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O que é uma obra de arte

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Uma obra de arte é algo da intimidade da pessoa e que, ao ser colocado no mundo, toca as outras naquilo que têm de mais íntimo.

Penso que cada um de nós é uma obra de arte.

No século 21 temos as condições históricas para funcionarmos como artistas. Ou seja, aqueles seres privilegiados que proclamam sua singularidade, o seu jeito único de ser ao mundo, e ainda por cima se sustentam sendo o que são.

Não nos esqueçamos que o nosso tempo dá boas-vindas à criatividade, à inovação, ao diferente e, portanto, à unicalidade de cada um.

No entanto, jogamos tantas obras de arte no lixo.

Isto é, a meu ver, o que promove a pobreza no mundo, a pobreza das relações, principalmente.

As pessoas nos dão belos presentes, que são suas joias e obras de arte: um sorriso, o brilho no olhar, uma frase tirada do fundo de sua experiência. E nós? O que fazemos nós?

Nem notamos.

Jogamos no lixo.

Dia desses tive uma história banalmente rica. Estava esticada na cadeira da dentista, que habilmente consertava um dente quebrado. Com aquele avental sobre mim, a boca cheia de objetos diversos entrando e saindo, e eu ali completamente impotente.

De repente, a mão da Alessandra, a auxiliar, com imenso carinho e delicadeza, aliviou-me retirando um tufo de cabelo que me caía sobre a testa.

Aquela mão delicada sobre minha fronte me trouxe imenso conforto naquele momento.

Não bastasse isso, de vez em quando ela ajeitava meu avental ou secava uma gota d’água na bochecha.

Isso é belo. Isso é arte. Arte de viver, respeitar e amar o ser humano que precisa da gente em dado momento.

Silvia, a dentista, com grande preocupação com o meu conforto e com a perfeição que exigia de seu trabalho, era também um tesouro, que eu registro, reconheço e agradeço.

Ou o dr. Rafael, que, na manhã em que meu marido dormia na UTI, me viu no corredor, chegou com um sorriso, pegou minha mão, me olhou fundo nos olhos e disse que estava tudo bem. Eu quis pular em seu pescoço ao agradecê-lo. O que acabei fazendo, sem conter as lágrimas no aeroporto, num encontro casual em que chegava com sua mulher grávida de sua filhinha Júlia.

Dinheiro paga o profissional. Nada paga o cuidado humano respeitoso e o carinho.

Retribuo jogando essas experiências no mundo para animar a galera a parar com esse desperdício de obras de arte.

Quantos presentes ganhamos no dia a dia e não registramos nem degustamos? É o caixa que faz um gracejo, o motorista do carro que te dá passagem no corre-corre...

Obra de arte é o ser humano lutando para viver feliz sabendo que pode morrer a qualquer momento. Que pode perder um ente querido, ser visitado pela desgraça.

Somos todos artistas da arte de viver. Não nos esqueçamos de dar a isso o justo valor.

 

Luciene Godoy é psicanalista

[email protected] 

 

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1 comentário

Comentários

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Muito bonito

Creio que pessoas que reconhecem esses gestos de humanidade nas outras merecem ser citadas como especiais.

Muito bonito mesmo, viu.

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Odonir Oliveira

“A colheita é comum, mas o capinar é sozinho” G. Rosa

          

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