A “revolução” no mundo árabe
As notícias sobre este assunto me parecem excessivamente otimistas. Pegando uma informação aqui e outra acolá, chego a pensar que a tal “revolução” ainda não aconteceu. Pode ser que venha a acontecer, mas o jogo apenas mal começou. Vejamos:
O primeiro-ministro do novo governo provisório foi nomeado por Mubarak no dia 29 de janeiro.
Todos os govenadores provinciais e membros do governo anterior, com raríssimas exceções, se mantêm em seus postos.
O novo governo civil a ser eleito por vias democráticas ainda é uma promessa sem prazo definido.
Os acordos internacionais foram mantidos. O exército, fortemente financiado pelo governo estadunidense, garante que serão preservadas as relações com EUA e Israel.
Havia no Egito uma ditadura militar (qual delas não o é?). Após a queda do ditador, o marechal (um militar, portanto) Tantawi, novo líder do governo, desfilou cumprimentando a multidão.
Enquanto isso, não há perspectivas para a solução dos problemas reais da população, associados à falta de emprego e de comida. “Renunciando, o presidente Mubarak respondeu à fome do povo egípcio por mudanças”, disse Obama. Com a explosão do preço das commodities, a fome do povo egípcio é mais embaixo.
Essa história toda, por enquanto, lembra aquela velha piada do cidadão que encontra sua esposa transando com outro no sofá da sala e resolve… vender o sofá. Até este momento, Mubarak é apenas o tal sofá. Numa revolução de verdade, assume-se o poder.
Felizmente, tendas de campanha e grupos de manifestantes permanecem na praça Tahrir. As lideranças populares e a Irmandade Muçulmana cobram agilidade na abertura do regime ditatorial.
Não basta, a partir de agora, assistir da janela à troca de governantes. O povo egípcio está de parabéns por sua bravura, mas ainda é muito cedo para comemorar. Há que se ficar a postos. Se não continuarem a pressionar o exército por mudanças rápidas e efetivas, os egípcios terão apenas se livrado de um sofá carcomido que estava há 30 anos na sala.
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