Sugerido por Tamára Baranov
Do Opera Mundi
A Igreja Católica quer ter um casal de santos escravocratas?
Arquidiocese do Rio quer a beatificação de Zélia e Jerônimo; se conseguir, Brasil vai ganhar beatos senhores de escravos
Por Haroldo Ceravolo Sereza | Opera Mundi
Aviso: baseio esse artigo, essencialmente, nas informações biográficas fornecidas pela própria arquidiocese do Rio de Janeiro sobre o casal Zélia e Jerônimo, mais novos candidatos a beato do país.
13 de maio de 1888: princesa Isabel assina a Lei Áurea. O casal Zélia Pedreira Abreu Magalhães (1857-1919) e Jerônimo de Castro Abreu Magalhães (1851-1909) acata a lei e permite que os seus escravos continuem a viver na fazenda.
20 de janeiro de 2014: a Arquidiocese do Rio de Janeiro fez saber ao mundo que pretende a beatificação de Zélia e Jerônimo. Como sabemos, a beatificação é o primeiro passo para a canonização. Ou seja, se o processo correr e ficarem provados milagres concedidos pela dupla, caminhamos para ter, um dia, um santo casal escravocrata brasileiro. Poderemos então chamar Zélia e Jerônimo de “santos padroeiros do sistema escravista”.
Dom Orani Tempesta, recém-nomeado cardeal, arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro, lançou inclusive uma oração para que os dois cheguem lá: “Senhor, nosso Deus, que unis o homem e a mulher pelos laços do Matrimônio, Vos pedimos, por intercessão de vossos servos, Zélia e Jerônimo, que se santificaram na vida do amor matrimonial, acolhendo e educando seus filhos na verdadeira Fé, no amor a Deus e ao Próximo, a graça da proteção às nossas famílias. Rogamos que seguindo os seus exemplos possamos viver de acordo com o Vosso desejo, para o bem da Igreja e a santificação de nossa sociedade.”
A partir dessa oração, parece evidente que o objetivo principal da beatificação é a valorização do casamento religioso tradicional, ou seja, entre heterossexuais, como parte do combate ao avanço dos novos arranjos familiares que o Ocidente, sobretudo, vem vivendo. A hora é de valorização do casal, não mais o indivíduo, supostamente santo.
Reprodução/Facebook

Retrato do casal Jerônimo e Zélia Magalhães, em igreja no Rio de Janeiro
A Igreja de Dom Orani, assim, os avalia como bons pais. Entre outros motivos, por terem tido nove filhos conduzidos à vida religiosa. Mas não deixa de tocar em outro ponto, igualmente sensível: acha também que eles foram bons senhores de escravo. No perfil biográfico do casal distribuído pela arquidiocese, afirma: “Na fazenda [de propriedade do casal, Santa Fé] havia uma capela onde Zélia rezava inúmeras vezes ao dia. O casal jamais tratava os escravos, que viviam em liberdade e recebiam salário, como propriedade [grifo meu].” A contradição é evidente, e a saída é o recurso constrangido do verbo tratar: Zélia e Jerônimo podiam não tratar seus negros como escravos, mas jamais permitiram que esses homens “tratados como livres” fossem “de fato” livres.
Outro motivo para a beatificação do casal é que seus escravos “iniciavam seu dia de trabalho com uma oração guiada por ela e acompanhada por Jerônimo, no coreto do pátio da fazenda”. O texto da Arquidiocese acrescenta que “a preocupação de Zélia e Jerônimo com a vida espiritual desses homens, mulheres e crianças era tão grande que eles sempre participavam da Missa, das confissões e da catequese promovidas pelo casal, e Zélia, pessoalmente, encarregava-se da catequese e da assistência aos escravos e necessitados”.
Em Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre cita (bem pouco criticamente, é verdade) o viajante Henry Koster, em relação à conversão de escravos ao cristianismo: “Não se pergunta aos escravos se querem ou não ser batizados; a entrada deles no grêmio da Igreja Católica é considerada como questão de direito. Realmente eles são tidos menos por homens do que por animais ferozes até gozarem do privilégio de ir à missa e receber sacramentos”.
A atenção religiosa de Zélia e Jerônimo, assim, se aproxima desse processo descrito: parece, pela própria descrição da arquidiocese, que eles não tinham a opção de participar ou não dos rituais católicos.
Alforria
Ora, não eram raros os casos, no final do século XIX, de proprietários que davam cartas de alforria aos escravos, para que eles vivessem não como se fossem livres, mas livres de fato. Alguns faziam isso apenas com os velhos, um processo extremamente cruel; outros, engajados na luta abolicionista, com todos. Como está registrado na trama do romance O cortiço, a carta de alforria era uma aspiração de muitos escravos, muitas vezes comprada com economias juntadas por anos.
Na literatura brasileira, mas claro que diretamente relacionado à experiência da época, vale lembrar o caso do negro Prudêncio, em Memórias póstumas de Brás Cubas. A manumissão (libertação do escravo) não era uma garantia do fim de uma relação complexa e assimétrica: Prudêncio, que servira de cavalinho a Brás Cubas na infância, já livre, compra um escravo e paga “com alto juro” a violência que sofrera. Ao castigar esse escravo seu, Prudêncio é surpreendido por um Brás que lhe pede para parar e é prontamente obedecido. “Pois, não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!”
Wikimedia Commons

Dom Orani Tempesta (à esq.), se despede do papa Francisco em julho de 2013, junto com o vice-presidente Michel Temer
Livre legalmente, Prudêncio seguia submetido à violência da lógica da escravidão, e mesmo quando castigava o seu escravo, ainda respondia primeiro às ordens do seu antigo senhor – que se sente alegre e moralmente superior por ter impedido o novo castigo, apesar de não ter feito nada para libertar o novo escravo nem para dar liberdade de fato para o ex-escravo.
O casal é, nesse aspecto, menos santo do que Brás Cubas. Não chegou nem a alforriar seus Prudêncios. Quem leu Memórias póstumas sabe o quanto isso significa.
O advogado do Diabo
Ainda no campo da literatura, cabe registrar um escritor que se notabilizou pelo conhecimento que tinha da hierarquia e das contradições do catolicismo: o australiano Morris West, um autor de ótimos best-sellers, que dedicou um livro completo ao dilema moral que é o processo de canonização: O advogado do Diabo.
Advogado do Diabo era o nome popular do Promotor da Fé (Promotor Fidei em latim), a figura da Igreja responsável por encontrar faltas e pecados que pudessem desqualificar um eventual candidato a santo. No romance, o cético profissional descobre que o padre que supostamente realizaria milagres no sul da Itália vivia com uma mulher e com ela dividia, despudoradamente, uma cama de casal. O drama do promotor da fé é que aquele candidato a santo parecia de fato ser um grande homem e talvez até seus fieis tivessem sido agraciados com milagres, embora ele, em vida, houvesse rompido uma regra de ouro para o Vaticano – o celibato dos líderes religiosos.
O processo de beatificação e de canonização, no entanto, passou por grandes mudanças durante o papado de João Paulo 2º (antecessor de Bento 16, por sua vez antecessor de Francisco). Em tese, desde 1983, ficou mais rigoroso, com exigência maior de comprovação científica de milagres. Na realidade, tornou-se mais burocrático, com maior circulação de papeis e certificações. Ao impor certa ordem na bagunça que era a política da santificação, e eliminar a figura do promotor da fé, João Paulo 2º na verdade facilitou o processo, e o resultado foi o crescimento vertiginoso no número de beatos e santos.
Nos últimos meses, o papa Francisco tem feito inúmeras declarações e movimentos no sentido de reaproximar a Igreja Católica de um discurso de preocupação com os pobres e humildes. Lavou pés de mendigos, foi menos duro que Bento 16 com relação à homossexualidade e fez críticas abertas e gestos concretos contra cardeais envolvidos em suspeitas transações financeiras. Mas agora, depois de um movimento celebrado inclusive por católicos ligados às posições mais progressistas, um processo constrangedor, vindo do Brasil e das mãos de um cardeal, cairá em seu colo.
Como ele se posicionará? Talvez o melhor, dessa vez, fosse o papa assumir a postura crítica de um “promotor da fé”.
Gilson AS
29 de janeiro de 2014 12:35 pmPutz !
Dono de escravo virar santo ! ?
Por melhor que fossem, eles escravizavam.
Seria melhor canonizar os pretos velhos e as vovós.
Athos
29 de janeiro de 2014 1:03 pmAdoro estes tópicos
Adoro estes tópicos revisionistas.
Do ano 1000 AC até o ano de 1800, quase todo mundo tinha escravos.
JB Costa
29 de janeiro de 2014 1:24 pmThis comment has been deleted.
Almeida
29 de janeiro de 2014 2:17 pmEpa!!
Lava essa boca suja, JB, para falar de Dom Adriano. Ele foi vítima de sequestro e tortura durante a ditadura. Combatia e denunciava o regime, emprestava apoio aos movimentos populares. Quem lutou na oposição naqueles tempos, no Rio e na Baixada, sabia que tinha em Dom Adriano Hipólito um apoio. Era um indescansável lutador pelos Direitos Humanos. Não suje assim a memória de um homem digno e corajoso, que o povo da Baixada reverencia.
Alguns depoimentos:
http://advivo.com.br/blog/louzada/homenagem-a-dom-adriano-hypolito
[video:http://www.youtube.com/watch?v=LkXYOMEvnhM%5D
[video:http://www.youtube.com/watch?v=kaKW4LZvRvY%5D
[video:http://www.youtube.com/watch?v=z5HGE0tdQzs%5D
JB Costa
29 de janeiro de 2014 3:10 pmIa apagar meu comentário
Apaguei o comentário tendo em vista que tens razão quanto à desastrosa referência a Dom Hipólito.Cometi um ERRO CRASSO e talvez imperdoável. .
Assim, peço SINCERAS DESCULPAS A TI e a todos os demais comentaristas por esse desatino. Realmente, Dom Hipólito agiu exatamente ao contrário. Sofreu, inclusive, como alegas, perseguições do regime.
O bispo a quem quis me referir foi Dom Geraldo de Proença Sigaud, bispo de Diamantina.
Como se tratou de equívoco posso te asseverar que não sou “bôca suja”. Sempre procurei pautar minha participação no corpo de comentaristas com ética e respeito. Mas não sou infenso a erros e sempre procuro aprender com eles, como é o caso em tela.
Grato pelo alerta.
Almeida
29 de janeiro de 2014 3:25 pmDesculpe-me o “bôca suja”.
Se fui duro, não foi para lhe ofender pessoalmente, a quem acho pessoa de boa fé e caráter, mas foi realmente para alertá-lo, porque eu vi nela uma injustiça, que eu sabia que você ia corrigir, como agora faz. Parabéns pela correção e um abraço.
CELSO ORRICO
29 de janeiro de 2014 1:50 pminclusive o..
inclusive o primeiro Presidente dos EEUU, George Washington..
Dulce (Madame X)
29 de janeiro de 2014 5:36 pmRealmente, este casal
Realmente, este casal maravilha deviam ser mesmo umas candurinhas…tanto que só libertaram os seus escravos POR FORÇA DA LEI.
Se tinham, é porque compravam…se compravam também vendiam…se vendiam SEPARAVAM PESSOAS de entes queridos… viu só como são cândidos ?!
Devem ter deixado em testamento, à favor da Igreja, “muita vela prá queimar…pelos séculos afora, até virarem santos”. Vide : ” A MORTE É UMA FESTA” do historiador/professor João (UFBA)
Dulce (Madame X)
29 de janeiro de 2014 1:11 pmDom Tempesta está criando uma
Dom Tempesta está criando uma tempestade…e um escracho com TODOS OS BRASILEIROS.
Dono de escravos virar santo…é D. Tempesta querendo criar “a jabuticaba do céu”, no Brasil. Duvido que alguém seja tão insano para propor uma obcenidade desta em qualquer paróquia do mundo…só mesmo na paroquia do Tempesta!
José luis da Silva
29 de janeiro de 2014 1:50 pmVão cassar a Santidade de
Vão cassar a Santidade de DAVID, SALOMÃO e ABRAÃO também?
Helio J. Rocha-Pinto
29 de janeiro de 2014 3:03 pmMitos
Mitos
morallis
29 de janeiro de 2014 3:55 pmDe cronos, zeus, Gilgamesh ,
De cronos, zeus, Gilgamesh , Odin…..
morallis
29 de janeiro de 2014 3:53 pmTem gente que sonha com a
Tem gente que sonha com a canonização de Mário Covas, então tudo pode .
Mas creio que deva existir mais “santos” que foram senhores de escravos ou
algo do gênero ,como empresários bonzinhos que usam e abusam de trabalho
escravo em suas empresas.
Itamar Branco
29 de janeiro de 2014 11:21 pmEscravidão…coisa normal…..ontem
Como catolico apostolico romano relaxado, estou me lixando para essa estória de beatificação, canonização ou demonização. Coisa arcaica, superada e ridícula que ainda faz parte do ritual católico. Deviam abandonar essa besteira que ainda faz parte da carolice de algumas “filhas de maria” ou “congregados marianos”. Não sei se tais personagens ainda existem, mas nos meus tempos de criança eram importantíssimos nas cerimônias.
Entretanto, são risíveis as manisfestações moralistas e de falso espanto diante da possibilidade de beatificação de um “casal senhores de escravos”. Espantoso é pautar o mundo de ontem com os olhos ou critérios de hoje. Escravidão era um costume normal, milenar. Tão natural que escravos alforriados também compravam e mantinham seus cativos. O proprio post lembra esse detalhe mencionando ninguem menos que Machado de Assis.
Mas no texto há um penduricalho interessante: no 5º parágrafo o autor se sente autorizado a deduzir e afirmar que a iniciativa do bispo carioca nada mais é que prestar uma homenagem ao casamento tradicional, um gesto afirmativo a respeito da união civil e religiosa……de homem e mulher.
Não preciso me estender. Nada da iniciativa eclesiástica nos autoriza tal dedução. É apenas vigarice intelectual do autor. Faz o proselitismo que lhe convém a respeito de um assunto pra lá de polêmico. Então me sinto à vontade para achar que o Sr Haroldo Ceravolo Sereza do Opera Mundi é SIMPLESMENTE UM PICARETA que imagina escrever para leitor idiota.