Há um tempo escrevi aqui que Marta Suplicy era ao que de mais psdbista o PT de São Paulo havia chegado. A casca grossa e a cabeça dura me impedem de lembrar das resposta recebidas, mas foram as esperadas.
Pois bem, de há pouco para cá, comecei a notar na Folha um movimento martista. Marta é colunista da Folha, mas não era coleguismo. Minha Linda Loura, Eliane Cantanhêde, defendendo Marta não me pareceu solidaridade de gênero. Principalmente para quem no passado já defendeu com a mesma verve o direito cassado pelo PMDB de Antony Garotinho se candidatar à presidência da República. Lamentava, na verdade, na época, a falta de alguém que tirasse votos de Lula. Por que agora seria diferente?
E o que dizer de Rogério Gentile, tão preocupado com o tratamento dado pelo PT a Marta? Transformada por Lula, segundo Rogério, em uma serviçal de quem se espera apenas que sirva cafezimos e cuide do paletó do professor Haddad. Seria cavalheirismo indignado pela falta de respeito a uma dama?
Esses dois, minha Linda Loura e Gentile, são muito espertos. Mas não contavam com a astúcia de Daniela Lima que, ademais, teve o auxílio luxuoso de Gabriela Guerreiro.
Abaixo, três texto, dois deles deliciosos, que explicam a queda martista da Folha de São Paulo.
PSDB elogia Marta após boicote a ato de Haddad
Tucanos tentam fragilizar petista em SP ao chamar senadora de ‘corajosa’
Decisão de explorar o racha no PT paulistano foi tomada na bancada do PSDB, em Brasília, no início da semana
DANIELA LIMA
DE SÃO PAULO
O PSDB vai usar o boicote da senadora Marta Suplicy (PT-SP) à campanha de Fernando Haddad para fragilizar o petista na corrida pela Prefeitura de São Paulo.
A ideia é defender a atitude da senadora, que passou a ser chamada de “corajosa” pelos tucanos, e taxar a candidatura de Haddad como fruto de uma ação autoritária do ex-presidente Lula e, portanto, sem legitimidade.
Haddad é considerado o principal adversário do tucano José Serra na disputa municipal. A senadora desejava ser a candidata do PT, mas foi preterida por Lula. Desde então, ela tem evitado participar de atos da campanha.
A decisão de usar o racha no PT paulistano foi tomada em reunião da bancada do PSDB em Brasília, no início da semana. Ontem os tucanos defenderam a senadora.
“Houve uma intervenção autoritária no PT, que levou à indicação de um candidato sem legitimidade. A Marta teve coragem de apontar isso”, disse o deputado Walter Feldman (PSDB-SP), que participa da coordenação da campanha de Serra.
“Ela, a maior liderança do PT em São Paulo, passou a mostrar a distância que há entre Haddad e o eleitor.”
Já Marta desmentiu ontem especulações sobre sua saída do PT. “Bobagem”, disse ela, que evitou falar sobre o boicote ao evento de Haddad.
O presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE) acredita que Marta evidencia a insatisfação de uma ala do partido com Lula. Os tucanos vão vincular a crise em São Paulo a intervenções em outras capitais, como Recife.
Colaborou Gabriela Guerreiro, de Brasília
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/47370-psdb-elogia-marta-apos-boicote-a-ato-de-haddad.shtml
ELIANE CANTANHÊDE
Marta
BRASÍLIA – Linda, rica, inteligente, cheia de sobrenomes próprios e adquiridos, Marta Suplicy emprestou por 30 anos esse pacote paulistano quatrocentão para ajudar a edificar o PT e a ascensão de Lula.
Mas, se Marta sempre gostou de Lula e foi fiel a ele, não se pode dizer que a recíproca seja totalmente verdadeira. Lula nunca morreu de amores por esta mulher tão poderosa, cheia de si, que empurrou para o Turismo no seu governo.
Essa diferença explodiu na eleição para a Prefeitura de São Paulo. Com 29% a 30% em setembro, Marta liderava todas as pesquisas, em todos os segmentos, mas Lula estava inebriado com a vitória de sua criatura Dilma e decidiu que era hora do “novo” também na principal capital do país.
Marta tinha um trabalho bem avaliado na periferia quando prefeita e acabara de se eleger para o Senado. Haddad nunca tinha sido candidato a nada, andava enrolado com os erros do Enem e era capaz, como foi, de confundir Itaim Bibi com Itaim Paulista. Estava com 2% (hoje, tem 3%).
Lula não quis saber de conversa. Tirou a “companheira Marta” da frente, impôs Haddad goela abaixo da direção do PT, cooptou todo o grupo “martista”. O rei sou eu.
Ok. Lula tem instinto e Haddad é, de fato, um bom produto eleitoral, mas dá para Marta ficar feliz com o processo, com o jeito, com a imposição? Ponha-se no lugar dela. Não dá.
Criado o problema, os líderes petistas voltaram-se contra Marta. Avaliam que, se ela vier com Haddad, ajuda muito; se não, não atrapalha tanto quanto pensa. Até porque, com ou sem Marta, o PT tem o seu capital eleitoral consolidado e Lula cobre, de sobra, a força dela na periferia.
Conclusão: o PT vai usar e abusar da gestão Marta como vitrine, mas sem Marta. E ainda tripudia: ela não tem para onde correr. Primeiro, porque é inimiga quase pessoal de Serra e Kassab e, segundo, porque todo mundo que saiu do PT se deu mal.
Lula isolou Marta Suplicy.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/46928-marta.shtml
ROGÉRIO GENTILE
Café para Haddad
SÃO PAULO – Lula e o PT têm tratado Marta Suplicy como se a ex-prefeita de São Paulo fosse uma dona de casa dos anos 30. Marta, faça um café para o senhor Haddad. Marta, guarde o paletó do senhor Haddad. Marta, distribua uns panfletos para a campanha do senhor Haddad.
Marta tinha 29% das intenções de voto (Datafolha) quando Lula decidiu substituí-la por Haddad, com 2%. O ex-presidente avaliou que ela não teria chances no segundo turno em razão da rejeição que desperta em grande parte do eleitorado -30% diziam à época que não votariam em seu nome em hipótese alguma.
O problema não está no fato de Marta ter sido preterida, embora possa reclamar que a decisão deveria ter sido do partido, e não de uma única pessoa, ainda que esta pessoa seja Lula. Considerando as últimas eleições, quando ela foi sempre derrotada no final, o raciocínio do ex-presidente faz muito sentido.
O desrespeito à história da petista começa quando Lula e o partido tentam obrigá-la a participar de atos e a percorrer a cidade para apresentar Haddad aos eleitores. Não se obriga ninguém, muito menos uma mulher como Marta, a fazer o que não quer.
Educada para casar, ter filhos e tocar piano, ela estudou psicologia, apresentou, em plena ditadura militar, um programa na TV sobre sexo, foi deputada, prefeita, ministra e é senadora. Nunca teve papas na língua, tampouco se intimidou com o preconceito quando decidiu trocar de marido. Goste-se ou não dela, é uma mulher de brio.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/47295-cafe-para-haddad.shtml
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