Por Roberto Bitencourt da Silva

O pacífico movimento de crítica à construção de um campo de golfe olímpico sofreu com nova ação repressiva da Prefeitura do Rio de Janeiro, no sábado (20/12). A obra está sendo tocada pela iniciativa privada e ocorre em área de reserva ambiental, no bairro da Barra da Tijuca.
Autodesignado “Ocupa Golfe”, o protesto há mais de duas semanas conta com a presença de ativistas em frente ao terreno em que está sendo realizada a obra destinada às Olimpíadas (1). Arbitrariamente, os pertences dos ativistas já haviam sido recolhidos pela Guarda Municipal na madrugada de quinta-feira (18/12).
A ordem dada pela Prefeitura é de liberação total da calçada, em que se encontrava há dias a ocupação dos ativistas. Inicialmente estiveram instalados com barracas. A partir de uma sucessão de constrangimentos criados por ordens do alcaide carioca, os ativistas protegiam-se das intempéries com guarda-sóis. Nos últimos dias, nem isso têm conseguido fazer (2). No sábado a Prefeitura agiu com o claro intuito de terminar com o protesto, recolhendo à força objetos dos ativistas: faixas, mantimentos e pertences pessoais.
Já tive oportunidade de conversar pessoalmente com os ativistas no local e tenho acompanhado suas motivações e iniciativas. Devido ao saliente perfil pacífico do movimento, como também em função das fundamentadas questões colocadas pelos ativistas, é plausível argumentar que nem de longe se poderia esperar uma atitude tão extemporânea da Prefeitura. As ações dos ativistas não dão qualquer razão para isso. Somente a contumaz prepotência e a incapacidade de diálogo do prefeito Eduardo Paes (PMDB) explicam as ações da Prefeitura.
Contestado pela polêmica decisão de construir um campo de golfe para as Olimpíadas, Eduardo Paes tem sido questionado pelas seguintes razões:
a) Possibilidades de altos ganhos econômicos oferecidos a um empreendimento imobiliário privado (Fiori Empreendimentos), que realiza a construção do campo de golfe olímpico.
b) Futuras perdas de receita municipal, por conta da isenção de IPTU por 25 anos.
c) Já existem dois campos na cidade (o Gávea Golf Club e o Itanhangá Golf Club).
d) Sérios danos ambientais. A obra está sendo realizada em área de proteção ambiental permanente, afetando espécies da flora e da fauna que somente existem na região, além de outras espécies ameaçadas de extinção, como a coruja-buraqueira e o jacaré de papo amarelo.
No início da tarde de sábado a Guarda Municipal, com truculência, recolheu todos os pertences dos ativistas, com ordens para desocupar o logradouro público. Apoiou-se no decreto municipal no. 17.931. A norma pública trata, basicamente, de ações de repressão ao comércio ambulante e, por extensão, assegura autoridade à Guarda Municipal para o recolhimento de mercadorias. Este foi o instrumento jurídico em que se apoiou a iniciativa da Prefeitura. Diga-se, iniciativa somente esclarecida na delegacia, após conduzir um manifestante por “crime de resistência”.
Segundo relato de um ativista, “a suposta resistência” do manifestante, “em verdade”, derivou da “insistência para que a Guarda Municipal apresentasse o embasamento legal de sua conduta, o que foi sonegado pela equipe responsável pela missão”. Conduzido à 16ª delegacia de polícia o ativista foi liberado mais tarde.
De acordo com o vereador Renato Cinco (PSOL), que esteve no local, foram mencionadas diversas “violações de direitos e abuso de autoridade por parte da Guarda Municipal contra os manifestantes”. Para um ativista, a Prefeitura classificou “faixas, cartazes e placas como mercadorias, para justificar a ação. Um absurdo!”.
Conforme informação oferecida por outro manifestante, o conjunto de pessoas envolvidas no protesto “Ocupa Golfe” pretende “acionar a Guarda Municipal perante a Justiça”. Da mesma forma, afirma que “continuarão na localidade”, fazendo suas denúncias sobre o “crime ambiental”. Em nota na webpágina “Golfe para quem?”, no Facebook, os ativistas frisam que “cabe aos agentes responsáveis o embargo da obra que agride um dos últimos sete biomas desse tipo de mata atlântica”.
Mesmo com as dificuldades geradas pela truculenta ação da Guarda Municipal, nesse final de semana os ativistas receberam manifestações de solidariedade de pessoas que se encontram negativamente afetadas com as obras para sediar as Olimpíadas na cidade. Contaram com a presença de moradores de áreas populares do bairro de Jacarepaguá, como a Vila Autódromo e a Vila União de Curicica, ameaçados de remoção das suas casas.
Cumpre observar que, do prefeito Eduardo Paes, as respostas repressivas aos questionamentos do movimento social não se tratam de um padrão comportamental que venha necessariamente a surpreender. Os seus notórios pendores autoritários, assim como a sua concepção mercantil de cidade (uma “cidade-negócio”), dão suporte ao tratamento dispensado aos críticos da obra do campo de golfe para as Olimpíadas (3).
Do mesmo e infeliz modo, os conglomerados da mídia, em especial a televisão, têm revelado um solidário silêncio sobre o caso durante as últimas semanas. Não surpreende. A sintonia entre as suas respectivas visões de cidade com as políticas urbanas de Paes é sobremodo estreita.
Contudo, após longo e injustificado silêncio, os conglomerados deram alguma notícia. Particularmente, o jornal local da TV Band (Jornal do Rio) veiculou uma matéria. Note-se que, curiosa e coincidentemente, apenas após a ocorrência de eventos que tendem a suscitar no imaginário do telespectador os conceitos de “violência” e “confusão”.
Um imaginário bastante influenciado pelos próprios ângulos habitualmente privilegiados pelos meios massivos de comunicação, que constroem atributos criminalizantes e desqualificatórios para os movimentos sociais. Nesse sentido, apresentar a truculência da Guarda Municipal não deixa de ser importante. Mas, e as questões que motivam o protesto?
Com efeito, já se esboça uma conhecida narrativa midiática: a causa dos ativistas é enquadrada na categoria da violência e são colocados de lado os aspectos propriamente políticos e ambientais que dão sentido à existência do protesto. Querendo pretensamente noticiar, são secundarizados os significados do movimento, que guardam grande interesse público. Para as atuais e as gerações vindouras.
Deixo, pois, uma sugestão, na hipótese de uma genuína, mas improvável, preocupação jornalística da parte da televisão: entrevistem os ativistas e veiculem as informações que o movimento “Ocupa Golfe” tem a oferecer ao público.
Optar pelo espetaculoso noticiário de tumultos – mesmo tendo os ativistas ocupado o papel de vítimas – tende a corresponder à lógica midiática da obtenção de audiência fácil, com notórios contornos despolitizantes. Em nada ajuda a esclarecer a população a respeito das graves questões em jogo.
Roberto Bitencourt da Silva – doutor em História (UFF), professor da FAETERJ-Rio/FAETEC e da SME-Rio.
(1) Saiba mais: http://ggnnoticias.com.br/blog/roberto-bitencourt-da-silva/olimpiadas-para-quem-golfe-para-quem
(2) Veja mais: http://www.brasil247.com/pt/247/artigos/164119/Sem-dialogar-prefeito-do-Rio-prefere-expulsar-os-ativistas-do-Ocupa-Golfe.htm
(3) Veja mais: https://www.brasil247.com/pt/247/artigos/162987/A-tirania-de-Eduardo-Paes-a-servi%C3%A7o-do-partido-dos-grandes.htm
Assista ao vídeo produzido pela Mídia Independente Coletiva e pelo Ocupa Golfe, com imagens sobre a ação da Guarda Municipal, no sábado (20/12): https://www.facebook.com/video.php?v=1398217547137623&set=vb.1381797632112948&type=2&theater
Motta Araujo
22 de dezembro de 2014 12:25 pmO campo de golfe no Rio é uma
O campo de golfe no Rio é uma aberração completa MAS faz parte do pacote OLIMPIADA 2016, que o Governo do Brasil
aceitou na pessoa do ex-Presidente Lula, em busca de glorias. Queixem-se a ele, pai da criança.
Juliano Santos
22 de dezembro de 2014 1:27 pmAA, sou a favor das
AA, sou a favor das Olimpíadas aqui no Rio e contra a construção desse campo de golfe, já que já tem dois, o que parece indicar segunda intenções não muito idôneas. Viu? Não tem nada de contraditório nisso, é só não ser manequista aproveitando a deixa para alfinetar o Lulão
Alex Sotto
22 de dezembro de 2014 2:16 pmSou contra esse espetáculo
Sou contra esse espetáculo idiota seja no Rio ou em qualquer outro lugar do planeta.
Um desfile dantesco de gente anormal que tem um custo social enorme em qualquer lugar que os sedia, para que depois as obras caríssimas fiquem largadas, sem uso, pois a maioria dos esportes não tem demanda local.
E isso tudo para que ?
Para que redes de TVs faturem milhões imbecilizando o mundo por 15 dias e na esteira dessa imbecilização, empresas de material esportivo. que via de regra usam trabalho semi-escravo no sudoeste asiático, faturem bilhões de dólares.
Arnaldo Sabino
22 de dezembro de 2014 4:19 pmConcordo. E o outro
Concordo. E o outro espetáculo, a Copa do Mundo? Quantos milhões foram gastos, superfaturados ou desviados, como queiram falar. E agora os estádios “maravilhosos” que estão mais afastados, como irão se manter no futuro? Gosto, ainda do futebol, sem mencionar os depreciáveis 7 a 1.
Alex Sotto
22 de dezembro de 2014 2:10 pmA decisão do retorno do Golfe
A decisão do retorno do Golfe às olimpíadas foi posterior a eleição do Rio como sede.
O Mar da Silva
22 de dezembro de 2014 12:40 pmA infeliz realidade
A infeliz realidade brasileira.
Ernesto GMV
22 de dezembro de 2014 1:04 pmDe novo
Não vai ter golfe.
Alberto José
22 de dezembro de 2014 1:32 pmMinha solidariedade aos
Minha solidariedade aos ativistas. #ocupagolfe
Lair Amaro
22 de dezembro de 2014 2:07 pmJornal do Brasil está acompanhando
O Jornal do Brasil, que não é o mesmo de antes, vem acompanhando o caso e noticiando quase diariamente.
http://www.jb.com.br/rio/noticias/2014/08/15/mp-pede-a-anulacao-da-licenca-do-campo-de-golfe-olimpico/
Athos
22 de dezembro de 2014 2:25 pmO protesto não enche uma
O protesto não enche uma kombi.
luizmattos
22 de dezembro de 2014 3:46 pmAgora é o “Não vai ter Olimpíada”
Só não se pode acreditar na inocência esses ativistas, que são os mesmos de sempre pegando carona em qualquer movimento.
É a mesma turma posando de “bons meninos”
Ou esqueceram do cinegrafista morto pelo rojão?
Agora é o “Não vai ter Olimpíada”
Paulo Golfe
23 de dezembro de 2014 2:30 amO Itanhangá Golfe fez campanha para usarem o clube
O Itanhangá Golfe Clube fez campanha para que o seu campo fosse utilizado para as Olimpíadas. Estava tudo certo até que, de repente, a Prefeitura resolveu conceder isenções de impostos para destruírem uma reserva ambiental. Ocupa Golfe!
Roger Clinton
5 de janeiro de 2015 4:38 pmEu acredito nesses
Eu acredito nesses manifestantes e em todos os que os apoiam aqui no dia em que vê-los também protestando contra o crescimento das Favelas nos morros cariocas. Afinal, se a intenção é proteget o bioma, tem que valer tanto na Favela quanto no Golfe.
Até lá, creio que não passa de um bando de invejosos que são contra qualquer um que se dedique ao trabalho para um dia poder ter um padrão de vida melhor.
Aliás, se investissem 30% da energia que investem nesses protestos no seu próprio trabalho (se é que esse povo trabalha), provavelmente estariam jogando golfe no futuro campo!