19 de agosto de 2026

A grande noite da intolerância na campanha do impeachment, por Luís Nassif

Nem no período bárbaro da ditadura testemunhei clima similar ao que acometeu o país na longa noite da Lava Jato até o impeachment de Dilma.
Dilma Rousseff discursa no Senado - foto de Geraldo Magela - Agência Senado

O artigo relata abusos cometidos por autoridades durante a Lava Jato e o impeachment de Dilma, afetando universidades e políticos.
Casos incluem prisões injustas, censura judicial e perseguição a professores e estudantes em várias regiões do Brasil.
A repressão envolveu juízes, promotores, policiais e militares, com apoio da imprensa e ações contra opositores políticos.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Esta noite haverá mais uma refeição das pessoas na sala de jantar. Como rezava a canção “Panis et Circenses”:

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“Mandei fazer
De puro aço luminoso, um punhal
Para matar o meu amor, e matei
Às cinco horas na Avenida Central
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e em morrer”.

No computador, abro um velho mapa mental no programa Curio, onde armazenei todos os absurdos cometidos pelas pessoas na sala de jantar.

A imagem que me veio à mente foi a do procurador com ar tranquilo, fotografado em seu gabinete com o retrato dos filhos na estante. Imaginei-o chegando em casa depois do expediente, tomando um banho quente, vestindo seu roupão. Depois, senta-se no sofá, liga a TV no Jornal Nacional e se dirige ao filho:

– Filhinho, está vendo aquela pessoa que se atirou do último andar do Shopping? Era um ex-reitor da UFSC. Foi o papai que conseguiu!

Nem no período mais bárbaro da ditadura testemunhei um clima similar ao que acometeu o país na longa noite da Lava Jato até o impeachment de Dilma. A maldade estava no ar de forma tão intensa que podia ser cortada por golpes de navalha.

Os abusos eram cometidos em todos os cantos do país por promotores, juízes, procuradores, delegados, jornalistas e militares.

A ditadura tinha os porões. Do nível da rua para cima, porém, nem a ditadura conseguiu se equiparar a esses anos tenebrosos. O bafo quente dos abusos se espalhava por todos os ambientes. O mapa da mente estava lá, como registro solitário e calado desses tempos de horror.

Cada aba do mapa traz uma lembrança amarga:

Começa com a figura nobre da desembargadora Kenarik Boujikian, punida com censura pelo Tribunal de Justiça de São Paulo por ter concedido 11 alvarás de soltura, entre 2014 e 2015, para presos que já haviam cumprido suas penas.

Ou então quando, a pedido do ministro da Educação Mendonça Filho, a AGU, o TCU e o MPF passaram a investigar a disciplina optativa da UnB, “O golpe de 2016 e o futuro da democracia”, do professor Luis Felipe Miguel, chegando a levantar a hipótese de improbidade.

Em Florianópolis, a Polícia Federal invadia o campus e levava preso o ex-reitor Cancellier e vários professores, por acusações que se revelaram falsas. E, em Belo Horizonte, foi preciso que a comunidade universitária se mobilizasse no campus da Universidade Federal de Minas Gerais para impedir a prisão do reitor e de professores pela Polícia Federal.

No Rio, um juiz federal de Brasília autorizou a condução coercitiva de 40 funcionários do BNDES, algumas grávidas, sob acusações falsas e sob os holofotes dos helicópteros da Rede Globo.

Ao mesmo tempo, o desgosto levava à morte um reitor da UFRJ, após uma série de acusações infundadas sobre a contratação de uma empresa para os coquetéis da universidade.

Apoiados pela imprensa, os terraplanistas saíram das catacumbas e cometeram toda sorte de atentados à ciência, como intimar um professor emérito a depor apenas por ter participado de um seminário sobre os poderes medicinais da cannabis.

No Sul, caravanas de Lula eram recebidas a tiros. O Instituto Lula era alvejado por atiradores sem que nada fosse apurado. O mesmo juiz que ordenou a condução dos funcionários do BNDES decretou o fechamento do Instituto Lula e a cassação do passaporte do ex-presidente.

Ainda no Sul, o desembargador Favretto, de plantão, ordenou a soltura de Lula, mas dois colegas, Thompson Flores e Gebran Neto, atropelaram todos os procedimentos para desautorizá-lo.

Enquanto isso, em São Paulo, um delegado da Polícia Civil invadia a casa de um dos filhos de Lula, em um condomínio, com base em uma denúncia anônima, e uma brigada invadia a Escola Florestan Fernandes, assustando crianças, mulheres e idosos.

Em Duque de Caxias, uma juíza leiga mandou algemar a advogada negra Valéria Lúcia dos Santos.

E, nas eleições de 2018, um grupo de presidentes de Tribunais Regionais Eleitorais, articulados em um grupo de WhatsApp, ordenou que a Polícia Militar invadisse diversas universidades federais para impedir manifestações de professores e alunos.

Em São Paulo, um jornalista denunciava uma professora de psicologia, septuagenária, por orientar uma tese sobre redução de danos com ecstasy, levando a Fapesp a cortar a bolsa da aluna.

Ao mesmo tempo, no Paraná, um delegado exibicionista convocava 200 colegas de todo o país para uma mera operação contra irregularidades na fiscalização sanitária. O mesmo delegado, no Rio de Janeiro, exibia a presa: o ex-governador do estado, Sérgio Cabral Filho, algemado nos pés e nas mãos.

Estudantes que ousaram protestar contra o impeachment, em São Paulo, foram alvos de um espião do Exército — em um comportamento indigno —, que se aproximou do grupo por meio de um aplicativo de namoro. Os rapazes foram denunciados criminalmente por um promotor inclemente e uma juíza cruel.

Um pouco antes, a pretexto de instalar uma escuta na Papuda, uma juíza autorizou uma rádio de escuta que abarcava até o Palácio do Planalto. Enquanto isso, um juiz corregedor sádico impedia que José Genoino, recém-saído de uma cirurgia cardíaca delicadíssima, pudesse se tratar em uma clínica.

E ganhavam manchetes os juízes que algemavam presos nas audiências de custódia para que não roubassem canetas.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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