Por Maíra Vasconcelos, do Portal LN
Entrei nos protestos, desde a Avenida Corrientes, cheguei até a Abrahão Caram. Agora, preciso sair desse protesto, não sei bem como, mas devo voltar para a Avenida Independencia. Tento abandonar o protesto quase linchada por mim mesma, não mereço estar aqui, se me descobrem irão, no mínimo, atirar-me pela calçada ao lado, junte-se aos mendigos pedintes, aqui nós protestamos para não cair na miséria, somos contra as misérias do país; mas eu não vou a lugar nenhum, permaneço no caminho do protesto, pois sou contra a minha própria miséria, esse olhar de desdém e descrédito que lhes assomo agora, além da arrogância política contida em sobrancelha arrepiada, por essas e outras misérias só minhas, caminho.
Faço pensamento positivo para que ninguém me descubra aqui, sou olheira, infiltrada, quase uma traidora do movimento, diz aqui um hippie punk do meu lado, tento escutar essa música para atar fogo nesse estado de ânimo do desânimo, estou farta, começo a temer ser uma reacionária. Quero voltar para a Avenida Independencia, naquelas imediações do bairro de San Telmo, mas continuo é na Praça Sete, o Obelisco reduziu-se ao Pirulito, e quero ver o Obelisco, preciso sair do protesto, não consigo, caminho, um passo mais e ainda mais arrogante desmereço assinar qualquer manifesto, não, não vou assinar, sigo o caminhar com rosto de Judas e o coração de mendiga, ah, minhas misérias, transito a calçada, penso sentar em um bar, vinho, é o que eu preciso, um vinho, tento cooptar alguns, não me escutam, volto e me junto feito mulher de espionagem com binóculo afundo nos cartazes, rio, sim, estou rindo também, tento não gargalhar em cima das palavras “revolução é o novo curtir”, tampo a boca, quase cuspi no pobre cartaz, sou uma infame, sinto na pele o escárnio da soberba, chego a acreditar que sei mais de política que todos juntos e embolados, quero sair daqui, não posso ser assim.
Mas não posso sair do protesto porque tenho que ver e saber e ter certeza que sei mais de política que todos vocês, preciso fazer memória ao meu avô, ex-prefeito, à imagem da minha tia militante com a bandeira vermelha pendurada ao lado da cama, à imagem eterna da minha mãe quando a vi exprimir águas de raiva em 1989, devo fazer jus ao meu susto de ver mãe triste, fazer memória a mim mesma frente aquele momento em que entendi perfeitamente que aquilo era uma coisa importante, aquilo que se apresentava aos meus olhos de 8 anos, através do rosto deformado de uma mãe, isso que nascia ali, sem vergonha, desse modo brutal como nasce qualquer animal, e que gritava: isso é política.
Por isso, tenho que continuar a caminhar aqui?, e por toda essa herança familiar cultural educacional política, e enjoativa, caminho e desprezo a todos, é tão óbvio ver que sei mais de política que vocês, proponho, façam fila e vamos começar a discussão, os imagino sem palavras, eles não podem comigo, é evidente. Por isso, preciso sair daqui, estou na Antônio Carlos, só preciso pegar um ônibus e voltar para a Avenida Independencia. Alguém sabe onde pego o ônibus para sair do protesto e chegar à Avenida Independencia, por favor!?
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