26 de agosto de 2026

O virologista que queria ser rei, por F. Ponce de León

O trágico e vergonhoso caso de Daniel Carleton Gajdusek (1923-2008), pediatra, virologista laureado (Nobel de 1976) e... pederasta contumaz.
Daniel Carleton Gajdusek

Virologista Daniel Gajdusek, Nobel de 1976, foi acusado e preso por abuso sexual de crianças da Nova Guiné nos EUA.
Gajdusek identificou príons causadores da doença kuru, mas sua carreira foi marcada por crimes e conivência acadêmica.
Após cumprir pena, mudou-se para Amsterdã; em diário, admitiu sucesso graças a “protetores” no meio científico.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Enviado por Felipe A. P. L. Costa.

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O virologista que queria ser rei.

por F. Ponce de León, do blogue Poesia Contra a Guerra.

A mais recente edição da revista The New Yorker trouxe um artigo da jornalista Rachel Aviv, ‘The children a scientist took home’, no qual ela relata o trágico e vergonhoso caso de Daniel Carleton Gajdusek (1923-2008), pediatra, virologista laureado (Nobel de 1976) e… pederasta contumaz. (A edição de hoje [21/8] da Folha de S.Paulo deu uma chamada para o caso, mas eu ainda não li essa matéria.)

O vergonhoso referido acima fica por conta do silêncio e da conivência de muitos colegas (outros laureados, inclusive) diante dos crimes em série que o virologista estadunidense estava a cometer.

A carreira de Gajdusek como cientista inclui a identificação do agente etiológico (príons) de uma doença neurodegenerativa – fatal e até então misteriosa – chamada kuru. A doença, hoje controlada, já foi comum em certas tribos da Oceania. Já a carreira dele como pederasta inclui episódios com crianças trazidas da Nova Guiné e mantidas por ele nos EUA entre os anos 1960 e 1990. Nos anos 1980, ele foi investigado pela ‘polícia federal’ dos EUA, o FBI. Anos depois ele seria detido e preso, chegando a cumprir pena de um ano de reclusão.

Em 1998, quando saiu da prisão, o próprio Gajdusek se comparou ao escritor irlandês Oscar [Fingal O’Fflahertie Wills] Wilde (1854-1900). (Sob a acusação de ter praticado ‘atos homossexuais’, classificados como crime pela legislação britânica da época, mesmo em casos envolvendo adultos, Wilde permaneceu encarcerado entre 1895 e 1897.)

Assim que saiu da prisão, Gajdusek foi embora do país. Foi morar na Europa, estabelecendo residência em Amsterdã. Segundo Aviv, dois meses antes de morrer, em 2008, ele anotou em seu diário (tradução livre; ênfase minha): “Levei a minha pederastia de longa data para a minha carreira médica e fui bem-sucedido em ambas, com raras exceções. Sem protetores, eu jamais teria sido bem-sucedido”.

A expressão sem protetores me faz pensar não só na burocracia acadêmica, mas também em gente que o incensava, incluindo outros laureados, bajuladores de olho no Nobel e graúdos da divulgação científica, como o neurologista Oliver Sacks (1933-2015) e o físico Freeman Dyson (1923-2020), além de autoridades políticas, como a primeira dama da Jamaica e o presidente de Israel.

O artigo de Aviv (em inglês) é de livre acesso (ao menos por enquanto) e pode ser lido aqui. Um breve resumo da reportagem (também em inglês) pode ser visto aqui.

* * *

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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