24 de agosto de 2026

A morte de Léo Gilson

Fico sabendo agora que morreu Léo Gilson Ribeiro, aos 77 anos. Trabalhei com ele na época áurea da “Veja”, nos anos 70. Trabalhei, é pretensão. Eu era apenas um foca, ele o crítico temido, ferino, terrível como tantos jovens críticos que, depois, amadurecem.

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Em Artes e Espetáculos conviviam Léo, o internacionalista, crítico de artes e literatura; Tinhorão, o nacionalista, que fazia uma coluna de Gente impecável; e o Geraldo Mayrink, crítico de cinema e autor de frases antológicas.

A esgrima entre Léo e Tinhorão virou lenda, era de rolar de rir. Léo era um homossexual assumido; Tinhorão um garanhão ao melhor estilo do Nelson Rodrigues (que, aliás, o citou em uma das peças, acho que em “Bonitinha, mas Ordinária”. Um dia o Tinhorão tanto encheu o Léo, que este subiu na escrivaninha com um livro capa dura, ameaçando jogar. E Tinhorão, impassível: “Léo, o máximo que você joga é brochura”.

Sua vítima predileta era o escritor José Mauro de Vasconcellos, do “Meu Pé de Laranja Lima”. Um dia combinei um trote com o Talvani, chefe de reportagem. Ele se enfiou debaixo da sua mesa e telefonou para o Léo, se identificando como o José Mauro, dizendo que tinha acabado de fechar um acordo para a publicação de sua obra pela Abril. E, em seguida, iria subir até o sétimo andar para lhe aplicar uma surra. O Léo saiu espalhando penas para todos os lados.

Doutra feita, fez uma crítica duríssima ao Jurandir Ferreira, farmacêutico-escritor de Poços de Caldas, primeiro patrão de meu pai, aliás. Foi uma crítica feroz. Jurandir respondeu com uma carta comparando-se ao velho que é espancado pelos jovens em “Laranja Mecânica”. Léo passou dias deprimido com os exageros que cometeu, e mandou uma carta se desculpando com Jurandir.

Em um período em que – como hoje – o exercício do jornalismo costuma ser a capacidade de fabricar frases de efeito sobre qualquer tema, Léo esbanjava erudição, bom humor. Era a alegria da redação.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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8 Comentários
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  1. Luis Nassif

    12 de janeiro de 2007 2:25 am

    Tem passagens gozadas. Um dia
    Tem passagens gozadas. Um dia eu conto.

  2. Luis Nassif

    12 de janeiro de 2007 1:18 pm

    É o maior historiador da
    É o maior historiador da música popular brasileira.

  3. Vera Pereira

    12 de janeiro de 2007 8:41 pm

    Que notícia triste! Me lembro
    Que notícia triste! Me lembro do Leo Gilson Ribeiro no copydesk do Jornal do Brasil, no começo dos anos 60, sob a chefia do Tinhorão e tendo como colegas, Claudio Mello e Souza, Lago Burnet, Ferreira Gullar, Nelson Pereira dos Santos, Sérgio Noronha e outros que não consigo mais recordar. Inesquecível! Eu era uma privilegiada foca. Depois tomei outros rumos na vida.

  4. cid cancer

    12 de janeiro de 2007 8:41 pm

    Nassif

    Não sabia da morte de
    Nassif

    Não sabia da morte de Leo Gilson Ribeiro, a quem, como leitor, acompanhei desde os tempos do suplemento literário do Estadão (nossa, acho que estou ficando velho!).

    Com certeza, nesta sociedade do espetáculo, em que imperam as Caras da vida e a superficialidade e as lantejoulas dos videozinhos malandros da internet, sua inteligência fará falta. Muita falta.

    cid cancer
    mogi das cruzes -sp

  5. Wanderley Diniz

    12 de janeiro de 2007 10:03 pm

    Nassif:
    nunca estive em uma
    Nassif:
    nunca estive em uma redação em que o Léo Gilson trabalhasse. Mas sempre o li e respeitei pela cultura, embora muitas vezes não concordando com o seu julgamento. Grande perda.
    Sobre o José Ramos Tinhorão, em quem durante certo tempo foi “bem” descer o pau: concordo totalmente com você. É, simplesmente, o maior historiador da MPB.

  6. Dourivan Lima

    13 de janeiro de 2007 1:47 am

    Lendo seus comentários sobre
    Lendo seus comentários sobre o Leo Gilson Ribeiro, especialmente o temperamento, é que imagino que consegui entender uma passagem. Freqüentemente lia sua coluna na Caros Amigos e gostava. Um dia ele caiu de pau no tradutor (ou na editora) quando foi lançado no Brasil o último livro memórias de JK Galbraith com o título de “Contando Vantagem”. Com base numa interpretação literal da expressão “Dropping Name”, o título original, ele tripudiou sobre a suposta ignorância de inglês de quem escolheu o título.

  7. Ricardo Queiroz

    13 de janeiro de 2007 2:41 pm

    Nassif

    soube da morte do LGR
    Nassif

    soube da morte do LGR aqui, ele escrevia com aquele desejo de instigar e mostrando de forma nao pretensiosa usando grande erudição, coisa rara nessa epoca de redatores eruditos de proveta…Tinhorão é o homem mais importante na pesquisa de musica brasileira, sério e erudito, controverso, sim. O Tinhorão é muitas vezes ironizado e criticado por gente que não tem o minimo de capacidade e conhecimento para fazê-lo.

  8. Newton SABBÁ GUIMARÃES, Ph. D.

    24 de janeiro de 2014 10:55 am

    Cumprimento
    Boa crônica sobre Léo Gilson. Parecia ser um homem de bem, com bom conhecimento do inglês e do alemão, e uma visão conservadora da Política Internacional. Trabalhamos juntos na Olivetti Industrial, na Conde de Prates. Tínhamos uma posição em comum: a defesa e com-prehensio da Revolução Cívico-Militar de 64, a que modernizou o Estado Nacional. Curiosamente, quase nada se escreveu sobre esse crítico, um tanto apaixonado e por vezes parcial, mas culto e de excelentes leituras. Nem sabia que era homossexual. É pena, com tanta linda mulher em SP, das mais belas que alguém possa encontrar… O que lamento é o esquecimento do escritor brilhante e talentoso, bom conhecedor da Arte Moderna. Parabéns, Nassif, pelo artigo. Foi um gesto de nobreza e estima!

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