a conjuntura contra ele, consegue inverter os termos da disputa política. De golpista, torna-se o paladino da luta pela democracia e pela liberdade contra uma suposta ditadura. De réu sentado nos bancos dos criminosos, procura se tornar o juiz para colocar o tribunal (STF) e seus ministros no banco dos réus. De articulador e fomentador do tarifaço, consegue tornar Lula como o principal culpado pelas violentas medidas de Trump contra o Brasil.

Muita gente joga suas esperanças para o cenário eleitoral de 2026 que vai se desenhando. A divisão da direita, com duas ou três candidaturas seria um trunfo até para uma possível vitória de Lula no primeiro turno. É uma avaliação enganosa. Tudo indica que a direita sairá dividida no primeiro turno. Bolsonaro e sua família vêm perdendo força política. A virulência com que Eduardo e Carlos atacam governadores de direita é um sintoma disso.

Sem poder concorrer, em prisão domiciliar e com um julgamento pela frente, Bolsonaro se enfraquece na condição de condutor inconteste da direita. O radicalismo de Eduardo enfraquece ainda mais o clã. Os governadores, com cautela, ampliam seus espaços e constroem suas próprias estratégias, mas sem romper com o bolsonarismo que é a maior força eleitoral da direita.

Mas a pulverização de candidaturas não significa nenhum indício de que Lula possa vencer no primeiro turno. É preciso olhar para o horizonte político. O Brasil continua polarizado. Com o julgamento do golpismo, com o tarifaço e com a aproximação do ano eleitoral, a polarização se aprofundará. Lula estará sob o ataque de todos no primeiro turno. Um candidato de direita emergirá como oponente de Lula para a disputa do segundo turno e terá o apoio dos outros.

As eleições de 2026 tendem a ser mais polarizadas do que as de 2018 e as de 2022. Ingredientes internos e internacionais existem em abundância para alimentar essa combustão. Os governistas e os partidos de esquerda parecem não perceber essa realidade ou não cogitar essa conjuntura. Em política, negligenciar a realidade efetiva das coisas é o caminho mais curto para a ruína.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Aldo Fornazieri

Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política.

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11 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    18 de agosto de 2025 9:27 am

    Culpar o Lula pelo tarifaço imposto pelo Trump aos produtos brasileiros, apesar do superávit comercial dos EUA, ao invés de culpar o Trump e os Bostonaros, é semelhante ao Paulo Coelho condenar o Raul Seixas, que foi torturado pelos militares, e absolver os militares que o torturaram ambos.

  2. twa

    18 de agosto de 2025 9:51 am

    O povão tá trabalhando ganhando “pouco” e vê seu parcos recursos sendo corroídos pelas elevações de preços, seja pela inflação acima do teto ou desvalorização cambial e pouco lê estas notícias do Trump e as molecagenes dos Bolsonaros…. Lula estava nas cordas antes e continua… e temos um ano ainda até as eleições. Ano que vem o pouco do povão que sabe de Trump nem se lembrará mais dele.

  3. Fernando Bonato

    18 de agosto de 2025 11:20 am

    eu não sei se a esquerda não esta fazendo nada mesmo ou se esta realmente se articulando, mas a comunicação é muito ruim. Pelo que vejo, é a comunicação ruim que da impressão de congelamento.

  4. EDUARDO T S PEREIRA

    18 de agosto de 2025 12:36 pm

    Parei na parte do Lula “não” querer falar com o Cenourão. O articulista queria o que? O Lula foi claro. Ligar pra não ser atendido , por todos os sinais colhidos, era se humilhar. E tô comele. Mas a comuicação continua sendo o caalcanhar de Áquiles do Governo.

  5. Paulo Dantas

    18 de agosto de 2025 12:40 pm

    Se a situação da economia piorar o culpado será Lula, queiram ou não, pois é o dono da bola.

    Esperar ganhar algo com as tarifas é bobagem.

    1. Rui Ribeiro

      19 de agosto de 2025 7:48 am

      O culpado pela tortura do Paulo Coelho não foram os Milicos Torturadores, foi o Raul Seixas, que igualmente foi vítima dos Torturadores

      1. Paulo Dantas

        19 de agosto de 2025 6:42 pm

        Falo de culpa política a quem o povo vai atribuir.

        Não será justa mas creio que será.

        Se vier uma crise com o tarifaço o governa não ganha nada.

        1. Rui Ribeiro

          21 de agosto de 2025 8:30 am

          Tô vendo que o problema é de comunicação. Não sei se eu tenho dificuldade de compreensão ou se você não se expressa corretamente… mas se a situação piorar a culpa será do Lula…

          Para meio entendedor, schin basta

  6. Fábio de Oliveira Ribeiro

    18 de agosto de 2025 6:02 pm

    O que é ruim para os EUA é excelente para o Brasil. Nosso país nunca teve nada a ganhar ficando sob a tutela dos norte-americanos. E o Brasil perdeu muito sempre que fez salamaleques para a Casa Branca prejudicando seus próprios interesses. Nesse sentido, foi bom Donald Trump chutar a bunda do Brasil, porque agora Lula e todos os próximos governos poderão chutar a bunda do presidente dos EUA. Por exemplo: os norte-americanos estão preocupados com a hegemonia da China? Os brasileiros devem fazer de tudo para ajudar os chineses a sobrepujar os norte-americanos. Os EUA querem uma guerra mundial para reconquistar sua hegemonia? Fodam-se oss norte-americanos, eles que morram sozinhos no campo de batalha sem ajuda dos brasileiros. Trump quer restaurar a relação entre os dois países? Então ele que revogue as tarifas e mande “la migra” caçar Eduardo Bolsonaro para envi-lo imediatamente de volta para Brasília, algemado nos pés e nas mãos de preferencia. Os nóias da Embaixada dos EUA continuarão enchendo o saco do STF? Lula deve revogar o visto de permanência deles e expulsá-los do nosso país. Essa é a política da reciprocidade do foda-se. Trump deu um foda-se para o Brasil, o Brasil tem que dar um foda-se para os EUA. E assim por diante.

  7. José de Almeida Bispo

    18 de agosto de 2025 10:20 pm

    Lula jamais ganhou num primeiro turno. JAMAIS! Mesmo em seus melhores momentos.

  8. Rui Ribeiro

    19 de agosto de 2025 3:51 pm

    Eu estava pensando que quem estava exposto à punição era o Bolsomerda e os demais golpistas, mas agora o Bananinha diz que que são o Flávio Dino e o Alexandre de Moraes que estão expostos.

    o $ujeito ganha um salário público polpudo para prejudicar o Brasil e falar merda. Isso aqui não é um país, é um Bananistão

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