Uma diplomacia em pedaços, por André Motta Araújo

Visitas presidenciais improvisadas, sem agenda, sem preparação, sem pautas que tragam resultados ao Brasil causam péssima impressão no País visitado e não produzem qualquer ganho prático ou institucional

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Uma diplomacia em pedaços

por André Motta Araújo

Relações internacionais de um grande país só têm sentido como expressão de um projeto geopolítico de inserção no mundo. Esse processo exige planejamento de longo prazo que os países-potências praticam com profissionalismo. Foi George Kennan, um dos grandes diplomatas do Século XX criou o escritório de planejamento estratégico do Departamento de Estado, do qual ele foi o primeiro diretor.

Kennan, em 1949, então Embaixador em Moscou, traçou as linhas desse grande plano estratégico em relação ao mundo bipolar com a chamada “doutrina de contenção”. Deveria ser, daí em diante, a política dos EUA em relação à URSS, que teve sucesso até a desintegração do regime soviético, em 1990, prevista por Kennan em 1949.

Relações internacionais de um grande país jamais devem ser improvisadas ou produto de simpatia ou ideologia, sempre devem ter uma finalidade.

AS VISITAS PRESIDENCIAIS

Visitas presidenciais só frutificam, se forem planejadas com longa preparação, seis meses é o prazo mínimo para definição de uma agenda com chance de resultados. Ao contrário do que muitos pensam, Chefes de Estado só FINALIZAM tratativas já amadurecidas antes pelas chancelarias e pelos diplomatas do escalão avançado de preparação da visita. Presidentes só formalizam acordos já fechados antes pela diplomacia, essa é a regra da arte diplomática definida na sua versão moderna no Congresso de Viena de 1814 e pelas sucessivas Convenções de Viena sobre diplomacia.

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É uma arte de REGRAS, conhecidas como ” protocolo diplomático”, que se aplicam, inclusive, durante e após grandes conflitos, rendições em raise campagne, armistícios, tratados de paz, tudo se organiza através de protocolos diplomáticos universalmente aceitos, assim como a situação de embaixadas, as visitas de dignatários, os acordos e as complexas relações entre países, para proteção das fronteiras, dos nacionais, das empresas, dos meios de transportes, dos céus.

No protocolo do Departamento de Estado dos EUA há cinco níveis de visitas presidenciais, sendo a mais alta a ” state visit” e a mais baixa a “private visit”, todas com protocolos específicos onde até o traje do jantar de gala é previsto com detalhes como a cor da gravata.

OS PRESIDENTES DO BRASIL NOS EUA

Na República de 1891, o último Presidente ainda eleito e não empossado a visitar os EUA foi Júlio Prestes. Getúlio Vargas nunca visitou os EUA mas Dutra teve visita de Estado em 1949. JK foi só uma vez, em 1956, visitando Eisenhower em Key West na Florida. Goulart esteve em 1962, discursou no Congresso e teve jantar na Casa Branca, gravata preta.

Depois Arthur da Costa e Silva em 1967, Médici em 1971 (visita de Estado), Figueiredo em 1981 (visita de Estado), Sarney em 1986, Collor esteve três vezes, Itamar uma vez, FHC 5 vezes, Lula 8 vezes, Dilma 2 vezes. Não relacionei visitas específicas para participar de Assembleias da ONU em Nova York, uma vez que não são consideradas visitas oficiais aos EUA.

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VISITAS IMPROVISADAS DÃO PÉSSIMA IMPRESSÃO

Visitas presidenciais improvisadas, sem agenda, sem preparação, sem pautas que tragam resultados ao Brasil causam péssima impressão no País visitado e não produzem qualquer ganho quer prático, quer institucional, expõe a instituição presidencial à banalização, à desimportância.

Liturgia é fundamental nas relações diplomáticas, protocolo é respeitado e esperado, nível da delegação é um ponto fundamental no resultado da visita.

Uma visita de importância deve ser preparada com MUITA antecedência, seis meses é o prazo mínimo, e se mede sua qualidade pelo nível da recepção, que é regulado pelo País anfitrião. Se este conferir nível 1, de “State Visit”, é sinal da importância que dá ao País visitante.

Um convite do Congresso é outro sinal de importância. O Congresso ou, se for na França, a Assembleia Nacional convidar o Chefe de Estado a proferir um discurso é sinal da importância que dá ao País e respeito à figura do Chefe de Estado visitante.

É absolutamente fora de qualquer regra diplomática um Chefe de Estado sequer demonstrar simpatia ou preferência por LADOS na política do País visitado. O Chefe de Estado visitante precisa ser FRIO nesse campo, porque os lados mudam e se o visitante apostou no lado errado isso prejudica profundamente os interesses do País visitante.

No momento o Presidente do Brasil já apostou publicamente nas eleições americanas pela reeleição de Trump e, na Argentina, na derrota de Cristina Kirchner, dois países fundamentais para nossas relações diplomáticas, se ganhar o outro lado o Brasil perde MUITO.

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Hoje o nível das relações internacionais do Brasil, por causa dos quesitos clima, direitos humanos, refugiados, questões de gênero, questões de ideologia, caiu talvez no seu ponto mais baixo dos últimos cem anos, ao que se  acrescenta a ausência de qualquer linha reconhecível de política externa a não ser mostrar simpatia por regimes de ultra direita, o que automaticamente queima o Brasil na maioria dos centros de poder do mundo global, nos organismos multilaterais da elite global, centros de decisões fundamentais para questões econômicas, de comércio exterior.

Mais ainda, ser contra a agenda global TRAVA investimentos da elite das grandes corporações, que hoje subscrevem códigos de sustentabilidade, respeito a direitos humanos, a gêneros, se o Brasil for CARIMBADO como país fora da linha global isso vai rapidamente ISOLAR o Brasil para o primeiro time dos investidores mundiais.

É uma diplomacia em pedaços, de baixa qualificação, de nenhuma agenda e apenas tolerada pela dimensão e importância do País.

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8 comentários

  1. E pensar que o Brasil tinha condições de ser pelo menos uma das principais partes acessórias de uma agenda global…

    o que temos hoje é uma diplomacia de “sabichões” de esquina

  2. O GOLPE foi tramado pelos EUA em concluiu com as FFAA brasileiras ..e esta em franco desenvolvimento.

    Eles sabem que BOZO foi um BODE tolerado que, brevemente, será retirado da sala pra que os militares entrem como sopro de ar fresco.

    Pior que se demorar demais os estragos serão DANTESCOS

    Nada que venha deste homóide e seu bando de milicianos esta sendo levado a sério, até o momento.

    A mim, interessa mesmo é saber pq as Instituições brasileiras ROMPERAM com democracia, e partiram pra um desmonte e adesismo tão violento.

  3. Nassif: corta essa de preparação diplomática. Desde quando os serviçais precisam preparar previamente suas andanças pela CasaGrande. Desde que não incomodem na Sala de Visitas, na Sala de Jantar, na Biblioteca e no Escritório, podem livremente transitar pelas dependências que lhes são franqueadas, inclusive a cozinha e a dispensa. Podem ainda brincar no vasto quintal, com o totó dos donos. E, verdade seja dita, os donos do quintal da QuintaPindorama sempre foram cordiais com seus subalternos. Tinha um, que falava a língua deles, chegou a ser autorizado ir ao Escritório, sem ser pra fazer limpeza. Acho que tão fazendo tempestade num copo dágua. Que impressão ficarão os patrões de nós? Parece até que não temos verba prá educação.

  4. A melhor definição sobre esse momento tétrico da diplomacia brasileira é o apelido que o jornalista Sérgio Augusto deu à figura nefasta de Ernesto Araújo = o Babão de Rio Branco. Pra fora, um idiota que destrói o legado de um dos maiores brasileiros , o Barão do Rio Branco, que criou uma linha de condução que tornou a diplomacia uma das mais respeitadas do mundo. E aqui pra dentro, um ultrapassado como Paulo Guedes que está destruindo o legado de Roberto Campos, que malandro que é, deu pra bater no poder do estado na condição de colunista, com poder zero. Quando era o czar da economia, fez exatamente o contrário do que escreveu na parte final da vida, pois não era um idiota elevado a enésima potência como é todo os ministros civis desse desgoverno.

  5. Bolso e sua turma devem ter ido pra lá comprar novos iPhones, a “premiação” foi só desculpa pra trazer muamba!

    Falando sério, o que me espanta é alguém como Mário Garnero gastar cartuchos pessoais (arrumando “visita-surpresa” à Bush Jr., Algo completamente sem noção para quem tem um mínimo de conhecimento sobre cultura anglo-saxã e americana) para passar pano para esse bando de incompetentes!

    MG não é ingênuo, nem inconseqüente a esse nível, portanto só tem uma explicação: alguma vantagem, indevida ou não, ele está levando.

    Talvez a resposta esteja no pronunciamento do Tchutchuca, que propôs uma absurda Joint-venture entre BB e Bank of America, nos moldes de Embraer e Boeing!

    Esse Tchutchuca deve ter graduação em Home Broker pela Universidade de Chicago, pois o cara não tem a menor noção da realidade, deve ter passado a maior parte da vida trancado no quarto, ligado 24h na Bloomberg e no Home Broker… Nada existe fora disso para ele.

  6. Prezado André , para quem como nós conheceu campeões eleitorais como Cacareco e Macaco Tião pode entender como chegamos conhecer o governo Bolsonaro. Valei-me São Jorge, temos ainda muita vergonha a passar graças a moro e rede groubo.

  7. Os estragos desse (des)governo é amplo, geral e irrestrito. Tal percepção já é unanimidade fora do universo dos fanáticos bolsonaristas.
    Agora, certamente o estrago é na área mais estratégica que é a voltada para as Relações Externas. Uma verdadeira tragédia.
    Por todos os ângulos, incluindo até nos mais singelos, a exemplo da absoluta falta de compostura do mandatário maior nas visitas ao exterior, a atual gestão não só renega uma tradição diplomática primada na neutralidade ideológica, viés seguido, inclusive, pelos governos militares(em especial no período Ernesto Geisel), como exercita uma espécie de “militância”, como se o Mundo fosse uma reles extensão do Brasil.
    Vejamos o caso Venezuela: quem deveria estar liderando as tratativas para pelo menos amenizar o impasse político-diplomático envolvendo o nosso vizinho? Quem, ao revés dessa tradição. além da facciosidade, ainda age em atos para piorar ainda mais o quadro?
    Resultado: é a longínqua e frienta Noruega que, parece, vai encampar esse papel.
    Só uma palavra para resumir isso tudo: vergonha.

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