10 de junho de 2026

Ruralômetro 2022: 8 dos 10 deputados mais antiambientais conseguem se reeleger

Percentual supera a taxa de reeleição dos membros da bancada ruralista (65%). Pior pontuado, Nelson Barbudo (PL-MT) não tomará posse em fevereiro
Representantes da Frente Parlamentar da Agropecuária, mais conhecida como “bancada ruralista”, anunciaram na quarta-feira (5) apoio à reeleição de Jair Bolsonaro. | Foto: Reprodução/Facebook

da Repórter Brasil

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Ter atuação muito desfavorável ao meio ambientepovos indígenastrabalhadores rurais e outras comunidades do campo pode ter sido um bom negócio para os deputados federais que disputaram a reeleição. Dos dez parlamentares que mais votaram medidas e apresentaram projetos de lei negativos à agenda socioambiental, oito tiveram êxito na campanha deste ano – uma taxa de sucesso de 80%.

O índice de permanência dos parlamentares antiambientais é maior do que o apurado para todos os deputados federais eleitos em 2018 que concorreram neste ano: dos 424 que buscaram se reeleger, 66% conseguiram. É também superior ao da bancada ruralista, na qual 65% dos membros que tentaram a reeleição tiveram êxito, segundo a Folha de S.Paulo.

O cálculo da Repórter Brasil considera apenas os deputados que tentaram permanecer na Câmara, excluindo os que foram candidatos a senador, governador ou a outros cargos. Os suplentes também não entraram na conta. A análise dos políticos mais antiambientais foi feita com base no  Ruralômetro 2022 – ferramenta que avalia a atuação socioambiental dos parlamentares. A pontuação individual de cada político foi aplicada à escala da temperatura corporal humana, podendo variar de 36º C a 42º C: quanto mais alta a temperatura, maior a “febre ruralista” do deputado. 

“Nestas eleições, os eleitos são representantes de posições mais definidas. Parlamentares de direita perderam posição para parlamentares mais à direita”, avalia Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama. Para ela, esse fenômeno – que aconteceu também com os partidos de esquerda – ajuda a explicar o bom desempenho nas urnas dos deputados mais antiambientais.

Entre os reeleitos, quatro tiveram “febre ruralista” acima dos 40°C no Ruralômetro 2022. É o caso de Lucio Mosquini (MDB-RO, 41,3°C), autor de cinco projetos negativos para o meio ambiente na atual legislatura. Suas propostas fragilizam a fiscalização ambiental e abrem brechas que podem beneficiar invasores de terras públicas.

Com discurso de campanha pautado por fake news de caráter moralista e detentor de um passado violento como policial, o ex-delegado Éder Mauro (PL-PA, 40,9°C) também ganhou mais quatro anos na Câmara. Mauro se posicionou de forma desfavorável ao meio ambiente e aos povos do campo em todas as votações nas quais participou, além de ter apresentado pelo menos dois projetos pró-garimpo. 

Outro que terá mais um mandato é o deputado Nicoletti (União-RR, 40,2°C), cujo histórico de atuação inclui 21 votos e 3 projetos desfavoráveis para a causa socioambiental. Em nota, a assessoria do parlamentar considerou que a análise dos projetos de lei pelo Ruralômetro é “totalmente distorcida” e não representa “os interesses da sociedade e das populações diretamente atingidas pela regulamentação” (leia a íntegra).

O ex-policial rodoviário José Medeiros (PL-MT, 40,1°C), que contou com o financiamento de ruralistas que acumulam multas ambientais, também se reelegeu. Conforme a Repórter Brasilmostrou, o deputado apresentou projetos que tentam fragilizar a fiscalização ambiental e podem, assim, beneficiar seus doadores de campanha. 

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Quarto pior colocado no Ruralômetro 2022, o deputado Nicoletti (União-RR) vai ficar em Brasília por mais quatro anos (Foto: Reprodução/Facebook)

Ex-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, Alceu Moreira (MDB-RS, 39,9°C) é outro dos deputados antiambientais que permanecerá no cargo em 2023. Nos últimos quatro anos, o político viu seu patrimônio saltar e votou 22 vezes contra o meio ambiente e os povos do campo. Sobre a evolução do patrimônio, a assessoria do deputado disse que seus “bens e recursos são todos legais, adquiridos com o trabalho e declarados”, e que iria pedir correção da declaração prestada ao TSE, que estava incorreta. Em relação ao desempenho de Moreira no Ruralômetro, não quis comentar.

Completam a lista de deputados mais antiambientais que conseguiram se reeleger Capitão Derrite (PL-SP, 39,9°C), Caroline de Toni (PL-SC, 39,9°C) e Luiz Nishimori (PSD-PR, 39,8ºC).

Por outro lado, o deputado mais mal pontuado no Ruralômetro terá de fazer as malas. Nelson Barbudo (PL-MT, 42°C) gastou mais de R$ 2,5 milhões em sua campanha, mas conseguiu apenas ficar como suplente para a próxima legislatura. O ruralista – que tinha sido o deputado mais votado em Mato Grosso em 2018 – tem histórico de multa do Ibama e apresentou projeto para reduzir de R$ 50 milhões para R$ 5.000 o limite das punições ambientais. À reportagem, Barbudo afirmou que se considera um defensor do meio ambiente e que estava recorrendo da multa recebida em 2005.

Na mesma situação está a Major Fabiana (PL-RJ, 39,9°C), autora de projeto que pode criminalizar movimentos sociais, que será apenas suplente a partir do próximo ano.

A campanha de Alceu Moreira (MDB-RS) também foi bem sucedida; deputado votou 22 vezes contra meio ambiente e povos do campo na atual legislatura (Foto: Reprodução/Facebook)

Na outra ponta do ranking, 4 dos 10 deputados com melhores notas no Ruralômetro não conseguiram permanecer na Câmara. São eles: João Daniel (PT-SE), Célio Moura (PT-TO), Professora Rosa Neide (PT-MT) e Ivan Valente (PSOL-SP). Já os dois mais bem posicionados no ranking, Nilto Tatto (PT-SP) e Patrus Ananias (PT-MG), seguem no Congresso, assim como Carlos Veras (PT-PE), José Guimarães (PT-CE), Marcon (PT-RS) e Valmir Assunção (PT-BA). Todos tiveram uma avaliação considerada 100% favorável para as causas socioambientais pelas 22 organizações consultadas.

Repórter Brasil entrou em contato com os gabinetes de Éder Mauro, José Medeiros, Lucio Mosquini, Capitão Derrite, Caroline de Toni, Luiz Nishimori e Major Fabiana, mas não recebeu posicionamento até a conclusão deste texto.

Dança das cadeiras

A análise dos deputados reeleitos não é suficiente para prever como a Câmara vai se comportar nos próximos anos em relação a temas socioambientais, já que 202 dos parlamentares que tomarão posse em 2023 são novatos. A evolução dos tamanhos das bancadas, porém, sugere um aumento da polarização na comparação com a legislatura atual.

Tanto o conjunto dos partidos mais ruralistas como o dos ambientalistas tiveram crescimento, em detrimento do centro político da Câmara. “É um quadro mais difícil de negociar, porque são pessoas que não vão sentar juntas”, avalia Suely Araújo. A especialista pondera, porém, que as posições do Congresso a partir de 2023 dependerão das eleições para o Executivo, uma vez que os deputados de centro tendem a se aproximar do poder, isolando os grupos mais extremos.

Considerado o terceiro partido mais antiambiental pelo Ruralômetro, o PL, do presidente Jair Bolsonaro, viu sua bancada crescer de 76 para 99 deputados e deve se tornar a maior legenda na Câmara em 2023. Dos partidos que mais votaram contra o meio ambiente e os povos do campo, o MDB também vai aumentar, passando de 37 para 42 deputados. Esses crescimentos, no entanto, foram parcialmente compensados pelas reduções nas bancadas do Republicanos, PSC, PP, PTB e Novo, que também tiveram atuação socioambiental majoritariamente desfavorável, segundo a ferramenta.

Novo, PTB, PL, PP, MDB, PSC e Republicanos são os sete partidos mais antiambientais da Câmara e terão cinco cadeiras a mais a partir de 2023 (Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados)

Pior colocado no ranking, o Novo, por exemplo, viu sua representação diminuir de 8 para 3 parlamentares. Já o PTB caiu de 3 para apenas 1 deputado federal. Com os recuos, as duas legendas perdem o direito de enviar representantes para os debates em TV aberta nas próximas eleições.

Somados, os sete partidos com pior desempenho no Ruralômetro terão cinco cadeiras a mais a partir de fevereiro de 2023, quando tomam posse (serão 239 deputados contra 234 atuais).

O aumento é similar ao conquistado pelos sete únicos partidos que não apresentaram “febre ruralista” – PSOL, PT, Rede, PCdoB, PSB, PDT e PV. Juntas, as siglas passaram de 121 para 125 deputados.

“Em geral, há uma piora, mas não chega a ser uma revolução, porque o Congresso já estava muito direcionado a atacar a pauta socioambiental. Vamos ter gente mais escandalosa, mas hoje já estava muito ruim”, lamenta Araújo.

(Infografia: Fernanda Segabinassi/Repórter Brasil)

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