Por Marco Antonio L.
Do Sul 21
Futuro do PT depende do sucesso de políticas sociais, diz historiador Lincoln Secco
Samir Oliveira
Historiador e professor de História Contemporânea na USP, Lincoln Secco traçou em seu livro “A História do PT” o surgimento e o desenvolvimento do partido que governa o país há dez anos. Ainda filiado ao PT, mas sem exercer nenhum tipo de militância orgânica, o pesquisador analisou o comportamento das tendências internas da legenda e avalia que as forças mais à esquerda tiveram que ser “domesticadas” para que o partido pudesse chegar ao Palácio do Planalto.
Ele aponta que esse processo começou a partir de 1989, quando Lula perdeu o segundo turno das eleições presidenciais para Collor. “Os dirigentes entendiam que o PT precisava se preparar para governar. E isso implicava afastar um pouco tendências radicais no partido”, recorda.
Nesta entrevista ao Sul21 o professor Lincoln Secco fala sobre o surgimento do PT – que diz ter sido bastante vinculado à Igreja – e projeta que o futuro do partido dependerá cada vez mais do sucesso dos programas sociais do governo federal. “Não se sabe até que ponto essa estranha união dos muito pobres sem oposição dos muitos ricos não causará conflitos – especialmente entre os muito ricos. Pode haver um momento em que o cobertor não seja suficiente para todos”, observa.
Sul21 – O que o PT representava na época de seu surgimento, no início dos anos 1980?
Lincoln Secco – Antes de qualquer coisa, o PT foi uma inovação na esquerda brasileira, porque conseguiu combinar diferentes forças políticas que geralmente, na trajetória da esquerda, não conversavam entre si. Trotskistas, stalinistas, ex-militantes da luta armada, militantes da Igreja progressista, sindicalistas… O grande mérito do PT foi, na esquerda brasileira, conseguir ter uma diversidade cultural, social e até ideológica que outros grupos de esquerda nunca conseguiram.
Sul21 – É possível fazer alguma comparação com o processo de fundação da Frente Ampla no Uruguai?
Secco – A Frente Ampla foi uma junção de organizações que pré-existiam. No caso do PT, houve também uma entrada de organizações clandestinas que ainda atuavam no final dos anos 1970, mas a maioria dos militantes que ingressaram no PT eram pessoas sem experiência em organizações prévias. No meu livro “A História do PT”, fiz uma pesquisa que mostra uma diversidade regional muito grande do PT no Brasil. O PT no Ceará, no Maranhão e no Amazonas é totalmente diferente do PT no Rio Grande do Sul, no Paraná ou em São Paulo.
Livro foi escrito a partir de depoimentos e documentos de militantes | Foto: Ateliê Editorial/Divulgação
Sul21 – Havia uma coesão ideológica dentro do PT quando o partido surgiu? Ou não havia preocupação em se defender uma única ideologia?
Secco – O partido sempre se preocupou em ter uma coesão ideológica, em termos de programa. Mas o PT nunca conseguiu definir que tipo de socialismo queria. Naquele momento, nos anos 1980, o mais importante era a luta contra a ditadura, a superação de resquícios da ditadura, então isso não foi o mais importante para o partido. O PT começou a se preocupar com definição ideológica após a queda do muro de Berlim e após a derrota de Lula em 1989.
Sul21 – O partido sempre adotou a retórica de ter um programa de “frente popular”. Essa seria a base ideológica do PT? De que forma essa retórica o diferencia do socialismo?
Secco – Hoje o que se pergunta é se o PT não cumpriu o mesmo papel da social-democracia europeia. É um partido que tinha entre suas bases uma classe operária bastante concentrada no ABC paulista. O PT nasce como um partido radical, mas depois modera o discurso e vira um grande partido eleitoral de massas. De fato, há uma semelhança com a social-democracia europeia. É claro que as especificidades brasileiras são muitas. Uma coisa que não havia, salvo engano, em nenhum partido europeu, é a forte presença da Igreja. A Igreja na Europa sempre foi muito mais conservadora. Para o PT, a Igreja não foi um fator de menor importância, porque tinha uma capilaridade social e regional que nenhum partido no Brasil possuía. Em alguns lugares, o PT nasceu dentro da Igreja. No meu livro, mostro que houve cidades em que o PT foi fundado no salão paroquial. Isso é um grande diferencial em relação à social-democracia europeia. Mas a definição estratégica mais importante na história do PT se deu em 1987, quando se define que o centro da estratégia do partido é a atuação dentro da legalidade. Além disso, neste encontro o partido definiu que a eleição do Lula seria o centro de sua estratégia.
Sul21 – Ainda havia uma disputa interna por uma atuação fora da institucionalidade?
Secco – Até então, não se afastava nenhuma proposta de luta armada ou de ruptura com a legalidade. Havia a tendência do Partido Revolucionário Comunista (PRC), que tinha muitos militantes no sul e era o grupo do José Genoíno, por exemplo. Eles defendiam a luta armada em seus documentos internos. Havia outros grupos também.
Sul21 – O partido realizou mudanças e inflexões muito profundas em seu programa para atingir esse objetivo?
Secco – Essa redefinição do partido foi mais importante não tanto devido ao impacto da derrota do Lula em 1989, mas da sua quase vitória. Quando o Lula foi ao segundo turno e teve aquela votação expressiva, foi como se tivesse acendido uma luz amarela no partido dizendo: “Olha, agora o partido pode governar”. Os dirigentes entendiam que o PT precisava se preparar para governar. E isso implicava afastar um pouco tendências radicais no partido. Houve outro aspecto importante, que foi a queda do socialismo real. Isso trouxe um debate interno muito grande no partido. A esquerda do PT até conquistou por alguns anos a direção do partido mas, a partir de 1990, Lula é quem foi se separando um pouco da dinâmica interna do PT. Ele adquiriu uma expressão de marca que permitiu que fizesse as caravanas da cidadania, como se o PT vivesse uma dupla vida. Enquanto a esquerda do PT ficava disputando a ideologia dentro do partido, Lula falava com as massas e era o candidato natural. Lula não tinha naquela época a possibilidade – que depois teve – de domesticar o partido para que se adotasse um programa palatável para chegar ao governo. Lula nunca teve muita paciência para as reuniões internas do partido. Quando participava de reuniões, raramente votava. Ele não se dispunha a dividir o partido, já que estava acima das tendências. Esse processo de disciplinar o partido para que se tivesse um programa palatável foi obra do José Dirceu.
“Dentro do partido já havia até quem flertasse com o neoliberalismo nos anos 1990″, diz historiador | Foto: Acervo FPA/Ateliê Editorial
Sul21 – E esse processo começou a ocorrer a partir de 1989?
Secco – Gradualmente, sim, no plano dos programas que eram apresentados nas eleições. Dentro do partido já havia até quem flertasse com o neoliberalismo nos anos 1990. Esquece-se que Antônio Palocci, muito antes de ser ministro da Fazenda, foi prefeito de Ribeirão Preto e privatizou a companhia telefônica local. Isso foi um escândalo dentro do PT e aconteceu também em Londrina. Mas, na avaliação dos dirigentes, o mais importante era a domesticação das tendências internas. Mesmo que elas fossem derrotadas no congresso do partido, ainda conseguiam, às vezes, 40% dos votos.
Sul21 – Quando o partido chegou à presidência da República, houve uma debandada de setores mais à esquerda? O PSOL, por exemplo, surgiu nesse processo.
Secco – Não foi uma debandada, porque boa parte da esquerda do partido permaneceu. Até porque, por mais que houvesse uma crítica a mudanças no discurso e nas práticas que ocorrem em um governo de coalizão, a esquerda do PT também era atraída por cargos, assim como a direita do partido. Todas as tendências do PT estão representadas no governo federal e em governos locais. As correntes possuem certa autonomia interna para fazer um discurso mais radical, mas o que permitiu a Lula domesticá-las foi o processo de eleição direta dentro do partido. O PT não elegia diretamente seus presidentes, mas a partir da eleição do primeiro presidente de forma direta – que foi José Dirceu -, concentrou-se mais poder na figura do presidente e da executiva do partido. As tendências continuaram tendo uma grande participação no diretório nacional e na executiva, mas o presidente do partido adquiriu uma legitimidade muito maior. José Dirceu teve um peso muito grande nesse processo que viabilizou depois a redação da Carta ao Povo Brasileiro.
Sul21 – Hoje em dia, percebe-se que o PT que está no governo e o PT que comanda sindicatos e centrais sindicais nem sempre estão alinhados. É possível falar na existência de dois PTs?
Secco – Recentemente Lula fez uma declaração nesse sentido. Principalmente durante os dois governos de Lula, houve quase uma simbiose entre o PT e o governo. Qualquer crítica interna feita no PT contra alguma medida do governo era vista como algo que poderia ser colocado ao lado da oposição. Nos últimos dez anos, temos visto que é muito difícil para um grupo que esteja mais à esquerda dentro do partido fazer uma crítica ao governo que não se confunda com a oposição da direita. Isso afetava muito o partido. Depois da saída do Lula da presidência, o PT se viu em uma nova situação, porque possui a presidente da República, mas possui também uma figura com um peso simbólico maior fora do governo. Isso pode ter aberto um caminho – ainda que muito limitado – para que o PT comece a apresentar uma agenda fora do governo. Isso não significa ruptura ou oposição com o Palácio do Planalto. Mas, hoje, o PT defende reforma política, democratização dos meios de comunicação e algumas outras propostas um pouco mais radicais do que as bandeiras do governo. Inclusive, às vezes, são propostas criticadas pelo próprio governo.
“Lula não tinha paciência para as reuniões internas do PT” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – O PT tem perdido espaços de poder no movimento sindical ligado ao setor público. Partidos como PSOL e PSTU têm conseguido mais espaço em algumas entidades que antes eram dominadas por petistas. Essa é uma tendência que pode se aprofundar?
Secco – No setor público, devido à própria natureza da ocupação, os trabalhadores têm estabilidade e raramente são demitidos em uma greve. Esse setor tende a apoiar políticas mais radicais. Mas, no setor privado, principalmente nas categorias de maior relevância econômica – como metalúrgicos -, o PT ainda mantém sólidas posições ao lado até dos sindicalistas que estão historicamente à sua direita, como a Força Sindical. Mas talvez em médio prazo o PT comece a perder influência nos movimentos sociais e sindicais. Pode ser que isto já esteja ocorrendo no setor público.
Sul21 – O mensalão teve um impacto muito grande no partido?
Secco – Teve. Um dos elementos do discurso do PT, especialmente nos anos 1990, era o da ética na política. O mensalão teve um efeito muito grande, eu diria quase devastador, em 2005, sobre a direção do partido e sobre boa parte dos filiados. Isso foi muito mais importante do que aquela divisão que deu origem ao PSOL – que foi uma divergência específica sobre a reforma da previdência e representou um racha parlamentar. O mensalão atingiu o imaginário da base petista. O PT não reagiu e não reage ao mensalão, não diz nem que reprova os procedimentos que o partido utilizava até 2005, nem que defende seus ex-dirigentes condenados pelo STF. Essa postura política dúbia permite que a oposição mantenha o mensalão na agenda muitos anos após ele ter ocorrido – se é que ocorreu exatamente na forma como a oposição vendia.
Sul21 – Mas houve fortes manifestações do presidente nacional do PT, Rui Falcão, contra o STF e contra a mídia em função do mensalão.
Secco – Ao mesmo tempo em que o presidente Rui Falcão concedia essas declarações, o governador Tarso Genro dava declarações contra José Dirceu e contra os condenados do mensalão. Depois, parece que ele acabou dando um passo atrás. Mas várias personalidades do PT disseram que o partido tinha que se afastar dos condenados e que esse passado apenas atrapalhava. Até mesmo correntes de esquerda no partido tentaram fazer vários atos internos de solidariedade ao José Dirceu e outros condenados. Isso houve em várias cidades no Brasil, mas esses atos não tinham o apoio da direção, as grandes figuras do PT não se faziam presentes. Basta ver que Lula nunca quis dar declarações sobre o mensalão.
Sul21 – Politicamente, como esses dez anos no governo federal afetaram o PT? O leque de alianças amplia-se ainda mais com a entrada do PSD no governo, através do Guilherme Afif, que é vice-governador do Estado comandado pelo principal partido de oposição ao PT.
Secco – A política de alianças aumentou depois da vitória de 2002, mas o PT, nos anos 1990, já começava, em nível local, a fazer alianças que antes eram impensáveis para o partido. Não acho que esse seja o maior problema do PT. Claro que há casos simbólicos que descontentam a militância, como a aliança com Paulo Maluf em São Paulo. Mas o PT sempre dirá aos seus filiados e apoiadores que o problema está no sistema político, que para governar é preciso montar uma ampla coalizão com partidos de centro e de centro-direita. Então o partido vai acumulando uma dívida com sua própria base social e eleitoral ao não impulsionar a reforma política. Não se sabe até que ponto isso não irá desgastar o PT no futuro. O PSDB – em um nível muito menor – passou por algo muito semelhante quando chegou à presidência da República e se aliou ao DEM. Claro que o PT era um partido muito mais à esquerda e com uma origem social diferente. Mas o DEM, de certa forma, foi um peso conservador no governo de Fernando Henrique Cardoso. Dentro do governo havia uma disputa, ainda que tênue, entre desenvolvimentistas e monetaristas. E o DEM sempre foi contra os desenvolvimentistas. Talvez o PMDB esteja cumprindo um papel semelhante no governo Dilma, sendo um peso conservador e impedindo uma agenda progressista que talvez o PT desejasse colocar em prática. Isso pode ser muito preocupante para o PT.
Partido possui agenda independente do governo, avalia historiador | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – O senhor disse que estudou os diferentes PTs existentes no país. O que o senhor poderia comentar sobre o PT gaúcho?
Secco – Quando comparamos com outros estados brasileiros, percebemos que o PT surge no Rio Grande do Sul com uma força e uma diversidade ideológica que não possui em outros lugares. A presença de trotskistas era muito forte. E também havia grupos regionais ideológicos que só existiam no Rio Grande do Sul. Isso é fruto da polaridade política e ideológica que atravessa a história do Rio Grande do Sul. A médio prazo, o PT gaúcho conseguiu se apropriar da tradição trabalhista da esquerda – uma tradição que nunca se impôs em São Paulo. No Rio Grande do Sul, o PT conviveu com o brizolismo e, com o passar dos anos, o engoliu. Sempre achei que o PT deu certo no sul porque conseguiu se enraizar na história do trabalhismo.
Sul21 – Como o senhor projeta o futuro do partido?
Secco – Como historiador, não costumo fazer previsões. De qualquer forma, acho que a médio prazo o PT vai continuar dependendo do sucesso das políticas sociais do governo federal. Não sabemos qual será o ponto de exaustão dessas políticas. A pobreza no Brasil é um fenômeno tão grande e marcante que as políticas sociais de Lula e Dilma ainda são suficientes para que se mantenha um alto índice de apoio ao PT. O modelo implantado pelo PT traz as camadas sociais que estavam excluídas do consumo para a cidadania e para o consumo. Ao mesmo tempo, mantém uma política econômica com certo apoio dos industriais, para que não haja uma grande oposição dos setores econômicos mais importantes do país. Não se sabe até que ponto essa estranha união dos muito pobres sem oposição dos muitos ricos não causará conflitos – especialmente entre os muito ricos. Pode haver um momento em que o cobertor não seja suficiente para todos. Em momentos de crise econômica, será que o governo irá manter os investimentos na área social?




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