Era meados de abril, início de maio de 2024, quando o pré-candidato Guilherme Boulos (PSOL) iniciava uma mudança de imagem na sua campanha política que pode ter lhe rendido o resultado deste último domingo, 27 de outubro, com a derrota para o atual prefeito Ricardo Nunes (MDB), por uma diferença de quase 20 pontos percentuais.
Naqueles meses, a equipe de campanha de Boulos entendeu que ele precisava falar com a direita paulista e tentar deslocar, de alguma forma, sua imagem do movimento do qual liderou, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e que com a pecha das Fake News ganhou um dos focos mais pejorativos de manipulações nas redes e grupos de WhatsApp.
O movimento, que na visão do paulistano promédio é sinônimo de “invasões”, e outras bandeiras da esquerda seriam as razões pelas quais Boulos carregava uma alta rejeição. Na visão da campanha do candidato, a mudança de imagem poderia diminuir a rejeição para conseguir votos e chances ao comando da Prefeitura.
A decisão se materializou ao adotar um tom mais moderado, dispensar bonés ou roupas de movimentos sociais, vestir camisa, gravata, terno, além de investir no digital. A postura foi vista por parte de seus seguidores e de analistas políticos como uma distância automática das ruas e de todo o trabalho de base que Boulos em outras campanhas adotava, e, ainda, sem a certeza de reduzir rejeição.
Assim enxergou o analista político e mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Frederico Krepe, segundo o qual Boulos errou nas decisões de campanha tomadas no 1º turno.
“A campanha do Boulos no 1º turno foi bem errática”, manifestou, ao GGN. “Essa questão de tentar forçar uma redução da rejeição, de tentar trabalhar uma suavização da imagem, tentando até, às vezes, emular ali um Lula de 2002 – que é até uma narrativa que eu considero errada, a de que o Lula ganhou porque ele moderou a imagem -, eu acho que acabou cobrando um pouco dele [de Boulos], porque isso não acabou efetivamente reduzindo a rejeição.”
Segundo o analista, que já atuou em campanhas políticas municipais e presidencial e acompanha o cenário das disputas políticas do país, Boulos começou a acertar no segundo turno, quando voltou a fazer política como antes. Mas, era tarde.
“Essa última semana, o Boulos fez debate na rua, indo na casa dos apoiadores, mas eu acho que foi feito no tempo errado. Ir, dormir na casa dos apoiadores, fazer evento dentro da casa deles, essa ideia é muito boa, mas ela tinha que ter sido feita desde o início de 2023. Que é quando ele tinha que ter feito uma construção muito mais intensa com essa base em São Paulo, para poder montar núcleo de apoio, montar estrutura local, montar grupo na internet”, explicou.
Para Krepe, a tática de visitar as pessoas, olho a olho, dormir nas casas dos eleitores, passar mais tempo com a população, é uma linha política do populismo, que segundo o pesquisador, não é equivocada, mas benéfica para as campanhas: “só se combate o populismo da direita com o populismo do lado oposto”.
“A pessoa que está ali vai sentir uma conexão com Boulos, ‘ele está aqui, está me valorizando, convivendo com a minha família’, isso tudo tem um impacto muito grande na questão de se sendimentar o apoio do eleitor. E isso, inclusive, ajuda a explicar muito, até hoje, a própria popularidade do Lula, que está acima da rejeição do PT.”
A exemplo do movimento político de Lula, usado inclusive de mentor por Boulos em sua campanha à capital paulista, Krepe relembrou que o presidente, quando fez suas viagens percorrendo o país, nas cidades do interior do Brasil, para fundar o PT, ele “se sentava com o pessoal e dormia na casa” das pessoas. “Essa identificação é importante. Mas Boulos tinha que ter trabalhado isso desde o início“, lamentou.
O analista confirmou que o peso e impacto das redes nas campanhas políticas pode impactar nas campanhas, mas defende que a estratégia das ruas, o trabalho de base, ainda tem efetividade nestes tempos, e é, inclusive, aliado forte nas disseminações digitais.
Assim como Lula e o ‘Boulos do segundo turno’, ele mencionou como exemplo de sucesso a estratégia que o partido de esquerda da Grécia, Syriza, usou no país em 2014 para obter a grande vitória das eleições da Grécia no Parlamento Europeu.
“Eles [parlamentares do Syruza] fizeram um trabalho muito forte de apoio social nos bairros mais periféricos, esse trabalho também mais politizado [de conscientização], não só distribuir cesta básica e ajuda aos mais pobres. Foi um projeto que deu muito certo, aproximou eles da população.”
Ao explicar como se alia o trabalho de base ao uso digital nas campanhas, Frederico Krepre ressaltou, contudo, o tempo necessário, sem a possibilidade de obter resultados em três semanas de campanha de segundo turno.
Ao ter contato com as pessoas, lideranças locais, regionais, comunidades, “você monta a sua base“: “Ali não é para ‘pegar voto’. Isso é para criar a base, uma pessoa que vai ser um aliado seu, que vai ter um ponto ali naquele território, que vai ter um grupo na internet que você vai ter contato com aquele grupo, se a pessoa te rejeita, você reverte essa rejeição. Ele não só vira apoiador, como difusor do seu conteúdo, do seu material depois, e isso vai irradiando pela internet. No momento que chega a campanha eleitoral, você tem uma capacidade de responder aos ataques muito melhor.”
“Porque a rede do Boulos não é pequena, mas a rede do Boulos é o pessoal que acompanha ele. Mas quando se faz essa estrutura, e organiza essa questão da rede junto com o território, ele consegue responder melhor”, continuou. “Mas o tempo é importante nesse caso porque vai se crescendo a partir dessa estratégia”, alertou.
Na entrevista que foi concedida neste domingo (27), antes da apuração das urnas, Krepe acertou o resultado: “Boulos deu uma corrigida no final, mas acabou não dando tempo. E acabou ficando nesse ‘meio do caminho’“‘, que pode acabar repetindo até um resultado muito próximo que ele teve em 2020, que foi 59% a 41%.”
Confira o trecho da entrevista de Frederico Krepe, ao GGN, ao analisar as eleições:
Paulo Dantas
28 de outubro de 2024 7:23 pmSoberba.
José de Almeida Bispo
28 de outubro de 2024 8:51 pmSão Paulo de Piratinga sempre foi de maioria reaça. Sempre.
Paulo Dantas
28 de outubro de 2024 10:02 pmErundina, Martha, Haddad, nem sempre.
ed.
29 de outubro de 2024 1:54 pmVerdade, mas graças aos imigrantes, não ao paulistano de Piratininga.
Cesar Rocha
29 de outubro de 2024 7:41 amDesde a muito, tenho a convicção que a opção de fazer campanha eleitoral a partir dos conceitos (=real concebido) do “marketing político” está destruindo a esquerda. A razoabilidade histórica indica que a esquerda deva fazer política nas ruas e campos – dialogar “in loco” com as agruras e espectativas dos cidadãos. Mover a esperança, que dá sentido às lutas. A candidatura de Boulos que se apresentava promissora, foi destruída pelos marqueteiros (dele e dos adversários).
Didico
29 de outubro de 2024 3:00 pmConcordo. Pela propaganda política, não se vê diferença entre os partidos de esquerda e os da direita. Então, por que o povo votaria naqueles?
Em 1982, Olívio Dutra começava a responder nos debates assim: “Nós do PT entendemos que …”, assim ele mostrava a diferença. Campanha política não é só pra ganhar hoje, mas amanhã também.
Outra coisa, falar mal do adversário significa falar dele e não de si. O povo vota em quem é falado, não em quem está quieto, sem mostrar a que veio. A melhor tática é não citar o adversário, essa lição a direita sabe de cor e salteado.
AMBAR
30 de outubro de 2024 2:53 pmPerfeito, a propaganda é a receita da vitória ou da derrota. Os candidatos são só mercadoria. Quem melhor manipula a atenção do cliente sai vencedor. Pela propaganda ninguém consome o que precisa e nem deixa de comprar o que prejudica, por isso compramos lixo e nos envenenamos com vícios mortais.
Sobre esquerda , direita e propaganda, a esquerda sempre foi o alvo predileto e inimigo eleito pela propaganda. Essa, em vez de se reinventar, como fizeram os partidos de direita desde a “revolução”, insistiram nas marcas PT e PSOL. Quem resistiria por mais de 20 anos a ataques diuturnos da mídia hegemônica exibindo canos de esgoto e fotomontagens achincalhantes de candidatos injustamente acusados de crimes imaginários? PT deveria ter mudado de nome muitas vezes e por muito tempo, como fizeram seus inimigos. Dividir para continuar governando e ter lealdade aos seus, como faz a direita, que é leal entre si enquanto está no poder.
Cleibsom
29 de outubro de 2024 9:39 amAh, esses engenheiros de obras prontas são sensacionais!!!A cidade de S.Paulo, apesar de querer passar a imagem de liberal e cosmopolita, sempre foi conservadora. Não podemos nos esquecer nunca de que Maluf é um ídolo para os paulistanos. O principal equívoco dos candidatos de esquerda é venderem a utopia social, enquanto o que impera na sociedade é a utopia individual vendida pelos “outros” como: fique rico sem trabalhar; se esforce e vença, pois deus está ao seu lado, etc, etc, etc…Percebam que todas focam no indivíduo e têm como base a “meritocracia”. Vivemos tempos cínicos e a esquerda, a verdadeira, parece não ter percebido isso!
ed.
29 de outubro de 2024 2:15 pmNão é a esquerda ou o Boulos que “estão errando”.
É uma contínua campanha, desde pelo menos o Mensalão (autor: Acadêmico de Letras Bob Jefferson), que criminaliza a esquerda e o progressismo desde então. Na época da ditadura “branda” da Folha, era a perigosíssima antropofagia comunista!
À esta campanha que criou o antipetismo raiz (sua rejeição) somou-se a abertura da caixa de Pandora do terraplanismo e do ódio de ultra direita que não discute idéias e propostas mas apenas ataca pessoas e instituições. Vejam no caso a figura de Pablo Marçal, da quase dupla bo-çal.
Boulos poderia sim ter falado mais do que ofereceria à classe média e superior, para tranquilizá-los mas, se fez foi de forma muito leve e tardia.
Ainda assim, os efeitos da permanente campanha contra o “invasor de proriedades” não se desfariam o suficiente.
Desde o início quando se tinha até uma maioria para Boulos (~30%) mas uma soma de Nunes e Marçal em níveis parecidos (~29 + ~29) que já se sabia que não dava, pois o eleitor somado da terraplana + o paulistano conservador era praticamente o dobro.
O restante era Tabata e Datena que no máximo deram mais um pouco para ele.
O que se conclui por tudo é que (infelizmente!) a vitória de Boulos seria um milagre.
Se há culpa, é desta soma de malucos de rede com a míRdia conservadora.
E até o PCC agradece…
AMBAR
30 de outubro de 2024 3:01 pmDupla Bo-Çal ( tirada de gênio ). Mas, de tudo o que se disse deduzimos que a esquerda ainda não está preparada tomar o poder pelo crime. Marçal está e pratica, Nunes concorda e se aproveita, Tabata observa e aprende e Datena reage.
MARTHA MASSAKO TANIZAKI
30 de outubro de 2024 9:50 amOs candidatos de esquerda devem ser “radicais” porque a desigualdade no Brasil é radical!! O que falta é educação política sobre essa desigualdade!!! Por essa razão eu discordo que uma tarefa urgente é uma politica para conquistar os evangélicos. Esta que deve ser uma fração mais atrasada da sociedade poderá ser conquistada com o trabalho de educação e esclarecimento a ser para toda a socidade