Pode dar certo. De vez em quando dá errado, por Alon Feuerwerker

Talvez o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril não venha a produzir maiores consequências jurídicas. Vamos aguardar. Mas já produziu efeito político

Foto: Reuters/Adriano Machado

Pode dar certo. De vez em quando dá errado

por Alon Feuerwerker*

O título é acaciano, eu sei. Mas vamos lá.

A história regista que a tática eleitoral do PT em 2018 acabou dando errado no segundo turno. No primeiro deu certo. Mesmo fortemente fustigado havia anos, o partido levou seu candidato à final presidencial e elegeu boas bancadas legislativas, além de manter razoável cota de governadores, próprios e aliados. O que deu errado, para o PT, foi a eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República.

No desenho tático petista, a ida de Bolsonaro à decisão permitiria, até forçaria, a formação de uma frente ampla antibolsonarista, e a onda montante acabaria dando a vitória a Fernando Haddad. A história também registra que essa frente nunca chegou a se formar, pois uma parte dos votos potencialmente frentistas absteve-se, e outra votou mesmo foi no capitão. É a fatia de mercado que até há pouco achava o governo regular mas apostava que acabaria melhor.

Por uma dessas curiosidades históricas, a linha estratégica do bolsonarismo rumo a 2022 é aquela mesma petista, só trocando o sinal. Supõe que basta manter fiel algo em torno de 30% do eleitorado, apostar num replay da polarização do segundo turno de 2018 e levar novamente a taça para casa surfando na onda do antipetismo, ou do antiesquerdismo, ou do anticomunismo. Tem lógica. Como tinha muita lógica a linha petista de 2018.

O que pode dar errado agora? A mesma coisa que deu errado em 2018. Na operação para manter a hegemonia no núcleo mais fiel da base, você acaba produzindo atritos em volume suficiente, acaba isolando-se numa intensidade cujo efeito colateral é dificultar lá na frente o reagrupamento. Cria-se uma situação em que o adversário nem precisa se esforçar muito. Ele acaba fazendo uma colheita de votos quase espontânea.

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Talvez o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril não venha a produzir maiores consequências jurídicas. Vamos aguardar. Mas já produziu efeito político. Dificultou um pouco mais aos não bolsonaristas de raiz apresentar o atual presidente como alternativa aceitável. Não chega a ser irreversível, mas o quadro merece atenção. Também porque a ofensiva contra certos importantes personagens institucionais vai pedir destes algum tipo de resposta.

E eles têm tempo para isso. A vingança, sabe-se, é um prato que pode perfeitamente ser comido frio.

Entrementes, à esquerda basta esperar e assistir ao progressivo descolamento entre a direita e o chamado centro. Esta semana o PT e partidos aliados entraram com um pedido de impeachment. Talvez deva ser visto como o cumprimento de um ritual. Aquilo que na política se chama “ocupar o espaço para evitar que outro ocupe”. A esquerda fez o que dela se esperava. Se não der em nada, sempre poderão dizer que fizeram algo.

Mas é visível, até palpável, o pouco entusiasmo na esquerda pela ideia de impeachment. Se Bolsonaro é a instabilidade, o que viria na sequência seria a estabilidade do mesmo projeto.

À esquerda basta agora assistir ao esgarçar da frente adversária, avivando de vez em quando a fogueira que consome as boas relações entre a direita e o dito centro. A reunião ministerial ofereceu matéria-prima abundante para a continuidade do esgarçamento. Que poderá ser potencializado no momento certo por o Brasil caminhar forte na disputa do pódio de mortes pelo SARS-Cov-2.

E tem ainda a economia. Last but not least.

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Alon Feuerwerker é jornalista e analista político/FSB Comunicação

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4 comentários

  1. —“Foi aí que nós resolvemos quebrar o protocolo do Ministério da Saúde e testar todos os 213 trabalhadores. Achamos, no total, 63 infectados. Apenas um deles com sintomas”, esclarece Rafael Lucas. —

    Após alta de 273% nos casos de COVID-19, Jaboticatubas entra em lockdown
    Medidas restritivas valerão só nos fins de semana a partir deste sábado (23); empreiteira que atua no local teria acelerado avanço da pandemia; entenda
    Jornal Estado de Minas—Cecília Emiliana—postado em 22/05/2020 12:44 / atualizado em 22/05/2020 18:03

    —-“Nós tínhamos iniciado uma flexibilização das atividades por aqui. Hoje, já reduzimos os horários e, no sábado, fecharemos tudo. A ideia é não só restringir a circulação da população local, como também a de pessoas que têm casa por aqui e frequentam a cidade nos finais de semana”, explica o prefeito Eneimar.

    Consta no censo do IBGE que cidade tem 20.143 habitantes. Pelos cálculos do prefeito, frequentadores eventuais somariam mais 10 mil à comunidade. Dados do informe epidemiológico da Secretaria Municipal de Saúde apontam que o município tem 71 infectados e 147 casos suspeitos.—
    —‘Empreiteira espalhou vírus’
    Conta o secretário de governo Rafael Lucas que a disparada de casos de COVID-19 em Jaboticatubas – 19 para 71 em um dia – foi causada por colaboradores da empreiteira Cobra Brasil, instalados na localidade.—
    —Rafael Lucas diz que a equipe mobilizada no projeto reúne 213 pessoas. Uma delas apresentou sintomas da virose e foi testada. Diante do diagnóstico positivo, a secretaria municipal de saúde decidiu aplicar o exame às 47 pessoas mais próximas do convívio do trabalhador. Treze delas teriam acusado a presença do vírus – todas assintomáticas. —
    —“Foi aí que nós resolvemos quebrar o protocolo do Ministério da Saúde e testar todos os 213 trabalhadores. Achamos, no total, 63 infectados. Apenas um deles com sintomas”, esclarece Rafael Lucas. —

    https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/05/22/interna_gerais,1149765/apos-alta-de-273-nos-casos-de-covid-19-jaboticatubas-entra-em-lockdo.shtml

  2. Justamente. O vídeo em questão não apenas não terá consequências judiciais como apenas confirma o desejo de muitos dos eleitores de Bolsonaro, inclusive daqueles que publicamente torcem o nariz para suas baixarias popularescas mas no íntimo acreditam que a manutenção de elites – e de seus privilégios – é necessária. Ninguém, naquele vídeo, disse coisas que não sejam ouvidas entre nos convescotes da “direita”.

    Aliás a “direita” nunca foi legalista pois que leis são do âmbito do estado. Que empresário ou mesmo trabalhador recolhe impostos de bom grado a um estado infestado por pessoas que visam seus interesses pessoais? Imagina se alguém tem coragem para botar nos textos legais, por exemplo, que punições legais são aplicáveis apenas a quem não é da elite. No entanto aqui ou em qualquer parte do mundo essa seletividade é amplamente aplicada. A lei escrita e a lei que se pratica são muito distantes uma da outra.

    Enfim a divulgação do vídeo ajudou o Capital e suas “feras” no reforço da aceitação de sua barbárie como natural e não ao trabalhador cidadão, ao mais vulnerável.

  3. Mas a direita també tem suas cartas na manga. Pode esperar até 2021 e se o governo estiver caindo pelas tabelas (muito provável), anula as eleições e elege um presidente tampão via Congresso. E o provisório pode virar permanente, mudando de presidencialismo para parlamentarismo, sem consulta popular. Em nome da civilidade, governabilidade e estabilidade. Se isso acontece, com as regras eleitorais vigentes, o Congresso continua Bibli-Bala-Boi mais Empresariado e a esquerda vai ficar um longo período longe do poder.

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