3 de junho de 2026

Os desafios de Maduro frente aos chavistas e à oposição

Por Maíra Vasconcelos, especial para o blog

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Maduro presidirá Venezuela: desafios frente aos chavistas e à oposição

Nicolás Maduro (Partido Socialista Unido da Venezuela-PSUV), eleito ontem presidente com 50.66% dos votos, poderá enfrentar um governo que será extremamente exigido e sofrerá pressões de modo singular na história democrática venezuelana. Duas são as vertentes: o próprio eleitorado chavista e a oposição fortalecida.

Este último tem a seu favor certo acréscimo de credibilidade por ter perdido com margem de 1,5% dos votos – Henrique Capriles (Mesa de Unidade Democrática-MUD) somou 49.07%, sendo que em outubro de 2012, chegou a 44.97% dos votos contra Chávez. Além de a oposição enfrentar um sucessor que não foi preparado, com identidade e liderança a serem construídas durante o mandato, problema advindo das características de governança personalista e centralista de Chávez.

Por outro lado, e mesmo ao lado de Maduro, os chavistas esperam minimamente a continuidade dos benefícios advindos do crescimento socioeconômico e vislumbram o avanço deste cenário. Têm plena consciência política, adquirida no processo da revolução bolivariana chavista, iniciada em 1999, de que o rumo igualitário da sociedade lhes é de direito.

Politizados, com consciência de classe e dispostos a lutar pela igualdade de acesso aos bens de consumo básicos, conquistados durante os governos de Hugo Chávez, o eleitorado chavista discute política incansavelmente. Com orgulho seus seguidores afirmam terem sido educados politicamente pelo comandante, têm visão ampla do que representa a esquerda venezuelana, hoje, em relação e em conjunto com os demais governos da América Latina. Com braços ao alto, afirmam a revolução vivida segundo as transformações adquiridas em seus cotidianos; exaltam os valores da resistência frente ao sistema financeiro capitalista, têm orgulho de servir ao Estado, e ser funcionário de empresa privada significa trabalhar para a oposição.

As impressões acima foram percebidas em dois dias, horas de convívio e conversas com moradores do bairro 23 de Enero, que com idolatria afirmam ser este “o coração do chavismo em Caracas”.  

“O povo votou pela memória de Hugo Chávez. Em seis anos, Maduro poderá ganhar seus próprios votos e formar sua liderança política. Mas esse voto foi pelo comandante. Uma proposta que nasça do Maduro virá depois, talvez. A liderança de Maduro agora é circunstancial”. A afirmação é de Oscar Ortega, que há quatro anos é líder revolucionário do grupo Fundação Augusto César Sandino, que atua no 23 de Enero.

Em uma roda com cerca de oito jovens, às vezes, éramos doze, entre motos estacionadas e arrancadas no vai e vem das eleições vermelhas no 23 de Enero, declarações de fervor pela política. “Agora, o Estado terá que fazer o que povo pede. Nós fizemos a revolução com Chávez. Ele nos deu consciência política latino-americana. Nicolás não fará o que ele quer, será feito o que nós necessitamos”, disse, contundente, Alfredo Gonzalez, que estuda para Criminalista, na Universidade Nacional Experimental de Segurança (UNES).

Ele esperava o resultado das eleições para saber quem seria seu próximo chefe, pois trabalhou como encarregado da segurança do presidente Hugo Chávez, por cinco anos, em Caracas. Gonzalez contou serem mais de 200 os funcionários do Estado que prestam serviço de segurança ao presidente, em Caracas, função restrita á averiguação do local, um dia antes, onde o presidente fará um ato, apresentação e visita públicas.

Ainda sobre os ensinamentos políticos tidos como repassados pelo comandante Chávez: consciência sobre os direitos trabalhistas, o valor comunitário de trabalhar para o Estado, e o capital privado como mantenedor do sistema financeiro capitalista. “Trabalho para a oposição, o que quer dizer, para uma empresa privada. Não tenho os mesmos benefícios, nem trabalho os mesmos dias e horas, como se fosse funcionária do governo”, contou Maya Ramirez, que cursa Administração.

Cultura com Chávez e que tem que seguir

Um casal de artistas camaquenses, moradores do 23 de Enero, cedem congratulações às épocas de Hugo Chávez, pelo acesso e popularização das artes culturais. Não cogitam a possibilidade de que não seja este o rumo a ser seguido por Nicolás Maduro.

“A cultura tem surgido, e já não é mais apenas para quem tem dinheiro. O teatro era quase clandestino. E sempre existiram os que fazem teatro de consciência, teatro de esquerda. Antes, era apenas o teatro comercial. Com o governo de Chávez vejo progresso. Uma vez ao ano, acontece o festival de teatro. Teatro não é mais para artistas, atrizes e atores que têm dinheiro e trabalham nos meios”. Contava Sixcelis Ramirez, em conversa no bloco 42, Zona F do 23 de Enero, que estuda teatro na Universidade Cesar Rengifo. 

Seu companheiro, Jeferson Camejo, além de tatuador, é um dos dez muralistas de Caracas que trabalha para o governo, vinculado á Corporação de Serviço do Distrito da Capital. Esses funcionários públicos atuam em diferentes frentes de trabalho, encarregados pela limpeza e manutenção de Caracas. Por exemplo, atividades de poda de árvores e coleta de lixo. “Durante a campanha do Maduro nos mandaram á várias partes da cidade. Também pintamos os símbolos nas escolas, mas a maioria dos trabalhos é de murais políticos”, afirmou Camejo.



Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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