Movimentos negro e indígena são os mais organizados contra Bolsonaro, diz cineasta Val Gomes

Cineasta fala ao GGN sobre o filme "Dentro da minha pele", discute as raízes do racismo no Brasil e lista as conquistas do movimento negro

O programa Cai Na Roda deste sábado (10/10) prestigia o encontro da luta antirracista com a sétima arte. A nossa convidada é a documentarista Val Gomes, uma mulher de ascendência negra e indígena que co-dirigiu, ao lado do cineasta Toni Venturi, o longa-metragem “Dentro da minha pele” (Olhar Imaginário, 2020), disponível na GloboPlay. 

Val é cientista social formada pela UNESP, pós-graduada em Arte Integrativa e estudou financiamento de projetos culturais na França, entre outros feitos.

Em entrevista à redação do GGN, ela fala do processo de produção de um filme sobre questão racial idealizado por um homem branco e descendente de italianos, como é Venturi.

Aos que questionam o “lugar de fala” do diretor, Val responde que o documentário foi, no final das contas, uma troca de aprendizados. “Tinha essa questão do letramento [racial], mas tinha ganho pra mim também. Eu passei a vida inteira convencendo chefes sobre as minhas ideias. O que sinto com o filme é que foi a primeira vez que teve um retorno imediatamente”, diz ela, que foi contratada para ser produtora e, de tanto problematizar e sugerir leituras para embasar cientificamente o documentário, acabou assumindo a codireção já na fase de montagem.

Nesta empreitada, a principal meta de Val parece ter sido sensibilizar e instruir a pessoa branca a respeito de seus privilégios e do racismo estrutural em suas formas mais “sutis”. 

Val faz questão de por na pauta a ação de branqueamento da sociedade brasileira. “O projeto de Brasil é sustentado na eugenia e no ’embranquecimento’, que é criar políticas para favorecer a imigração europeia para branquear a pele da população. Com isso, imaginavam que em 100 anos não existiria mais negro”, avalia.

Um produto desse processo histórico de apagamento que atravessamos após séculos de escravização é a figura do “brasileiro cordial”, o tolerante, aquele que nega o racismo estrutural. Uma falácia. “Tanto não somos cordiais que há duas políticas importantes que atingem as pessoas negras, que são as cotas raciais e a regulação do serviço doméstico. Dois momentos de muita reação da sociedade. Em 2006, até intelectuais e pessoas engajadas da esquerda eram contra as cotas.”

Val reconhece avanços nas ações afirmativas emplacadas pelos governos progressistas nas últimas décadas, e cita, para além das cotas e da regulação do trabalho das domésticas, a lei de ensino da cultura afro-brasileira nas escolas e a criminalização do racismo. 

O que mais precisaria ser feito a título de reparação histórica? Para Val, garantir a demarcação das terras quilombolas seria um primeiro passo. “É o mínimo, mas nem o mínimo a gente está conseguindo manter.”

A despeito da atual quadra histórica, Val entende que “os movimentos mais organizados no Brasil hoje são o movimento negro e o movimento indígena. São os que têm reação, estão mais organizados para combater Bolsonaro. A esquerda, na minha visão pessoal, parece que não está entendendo o que acontece.  Os partidos não estão conseguindo reagir como organização.”

Sobre os ataques às religiões de matriz afro, perpetrados por segmentos evangélicos mais radicais, ela avalia que é preciso “reivindicar” duramente o Estado laico. “A gente tem que combater deputados e vereadores que fazem uma atuação religiosa.”

Questionada sobre o papel da pessoa branca na luta contra o racismo, Val deu uma aula sobre situações do cotidiano que muitas vezes passam despercebidas por estes que não sofrem preconceito em função da cor da pele. “Qual o papel do branco nesse processo? Eu indicaria a leitura do livro da Djamila Ribeiro, o ‘Pequeno Manual Antirracista’, livro pequeno, muito simples, mas que colocam questões para brancos pensarem, se quiserem mudar esse tipo de sociedade.” É o que sugere, para começar.

O Cai Na Roda é um programa semanal de entrevistas realizado pelas jornalistas do GGN, com o intuito de dar voz e vez a outras mulheres de diversas áreas de conhecimento. Já recebemos Manuela d’Ávila, Hildegard Angel, Ana Estela Haddad, Gleisi Hoffmann, Esther Solano, Letícia Sallorenzo, Laerte Coutinho, Tata Amaral, Cilene Victor, Eliara Santana, Paula Nunes, Valeska Teixeira Zanin e Maria Lygia Quartim. Confira a playlist aqui. Todos os sábados, às 20h, tem episódio novo no canal do GGN no Youtube.

Leia também:  Manchetes dos jornais dos EUA

Participaram desta 14ª edição as jornalistas Lourdes Nassif, Cíntia Alves e Patricia Faermann.

Assista à entrevista completa abaixo. 

 

 

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1 comentário

  1. É difícil… grande parte dos evangélicos que critica os religiosos de matriz afro – é constituída de negros, grande parte dos policiais, que achacam negros, é constituída de negros, o segurança da loja, que vigia negros, é negro… São negros que aceitam participar do “mundo” branco ainda que como coadjuvantes.

    Fico com a impressão de que os negros dizem:

    “Queremos ter os mesmos direitos que os brancos têm de explorar outros negros e até brancos, queremos participar da sociedade não como explorados mas sim como exploradores.”

    Só que aí as desigualdades permanecerão…

    E de fato, na construção de uma sociedade menos desigual e injusta, as esquerdas percebem que as direitas estão ganhando porque conseguiram dar uma disfarçada na luta de classes inventando as pautas identitárias. Bem, já vinham fazendo isso com a invenção de shampoo para homens e shampoo para mulheres, por exemplo…

    P.S.: Não havia negros ex-escravos na Rússia da U.R.S.S., mas parece que onde havia diferenças… por exemplo, homens e mulheres eram tidos com menos desigualdades entre si do que em países que permitiam o capitalismo. A mulher ideal dos EUA nos anos ’50 era dona de casa, mãe e só.

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