O debate presidencial promovido pela TV Globo na noite de sexta-feira (23) consolidou o acirramento da reta final das eleições, marcado por embates diretos, cobranças e recuos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou uma postura incisiva diante do candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), dominando a pauta com defesas de seu legado econômico e social.
O momento de maior tensão ocorreu logo no primeiro bloco, quando o candidato do PL utilizou o termo “nove dedos” para se referir ao petista, ao criticar o impacto de impostos no salário mínimo. A declaração gerou uma reação imediata do presidente, que exigiu retratação pela ofensa, decorrente de um acidente de trabalho sofrido aos 17 anos.
“Se tem alguém nesse público que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos fui eu, trabalhando à noite porque precisava trabalhar”, afirmou Lula. O petista completou: “Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos. Nunca trabalhou na vida, não sabe o que é uma carteira profissional. […] Você vai ter que pedir desculpa. O povo trabalhador está vendo. Milhares de trabalhadores se acidentam por irresponsabilidade patronal”. Pressionado, Flávio Bolsonaro recuou e pediu desculpas pela fala.
Recuos e histórico político
O pedido de desculpas pela ofensa pessoal não foi o único do senador na noite. Lula encurralou o adversário ao questionar seu voto contrário à ampliação da licença-maternidade para servidoras estaduais do Rio de Janeiro em 2009. Único parlamentar a votar contra o projeto à época, Flávio classificou sua decisão passada como um “erro“.
“Eu votei acreditando que isso poderia dificultar que as mulheres conseguissem arrumar emprego. Eu estava errado. Hoje, depois que eu casei, depois que eu tenho duas filhas, mais do que nunca eu sei da importância de a mãe estar perto do filho por até mais de 180 dias, se possível”, tentou justificar.
Para o cientista político e colunista do GGN Pedro Costa Jr., o desempenho do petista “fez Flávio Bolsonaro pedir desculpa três vezes em praça pública, passando o recibo“. Além das retratações sobre a ofensa pessoal e o voto contra a licença-maternidade, a terceira justificativa do candidato do PL envolveu a tragédia do assassinato da menina Ana Clara, com a “mãe dela indignada sofrendo na plateia“.
Economia, pandemia e apostas
Durante as discussões sobre o desenvolvimento regional, os candidatos divergiram sobre a paternidade de obras estruturais. Flávio atribuiu ao governo de Jair Bolsonaro a conclusão da transposição do rio São Francisco. Lula rebateu listando investimentos de suas gestões no Nordeste e cobrou equidade de tratamento para a região. O presidente também relembrou a crise sanitária no Amazonas e o comportamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, que debochou de pacientes com falta de ar durante a pandemia.
A pauta econômica também abordou a crise das plataformas de apostas online, as “bets”. Lula expôs o endividamento das famílias brasileiras afetadas pelos jogos de azar. Em sua análise, Pedro Costa Jr. pontuou que o petista associou a figura do adversário aos responsáveis pelo “Tigrinho”, destacando o impacto direto no bolso das mães de família. Além disso, Lula defendeu a política de valorização do salário mínimo e o fomento ao agronegócio.
Defesa da democracia
Nas considerações finais, o presidente buscou contrastar as biografias e alertou os eleitores sobre o peso da decisão nas urnas, polarizando entre a civilidade e o autoritarismo.
“Domingo é o dia que vocês vão se dirigir à urna e vão escolher o país que vocês querem, o presidente que vocês querem […] Eu queria primeiro agradecer a vocês tudo o que vocês fizeram e pedir o voto de vocês no domingo, porque ou a gente mantém a democracia funcionando, ou a gente vai ter um miliciano governando esse país, tentando voltar pro Palácio do Planalto, o que não é bom para ninguém”, declarou Lula.
Para Pedro Costa Jr., a atuação contundente coroou o melhor desempenho em debates de Lula desde os anos 1980, desenhando o cenário para o que ele avalia como “a maior virada da história da política desse país“.
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