O jornalismo que nunca houve, por Gustavo Conde

A profissão, que poderia ser o ponto de equilíbrio entre a democracia e o ímpeto assassino dos acumuladores compulsivos de poder e dinheiro, debuta apenas como um braço estendido na manutenção de tudo isso

Por Gustavo Conde

O discurso do jornalismo convencional é um só: é ‘polarização’ e ‘radicalização’. Seja Evo, Lula, Maduro ou quem quer que seja. É um repertório muito pequeno.

O do jornalismo alternativo é um pouco melhor. O que atrapalha é o clima de concorrência acadêmica para ver quem publica a melhor tese sobre o momento, o que torna a empobrecer o debate.

Eu admirava a profissão ‘jornalismo’ quando eu era pequeno. Achava que havia ali a possibilidade de um profissional completo, com conhecimentos de história, filosofia, comunicação, política, música, cinema, psicologia etc. Seria a profissão perfeita para quem quisesse uma relação de liberdade com o conhecimento, com as coisas do mundo, com a experiência estética, com as linguagens, com os gêneros do discurso.

Ledo e Ivo engano.

Poucas vezes eu vi uma profissão tão sucateada na sua essência, na sua estrutura curricular, no seu sentido elementar de existência.

A gente olha para a bancada de um programa como Roda Viva, por exemplo, e constata: todos são ‘simplórios’, com conhecimentos precários de história, de mundo, de estética, de filosofia, de sociologia etc.

Aliás, permitam-me que me corrija: os jornalistas que alçam posições de destaque na cena convencional são os piores. Os que emanam algum tipo de ‘luz’ são os iniciantes, frutas ainda não ‘estragadas’ pelo clima de covardia que impera nas redações. O texto deles é melhor.

Não à toa são apelidados de ‘focas’. É o doutrinamento ao que de pior pode existir no exercício de uma profissão: o jeitinho, o favor, a pretensão, o ar superior, a falsa liderança, a prepotência.

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E eles, ‘focas’, aceitam docemente o destrato. Acham bonito, romântico.

Porque, justamente, o marketing ‘pessoal’ da profissão é uma das suas raras dimensões executadas com competência: ainda há quem ache que ser jornalista lhe trará alguma garantia para escapar da mediocridade, da dureza das profissões ultra específicas e bitoladas.

Ledo e Ivo engano mais uma vez.

A gente cresce e perde as ilusões. Todo o ‘glamour underground’ de uma profissão escorre ralo abaixo. A coragem, a iconoclastia, o faro, o ‘apetite’, a aventura, a liberdade, a palavra, o texto, o cigarro, o copo de uísque, o cabelo desarrumado, a mesa bagunçada… Itens estilhaçados pela lógica do ‘funcionário do mês’, do ser leal ao patrão, do empregado doméstico no seu quartinho dos fundos, do cão  simpático que implora um cafuné nas orelhas.

Há exceções, é claro, mas são poucas – e habitam os nichos residuais mais improváveis.

Jornalista que se presasse deveria ser contra governos e contra o patrão. O resto é secos e molhados, como diria Millôr.

Há ainda, uma questão que povoa a minha cachola de linguista: por que raios os jornalistas resistem a investigar aquilo que lhes é mais preciso – a saber, a linguagem? É um escândalo.

Há teorias no campo para todos os gostos: pragmática, análise do discurso, semântica, linguística textual, linguística da enunciação e todo um universo de desdobramentos e estudos teóricos e práticos sobre o funcionamento da engrenagem social-econômica mais poderosa do planeta: a produção de sentido.

A explicação para essa indiferença é simples: jornalistas não podem ser inteligentes. E jamais poderiam descobrir como se fabrica o sentido das palavras que usam, nem quem são seus provedores preferenciais.

O jornalismo, tal como se desenvolveu ao longo do século 20, é apenas um mantenedor dos sentidos convencionais, postulados pelo mercado. O mercado, caros leitores, é dono dos processos de produção de riqueza, de tecnologia, de engenharia política e, acima de tudo, de sentido.

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A profissão, que poderia ser o ponto de equilíbrio entre a democracia e o ímpeto assassino dos acumuladores compulsivos de poder e dinheiro, debuta apenas como um braço estendido na manutenção de tudo isso, com flashs de lucidez (como Glenn Greenwald) justamente para manter a reputação de cúmplices do mercado e de profissão estratégica para o sistema.

Era bom sonhar em ser jornalista. Mas o sonho combina mais com um romance do que com a profissão em si.

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