Os dez menos, por Felipe Bueno
Um blend de messianismo às avessas e redução de danos. Uma fuga sob a narrativa de perseguição política. A História nos revelou inúmeros casos de lideranças que preferiram abandonar seus eleitores e correligionários e virar as costas para o país que garantiam defender.
Dois dias após ter sido derrotado no segundo turno das eleições presidenciais, o senador Flávio Bolsonaro saiu do Brasil com destino aos Estados Unidos, deixando para trás os quase 60 milhões de eleitores que por alguma razão deram a ele a confiança de seus votos. O parlamentar é investigado em inquéritos no Supremo Tribunal Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e calúnia contra o presidente Lula.
Flávio Bolsonaro não está sozinho; eis aqui uma galeria de casos recentes em que a porta dos fundos da nação foi a opção escolhida para preservar a liberdade. Os casos são apresentados em ordem cronológica decrescente.
Em agosto de 2021, enquanto as forças do Talibã cercavam a capital Cabul após a retirada das tropas dos Estados Unidos, o então presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, fugiu em um helicóptero com destino aos Emirados Árabes Unidos. Além do colapso do governo, Ghani enfrentou acusações de ter deixado o país levando dezenas de milhões de dólares dos cofres públicos afegãos.
Dois anos antes, na Bolívia, após semanas de intensos protestos populares e pressões das Forças Armadas por suspeitas de fraudes na eleição de 2019, Evo Morales renunciou à presidência. Dada a iminência de mandados de prisão por acusações de fraude eleitoral, sedição e terrorismo, o ex-mandatário deixou o país, obtendo asilo político inicial no México e depois na Argentina.
Em fevereiro de 2014, no auge da revolução Maidan, o então presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, abandonou a capital Kiev e fugiu para a Rússia após episódios de violência contra manifestantes e o avanço de investigações por corrupção e traição. Na Rússia, Yanukovich recebeu proteção governamental enquanto era julgado e condenado à revelia na Ucrânia por crimes contra a segurança nacional.
Quem não se lembra da Primavera Árabe? Um dos marcos iniciais da onda foi a Revolução dos Jasmins, que, em 2011, removeu do poder após mais de duas décadas o ditador da Tunísia, Zine El Abidine Ben Ali, que fugiu para a Arábia Saudita. Ben Ali era investigado por corrupção, desvio de fundos públicos, lavagem de dinheiro e cumplicidade na morte de manifestantes civis. Permaneceu no exílio até a morte, em 2019.
De volta à América Latina, em novembro de 2000, enfraquecido por escândalos de corrupção e violação de direitos humanos, o então presidente do Peru, Alberto Fujimori – que vem a ser o pai da atual mandatária – viajou ao Japão para uma cúpula internacional. De lá, enviou uma carta de renúncia via fax e permaneceu no país asiático sob a proteção de sua dupla nacionalidade para evitar a prisão, até ser detido no Chile em 2005 e extraditado ao Peru.
Concluímos a galeria com dois episódios do século passado. No Haiti, o ditador Jean-Claude Duvalier deixou o país em fevereiro de 1986 a bordo de um avião militar dos Estados Unidos rumo à França. Baby Doc fugiu em meio a revoltas populares e investigações de desvio de milhões de dólares dos cofres públicos, além de sistemáticas violações dos direitos humanos cometidas pela polícia secreta local.
Na mesma época, após a Revolução do Poder Popular contestar os resultados de eleições consideradas fraudulentas, o ditador das Filipinas Ferdinand Marcos e sua esposa, Imelda Marcos, abandonaram Manila e fugiram para o Havaí com auxílio de helicópteros militares dos Estados Unidos levando consigo milhões de dólares em dinheiro e joias para escapar dos processos por enriquecimento ilícito e execuções extrajudiciais.
Fechamos nossa lista pouco honrada em Uganda, terra da qual o ditador Idi Amin Dada fugiu em abril de 1979 quando forças rebeldes e tropas da Tanzânia tomaram a capital, Kampala. Investigado e acusado por genocídio, tortura sistemática e colapso econômico que vitimou centenas de milhares de pessoas, Amin buscou refúgio na Líbia e depois fixou residência permanente na Arábia Saudita, onde viveu sem ser julgado até falecer.
A porta de saída poucas vezes leva à liderança paralela. Com muito mais frequência conduz à lata de lixo da História.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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