9 de junho de 2026

Dominó de Botequim, por Rui Daher

Itanhaém, SP

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– Nenhum governo é ou será pior do que a mutação de caráter do brasileiro em 30 anos.

Foi a primeira frase que saiu da boca de Serafim naquela segunda-feira, um dia antes de “Quando Setembro Vier”.

Surpreendi-me com o velho amigo, inspiração para o Dominó de Botequim, que tinha tomado um golpe financeiro e perdido todas as suas posses aqui e parte das da família em Portugal.

Seria este o mesmo português alegre, dono de negócio digno e lucrativo, que vivia abençoando o fato de ter vindo para cá?

Poucos dias antes de sumir confessando-me missão importante, os dois diante de autêntica bagaceira sempre escondida sob o balcão do boteco, declarara mil amores pelo Brasil.

Desilusões de quem deixara o país em busca de uma herança e fora trapaceado por um executivo de tramoias financeiras? Ou aí se juntavam dores de ter perambulado sua vergonha diante dos parentes lesados que moravam em terras lusitanas?

O peso do retorno de um fracasso? Desempregado, fazendo bicos como garçom em eventos festivos, vocês sabem quais, batizados, casamentos, aniversários em salões pobres da periferia. Nobres pela alegria das gentes que abrigam.  

Aquele Serafa, acolhido na precária casa de antiga companheira, em Marsilac, adoecera sem qualquer assistência e, talvez, morresse não fosse a nossa ajuda.

Português maluco? Hospício? Quintal, quintal, quintal! Pode ter pirado quem solta a frase verdade que nenhum de nós mencionara?

“Nenhum governo é ou será pior do que a mutação de caráter do brasileiro em 30 anos”.

Notaram o termo mutação e não mudança? Mais profundo, intenso, súbito, espontâneo e genético. Mutações fazer surgir novas raças e espécies. Creio que vocês têm reparado nisso.

Avisado por Netinho, Serafim concordara em encontrar-me. Convidei-o ao almoço num restaurante português de preços módicos e pouco luxo. Recusou. Realizei que não estava ainda preparado para lembranças da terrinha.

Também, disse, não gostaria de vir a São Paulo. Respondi que se fosse pela condução eu iria buscá-lo. Não. Tinha vontade de ver o mar. Se eu não me incomodasse, conhecia um caminho por estradas vicinais que nos levariam até Itanhaém.

– Não mais do que 30 km.

Gostei da ideia. Desceria a Serra do Mar, em ambiente rural remanescente da Mata Atlântica e do vale do Rio Capivari.

Marquei com o Serafim às nove horas, em local tecnologicamente mostrado pelo Waze.

Que não se imagine um Serafa envelhecido e aspecto fúnebre. Nada. Os mesmos cabelos negros aplastados com pente e brilhantina, grosso bigode, terno escuro, camisa branca, gravata grená e o chapéu de aba que, mesmo na praia, assim os lusitanos vão a encontros importantes.

Poucas palavras, no início: tudo bem, como vais, bom te ver, o Netinho te avisou? Tímidas firulas.

– Estás mais magro, Rui.

– Fiz a tal da cirurgia bariátrica, redução do estômago. Perdi 30 quilos. Você também emagreceu.

– Agora, com a dengue.

A paisagem no caminho era deslumbrante. O dia estava claro, o céu azul. Do ponto mais alto se via o mar do litoral sul paulista. Paramos o carro e descemos.

– Senti muita falta disso. De vocês. Do botequim, o som das pedras misturadas nas mesinhas de metal e enfileiradas como ruas amuradas. Somente os passantes de um dos lados sabiam quantas janelas tinha cada casinha.

– Nossas vidas também nunca mais foram as mesmas depois que o Dominó de Botequim fechou. Levou mais de um ano para sabermos o que fazer com as manhãs de domingo.

– Nunca foi minha intenção agir daquele jeito, mas o gajo da Avenida Paulista insistiu que o sucesso da jogada dependia do segredo. Quanto mais gente soubesse menos renderia a aplicação.

– O aplique, no caso.

– Algo a ver com mercado ofertado e não. Demorei até entender tudo.

– Nós aqui, eu principalmente que o havia alertado, levamos um susto quando o Netinho nos avisou da sua partida e do fechamento do Dominó. O Manoel Vieira ficou inconsolável. Sabes o quanto ele preza o esporte.

– Sei, sei. Pensei muito nele em Portugal. Planejei, depois que enchesse os bolsos de grana e voltasse ao Brasil, construir um ginásio exclusivo para a prática do dominó.

– Ele iria gostar. Pena que não deu certo.

– Deixa pra lá, Rui. Vamos continuar a descida.

Era justo. Serafim não queria ir muito longe com as lembranças. Pelo menos, por enquanto. Período de sua vida impróprio a julgar, questionar, racionalizar. Aconteceu. Simples assim, como simples deveria ser o continuar.

Naquela hora, não para mim. Homenagem à esquerda internacionalista, fora um dos primeiros brasileiros a comprar um carro chinês. O EFFA M-100 parecia prestes a desfalecer entre as pedras e crateras do caminho.

– Serafa, conheces algum restaurante bom em Itanhaém?

– A Cesarina me levou num, à beira-mar, que era bonzinho e servia ao bolso dela.

– Tu nunca me contaste da Cesarina.

– Não só dela, riu o português.

– Eu te imaginava um solteirão empedernido, um misógino.

– Se isso que você falou tiver a ver com veado, paneleiro, nunca!

Fui a Itanhaém há décadas. Pouco me lembro. Vêm-me à cabeça trechos da Manoel da Nóbrega e congestionamentos.

– Pra onde sigo, Serafa?

– Para aonde o “China” conseguir chegar, respondeu rindo.

– Onde fica o restaurante que você foi com a Cesarina?

– Praia dos Sonhos. Lá estão a Cama de Anchieta, a Praia das Conchas e a Gruta Nossa Senhora de Lourdes. Siga as placas que alguma haverá de aparecer.

– Itanhaém é a segunda cidade mais antiga do Brasil. Foi fundada por Martim Afonso de Souza, 1532, parece.

– Isso é o que dizem de tudo o que nós, portugueses, fizemos depois do Descobrimento. Aldeias, povoados, cruzes enormes de madeira, aldeolas, são histórias contadas por mentirosos e rufiões. Entre os séculos 16 e 18, mudam de fundador e data sem que ninguém tenha certeza de porra nenhuma.

– É, esse cruzamento entre seus antepassados e nossos historiadores não é lá muito confiável.

– Está lá, Rui! Chegamos. É o “Tia Lena”.

– Boa! Tô morrendo de fome.

– Rui, te peço um favor, que não tive coragem de pedir a Cesarina. Me deixe molhar os pés nos mares do Brasil antes de entrarmos para comer.

– Dá a mão, Serafa. Vamos juntos!  

Rui Daher

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

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  1. Odonir Oliveira

    6 de setembro de 2015 2:18 pm

    Rui, a praia

    Sabe que a companhia do blog é tão importante, que domingo passado saí daqui de casa e fui colher bacalhau em um restaurante do tipo desse a que você se refere aí.

    Sou boa de boca- amo comer. Por isso não me preocupo com issos e aquilos mais. Os exames dão bons. Valeu.

    Trata-se de uma portuguesa, a dona do restaurante, que veio há anos do Rio, com a família para cá. Ali ela faz os mais diversos tipos de bacalhau- a quilo- uma delícia.

    Claro, há os outros pratos mineiros etc.

    Mas isso é comida caseira. Dela tenho em casa.

    Bacalhau é uma delícia !

    Depois desse Dominó, sem mar, sem o mar, sem Omar… acho que vou lá de novo hoje.

  2. Anna Dutra

    6 de setembro de 2015 6:51 pm

    Rui,

    saudade. Este o sentimento do dia e que tua crônica fez reforçar. Viajar de carro é muito gostoso e esse papo rolando entre os amigos que se deslocam, cheio de reminiscências, é como sopa de mãe quando estamos doentes: um conforto que vai além, pacificando e aquecendo o coração, suavizando angústias, amenizando ausências. Não vou comentar a “trilha”, ainda estou engasgada.

    Bom domingo!

  3. Raí

    7 de setembro de 2015 6:40 pm

    Sem praia, sem bacalhau, porém…

    Amigo Rui, bem que seu programa com o tal Serafim, foi inigualável, mas acredite, seu nome esteve em algumas bocas, comedoras e bebedoras, que estiveram reunidas ontem num condomínio em Baruerí, a convite da nossa amiga comum, Dulce Leão, que deixou a sua Rio de Janeiro, e veio trocar figurinhas, em Sampa, com alguns conhecidos e seguidores do Blog do Nassif, e lá falamos dos ausentes, dentre os quais você, que certamente foi o mais citado. Na próxima…

    1. Rui Daher

      7 de setembro de 2015 11:50 pm

      Na próxima, amigo Raí

      vou “trocar de mal” c’ocês se não me avisarem. Abração

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