A raiz do problema da corrupção política

Hoje em dia, quando chegamos a qualquer país, nosso primeiro contato com a política local se dá por meio do último escândalo de corrupção. Uns poucos atravessam fronteiras, como o que envolveu Sarkozy e a dona da L’Oreal, mas a maioria absoluta fica restrita ao noticiário político nacional, pois envolve figuras completamente desconhecidas fora do país. Entre verdades e mentiras, exageros e omissões, a resultante é clara: a política se banditizou no mundo todo. Não se faz política, hoje, sem envolvimento em esquemas criminosos. Não se trata mais da corrupção antiga, cuja única razão de ser era o enriquecimento ilícito dos envolvidos. O fato novo é que a corrupção, hoje, tem como razão de ser a própria sobrevivência política dos partidos. No mundo todo, com pequenas variações locais, encontramos exatamente a mesma situação que temos no Brasil: eleições envolvem espetáculos midiáticos, que custam centenas de milhões de dólares, que  por sua vez precisam ser recolhidos junto à iniciativa privada. Esta última “colabora”, desde que tenha retorno garantido depois. E o retorno, neste caso, atende sempre pelos mesmos nomes: contratos superfaturados, concorrências fajutas, informações privilegiadas, e por aí vai.

Como a política se banditizou, a discussão política se judicializou. Uma parte fundamental das ações e das discussões políticas tem como eixo, não planos de governo e concepções de sociedade. Este tipo de discussão foi transferido para dentro dos partidos, e praticamente não vem à tona. Resolve-se em lutas internas, das quais só ouvimos no noticiário alguns ecos distantes. Ações e discussões políticas têm como foco os crimes supostamente cometidos pelos adversários e as tentativas de levar esses adversários para a cadeia. Estamos ficando cada vez mais fluentes em detalhes abstrusos da legislação processual. Nesse processo, a grande imprensa tem papel fundamental. As denúncias só se amplificam caso encontrem ressonância nas manchetes. A imprensa deixa de ser, assim, uma observadora crítica e passa a ser parte integrante da luta política cotidiana. Cooptar grandes grupos de mídia torna-se uma etapa fundamental na vida dos partidos, e cooptar partidos torna-se uma parte fundamental do gerenciamento das grandes empresas de comunicação.

Do ponto de vista de quem acredita na democracia representativa, isso distorce completamente os mecanismos de formação da opinião pública. Curiosamente, porém, essa distorção é vista como positiva pelos setores mais conservadores da sociedade. A grande preocupação desses setores sempre foi e sempre será a tensão que existe entre a desigualdade econômica que move o capitalismo, de um lado, e as potencialidades transformadoras do regime democrático. Do ponto de vista conservador, a democracia tem que ser domada, mantida dentro de limites estreitos, afastada de questões perigosas, como distribuição de renda e controle do capital. A banditização da política aparece para essas forças conservadoras como um mal menor, quando não um bem. Por dois motivos. Primeiramente, o debate fica esvaziado de conteúdo, reduzindo-se a um Fla-Flu no qual cada parte tenta mostrar que a parte contrária é “mais corrupta”, e que seus principais líderes merecem ir para a cadeia. As questões perigosas são mantidas, assim, a uma distância segura. Além disso, os políticos todos — e muito especialmente os de esquerda — já chegam ao poder com culpa no cartório, com as mãos sujas, vulneráveis a campanhas midiáticas movidas pelo mecanismo da denúncia seletiva.

O partidarismo da grande mídia, que antes se manifestava na mera veiculação e defesa de pontos de vista conservadores, agora pode se manifestar de maneira aparentemente neutra e enganosamente virtuosa: ganho os contornos da defesa da moralidade na luta contra o crime. O modelo do jornalista contemporâneo passou a ser um José Luiz Datena. Os jornais, revistas e emissoras de televisão encheram-se de repente de Catões grandiloquentes movendo uma cruzada contra os agentes do Mal.

É a partir dessa equação perversa que podemos entender o debate político contemporâneo, sobrecarregado de um moralismo hipócrita e seletivo (de parte a parte). É esse o nó que a esquerda tem que desatar. Financiamento de campanhas eleitorais não é simplesmente um tema entre outros. É o tema central, que toca na raiz de todos os males. Enquanto for necessário levantar centenas de milhões de dólares junto ao empresariado, nenhum projeto político poderá se sustentar sem o recurso à corrupção. A política continuará essencialmente (e não episodicamente) banditizada, e a esquerda chegará ao poder com uma lâmina pendendo acima do próprio pescoço.

A saída é, a meu ver, muito simples: cortar o mal pela raiz, e exterminar a política baseada no espetáculo. Partidos políticos são estruturas burocráticas complexas, e precisam de dinheiro para se manter. O fundo partidário dá e sobra para isso. Campanhas políticas, por outro lado, não precisam custar um tostão furado. Políticos num estúdio, falando para toda a nação. Nada de Duda Mendonça, nada de tomadas externas, nada de artistas convidados, nada de animações, nada de efeitos especiais, nada de santinhos emporcalhando as ruas, nada de comícios, nada de caravanas pelo Brasil. A viagem, hoje, se faz por ondas eletromagnéticas, a custo zero. É por isso, a meu ver, que a esquerda deveria lutar. 

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10 comentários

  1. Feliz por ver você de volta!

    J.V.

    Antes de tudo, inclusive ler o seu post, quero dizer o quanto fico feliz por ver você de volta, o blog estava ficando totalmente monótono com os pros-governo com dificuldades em enxergar seus problemas (e são muitos) e os trolls diversos de baixíssimo nível, bem coerentes com nossa “oposição”, midiática ou política.

    Até o André Araujo estava ficando mais nervoso que o normal!

    • Palmas de pé!

      Agora li o texto e concordo totalmente.

      Só para os brasileiros entenderem do que JV está falando: o ex-presidente Chirac (UMP conservadores) da França, antecessor do Sarko-L’ Oreal, esteve envolvido num esquema de caixa 2 a partir da prefeitura de Paris (ele foi prefeito até 1995). Pois bem: ele usou seu cargo de presidente da república para evitar qualquer audição sobre esses casos (são vários delitos). Saiu da presidência em 2007, deu uma canseira nos juizes de instrução, e na hora H de ser julgado, ele tinha passado a idade, e com indícios de senilidade, foi retirado do caso sem condenação formal.

      Na Alemanha o ex-chanceler H. Kohl (CDU conservadores) teve problemas semelhantes (para alegrar a turma tinha sexo no meio). 

      Na “esquerda”(PS) , Strauss-Kahn contou muito com os $$$$ da esposa atual, uma ex-jornalista da TV, mas herdeira de uma fortuna ligada ao mercado de artes. O atual ministro das relações exteriores L. Fabius (ex-premiê de Miterrand)  tambêm tem fortuna oriunda do mercado de artes. Hoje se considera que é impossível para um político chegar aos altos níveis dos partidos sem $$$: ou se tem de herança, ou se usa a prefeitura para obtê-lo. Um grande cacique do PS em Marseille, está encalacrado até o último fio de cabelos, com concorrências fajutas sobre serviços á prefeitura.

      Portanto, temos um problema mundial.

      Mas ele é mundialmente negado, escondido, por que a turma da grana, o “grand capital” como falavam os líderes comunistas de antes da queda do muro, ganha muito poder e $$$$ com isso.

      Eu me lembro que na etapa final do caso do Chirac só se falava dos indícios de senilidade, cuitado, não vamos condenar por uma bobagem alguem que deu a vida inteira para a política, etc…

      O fato de estarmos discutindo este assunto aqui, neste blog e no Brasil, sem medo, deveria nos deixar felizes, e nos ajudar a  abandonar um pouco, e por que não de vez, este estúpido complexo de “vira-lata”, que só rima com os boçais que “trabalham” para os marinos, frias e civitas (os mesquitas já eram e não perceberam ainda)!

      • Concordo com ambos posts

        Concordo com ambos posts seus, Lionel.  Uma caracteristica desse problema global eh que quanto mais local o problema eh, mais ele esta aberto aa corrupcao por causa de caciques locais.  As prefeituras da AL sao so exemplo tipico, mas pense em montar uma empresa, digamos, no Maranhao ou Amapa pra correr pras cavernas!

        Quanto aas prefeituras:  voce viu as fotos de ontem?  As cidades mais desorganizadas, mais pros cocos, eram na China e na America Latina.

  2. nós

    “É esse o nó que a esquerda tem que desatar.”

    Como a “esquerda” desataria esse nó em que confortavelmente se amarrou?

    Tenhamos certeza de uma coisa: esse desatamento não será realizado pelo PT.

    Diga-se de passagem, “O partidarismo da grande mídia” e o partidarismo do blogues pseudo-jornalísticos.

    Daqui a pouco aparece aqui um comentário criticando o Jotavê por criminalizar a atividade política.

    E tome Debord: “No espetacular integrado, as leis dormem; não foram feitas para as novas técnicas de produção, e sua aplicação é driblada por entendimento de outro tipo. O que o público pensa ou prefere, já não tem importância. é isso que fica escondido pelo espetáculo de tantas sondagens de opinião, de eleições, de reestruturações modernizantes.Seja quem for o vencedor, a amável clientela vai levar o que há de pior: isso, e nada mais, foi produzido para ela.”

    O artigo é interessante e vai direto ao ponto.

    Porém, a intenção de Nassif ao postá-lo é: “No atual “Estado de fato”, condenar os mensaleiros petistas seria um injustiça.”

    • Tinha que ter um nome de batalha ganha por ingleses!

      “Porém, a intenção de Nassif ao postá-lo é: “No atual “Estado de fato”, condenar os mensaleiros petistas seria um injustiça.”

      Pronto, já esculachou o Nassif, fazendo processo de intenções obviamento escusas, já que não estamos aqui para santificar os “ministros” do stf que falam tão bem alemão…

      Da próxima vez use o nick “waterloo” será bem mais engraçado, em função da personalidade do seu ídolo (o barbozão)

  3. Ou tomamos partidos ou nos ferraremos!

    Concordo em tudo que escreveu o JV e ainda falta muito mais a falar, porem a raiz de tudo é financiamento de campanha.  Temos que nos concentrar neste ponto que os demais cairão. Atacar firme aí, “na jugula”!.

  4. Perfeito o artigo.Tem um

    Perfeito o artigo.Tem um livro do Manuel Castells de 96, “O poder da identidade” que destrincha bem esse fenômeno da espetacularização e da judicialização da política.

  5. Jotavê, de volta, com esplendor, mas tenho pontos de divergência

     

    Jotavê,

    Parece que você andou um bom tempo afastado. Você e suas boas contribuições. Aliás se o blog de Luis Nassif tem um trunfo de um furo incomparável, o trunfo decorre de uma intervenção sua em que você aponta a mudança de entendimento do STF sobre o crime de corrupção. Você foi o primeiro (Talvez depois só do Ricardo Lewandowski) a fazer um comentário falando da mudança do entendimento.

    Entendimento que me parece a maioria teima em não entender. Aliás, vira e mexe, alguém, aqui no blog de Luis Nassif, critica o STF porque o STF não percebeu que o mensalão não existiu e condenou os réus de corrupção passiva pelo mero recebimento de vantagem. Critica que desconhece que foi isso mesmo que o STF decidiu: não houve mensalão este entendido como dinheiro recebido pela compra do voto.

    Ainda hoje saiu uma crítica a entrevista de Lula ao Correio Brasiliense em que se acusa Lula de querer contraditar a tese do Mensalão que foi “reconhecida no Supremo Tribunal Federal como um esquema de compra de votos em troca de apoio político no Congresso”. Trata-se do artigo “Aquela velha opinião formada sobre tudo” publicado hoje, terça-feira, 01/10/2013, no Valor Econômico e que pode ser visto no seguinte endereço:

    http://www.valor.com.br/politica/3289374/aquela-velha-opiniao-formada-sobre-tudo

    O autor é Raymundo Costa, um jornalista conceituado.

    Surpreendentemente a jornalista Dora Kramer no artigo “Fins lucrativos” publicado hoje, terça-feira, 01/10/2013, no jornal, O Estado de São Paulo, pareceu-me mais de acordo com a decisão do STF quando ela diz:

    “Vamos aos fatos. Mal comparando, o que foi o mensalão senão a transferência de dinheiro às legendas que formariam a maioria do governo petista no Congresso mediante os instrumentos do PT no manejo do poder? O conceito é o mesmo, repetido nas barbas de todos com aval inclusive dos que se imaginam muito diferentes dos políticos condenados no Supremo Tribunal Federal”.

    O artigo “Fins lucrativos” pode ser visto no seguinte endereço:

    http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,fins-lucrativos-,1080680,0.htm

    Bem, como disse, o blog de Luis Nassif só tem débito com suas boas contribuições. Neste post “A raiz do problema da corrupção política” de terça-feira, 01/10/2013 às 12:01, entretanto, ainda que isoladamente eu concorde com quase tudo que você disse, eu fiquei com a sensação que você não conseguiu encadear bem as idéias.

    E sua volta apesar das discordância foi em alto nível. Logo no início você tem uma afirmação lapidar: “a política se banditizou no mundo todo”. Sim, não se trata de um problema restrito ao Brasil. No entanto, sua frase tem certo dom elitista, pois dá a impressão que antigamente não havia a banditização da política.

    Não levando em conta o conceito que você dá a banditização, penso que o que se tem que considerar é o custo das campanhas. À medida que o custo eleva, a necessidade de mais recursos pode agravar o problema da corrupção. Agrava e não faz surgir. Enfim, no sentido de corrupção, a banditização sempre existiu.

    E acho importante você fazer a defesa da redução dos custos de campanha e não do financiamento público de campanha. Penso que o financiamento público de campanha, alem de contar com uma grande rejeição da população, vai elevar os custos da campanha. Já a obrigatoriedade de programas ao vivo vai reduzir os custos de uma marqueteiro.

    Há um grande problema de campanhas políticas sem marketing. Sem marketing o que comandará a campanha será o carisma e o carisma com raras exceções é artigo que a esquerda não tem. Pela capacidade de convencimento que o carismático parece possuir, ele caminha rapidamente para a mentira. E a esquerda tem como um dos princípios de conduta evitar a mentira. A esquerda pode estar enganada, mas ela evita mentir.

    Lembro que no segundo turno de 1989, eu dizia que Lula estava errado, mas acreditava no que ele dizia, enquanto Collor estava certo (não pelo que ele dizia, mas pelo que ele deixava antever que faria) e não acreditava no ele dizia. (Não acertei sobre Collor porque eu não pensei que ele fosse querer acabar com a inflação com um só tiro).

    Aliás, um dos grandes achados da esquerda foi conseguir criar este antagonismo entre o PSDB e o PT, de tal modo que a direita com os seus políticos carismáticos fossem colocados ao relento.

    E um ponto crítico que vejo no seu texto é certo vezo de platonismo. Você não trata da política como uma atividade em que “Acusar o inimigo de imoral é arma política, instrumento para anular o ser político do adversário” sendo este o título do artigo de José Arthur Giannotti que saiu publicado no jornal Folha de São Paulo de 17/05/2001 e que pode ser encontrado no seguinte endereço:

    http://www.cefetsp.br/edu/eso/filosofia/artigogiannottigerapolemica.html

    Aliás deixo também o link para o post “Chauí e Giannotti” de 24/08/2005 publicado no blog de Na Prática a Teoria é Outra e que faz referência ao artigo de José Arthur Giannotti e ao artigo “Acerca da moralidade pública” de Marilene Chaui publicado na Folha de S. Paulo, em 24/05/2001 para se opor ao artigo de José Arthur Giannotti aparecido na Folha de S. Paulo uma semana antes. O endereço do artigo “Acerca da moralidade pública” é:

    http://www.cefetsp.br/edu/eso/filosofia/moralidadepublicachaui

    E há bons comentários seus sobre os dois artigos “Acerca da moralidade pública” de Marilene Chaui e “Acusar o inimigo de imoral é arma política, instrumento para anular o ser político do adversário” artigo de José Arthur Giannotti junto ao post “Mais Política Pós-Ética” de 31/07/2010, no blog de Luis Nassif e que pode ser visto no seguinte endereço:

    http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=6586

    Critiquei a falta de encadeamento de algumas idéias, mas agora em uma revisão do seu artigo eu não os percebi. Se depois com mais tempo eu consegui observar alguns trechos que eu considere falho eu faço um comentário detalhando esses, em meu entendimento, equívocos.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 01/10/2013

     

     

     

  6. qual é????!!!

    Pára!!

    E a platéia (permitam-me)  de micos adestrados bate palmas pra essas tolices Jv-anas!!!!

    JV, quem te viu e quem te vê.. não muda nada…..

     

    Parém por aqui:

    “Como a política se banditizou…”

     

    Não teria sido a bandidagem que se politizou? ah não .. isso não! né, jv??

     

    Dái-nos paciência

  7. O texto é revelador e conduz

    O texto é revelador e conduz ao pensamento do atual momento político que vivemos.

    Todos esses problemas foram previsíveis, a partir do momento em que o jogo sujo da direita foi exposta junto com o 4º poder. Seria difícil largarem o osso, a gordura e o filé. Tumultuaram o quanto puderam, enfim o mal cheiro do pig e do psdb está no ar e vindos das margens do rio Pinheiros e Tietê. 

    A reforma política e eleitoral é necessária ao bem da população. Mas o mau para os políticos que acima foram generalizados.

    O que acho meio precipitado e injusto é jogar a toda a esquerda nesse caldeirão de enxofre…

    Pois parece que é iminente que a esquerda vá se prostituir como fez os neoliberais. É um temor e risco que corremos. Mas acredito que as instituições responsáveis pela corrupção devem se fortalecer ano-a-ano. com seguidos mandatos de governos preocupados em eliminar do país a injustiça social. E isso, só a esquerda mesmo.

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