3 de julho de 2026

O que você nunca soube sobre a escravidão moderna e jamais ficaria sabendo

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Por Sebastião Nunes

Ivanildes Pereira da Silva mora nos cafundós da periferia e pula da cama às 5 horas para chegar ao trabalho às 7. Chega, bota avental, varre o chão da lanchonete, abre as portas e começa a fritar pastéis, coxinhas e quibes. Cartazetes anunciam: “6 pastéis por R$3,00”. “1 refresco e 3 pastéis por R$3,00”. Etc. Até 11 horas, quando almoça no “a quilo” em frente, fritou mais ou menos 350 pastéis, 280 coxinhas e 120 quibes. Recomeça às 12 e vai até às 16. Como muitos fregueses almoçam mesmo é salgado com refresco, o movimento aumenta bastante entre meio-dia e uma da tarde. Quando vai embora, depois de ceder o lugar a Francisca Oliveira dos Santos, terá fritado uma média de 700 pastéis, 560 coxinhas e 240 quibes. Trabalhando cerca de 26 dias por mês (folga às quartas-feiras), sua produção mensal de frituras é aproximadamente a seguinte:

Pastéis: 18.200 unidades

Coxinhas: 14.560 unidades

Quibes: 6.240 unidades

Total: 39.000 frituras/mês

Se não brigar com o patrão, não for suspensa por atraso, não perder o emprego por doença, terá totalizado depois de um ano a produção das seguintes frituras:

Pastéis: 218.400 unidades

Coxinhas: 174.720 unidades

Quibes: 74.880 unidades

Total: 468.000 frituras/ano

 

UMA VIDA DE DEDICAÇÃO

Quase certamente Ivanildes morrerá antes de se aposentar. Mas vamos supor que, por um desses acasos improváveis, consiga aguentar os anos de serviço exigidos das mulheres. Pulando de lanchonete em lanchonete, ganhando sempre o mesmo salário de empregada sem qualificação, perderá os dentes, a saúde e a beleza – se é que teve alguma –, mas não perderá o trabalho. E então, depois de 30 anos fritando pastel, coxinha e quibe, chegará o dia tão sonhado em que poderá ir para casa, sem horário, sem patrão e sem fedor de gordura queimada nos cabelos, na pele e nas roupas.

Estará encerrada sua vida produtiva. Não importa se casou, se teve filhos. Suas doenças não contam, nem suas opiniões, ideias, palpites. Quase certamente não teve tempo de pensar. Quando precisou votar, votou em quem era mais bonito ou ria com mais dentes. Namorou com certeza, foi talvez um bicho saudável na cama, quem sabe amou e foi amada. Algumas vezes, foi feliz; outras, infeliz. Até que certo dia, como acontece na vida de pobres e de ricos, aquela dorzinha persistente aumentou, aumentou – e não teve santo que desse jeito. Parentes e amigos no velório? Dois ou três gatos-pingados. Enterro miserável, poucas flores, meia dúzia de lágrimas, nenhuma saudade.

 

LOUVOR DE IVANILDES

Batalhadora incansável, Ivanildes Pereira da Silva foi exemplo de esforço, tenacidade e amor ao trabalho. Durante 30 longos anos, matou a fome de milhões, incontáveis milhões, que degustavam seus pastéis, suas coxinhas e seus quibes. Quantas vezes, olhando de esguelha, não surrupiou disfarçadamente um pastel para contentar aquele pivetinho que olhava faminto a vitrine embaçada? E quantas outras vezes não empurrou um copo de refresco para a velhinha que, escorando-se na porta, suava e tremia? Assim foi Ivanildes. Humilde exemplo de estoicismo, tão grande como as maiores heroínas antigas ou modernas, é um exemplo para todas as mulheres e – por que não? – para todos os homens. Não fez sucesso na TV, não gravou discos, não pintou quadros, não escreveu livros. Muito menos pintou discos, escreveu quadros, gravou livros. No entanto, ao cabo de 30 anos, sua vida representa – aos olhos de quem sabe ver – uma admirável carreira, digna dos maiores heróis antigos ou modernos, de Alexandre a Napoleão, de Anita Garibaldi a Teresa de Calcutá, de Tiradentes a Gandhi.

Na ponta do lápis, tim-tim por tim-tim, qual dos colossos acima seria capaz de igualar sua vastíssima produção de bens comestíveis e baratos, que abaixo revelo, perplexo com tanta grandeza e tenacidade?

 

LEGADO IMATERIAL DE IVANILDES

Pastéis: 6.552.000 unidades

Coxinhas: 5.241.600 unidades

Quibes: 2.246.400 unidades

Total: 14.040.000 unidades, ou seja, mais de 14 milhões de pastéis, coxinhas e quibes fritos em lanchonetes vagabundas, em 30 longos anos de pobreza e escravidão, nestes magníficos tempos de riqueza, biologia molecular e shoppings maravilhosos.

 

**********

 

Ilustração: colagem sobre “Negra com turbante”, foto de Alberto Henschel (1827-1882)

Sebastiao Nunes

Escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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16 Comentários
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  1. Gabriel Moreno

    27 de março de 2016 10:49 am

    Quando eu leio essas coisas e

    Quando eu leio essas coisas e penso naquela classe média bem nascida, que nunca fez coisa semelhante na vida, reclamando do governo e desses programas que “ajudam as pobres”, me vem uma profunda revolta. 

    1. Marco Vitis

      27 de março de 2016 1:47 pm

      Escravidão Moderna

      Aqueles que comum os pastéis fritos por ela, também são “Ivanildes”.

      Na escravidão moderna, os grilhões não são ferros fixados nos tornozelos e pescoços.

      Os grilhões da escravidão moderna são as idéias, os valores de dominação, introjetados na consciência de cada um de nós.

    2. Adriano Martins

      27 de março de 2016 1:50 pm

      Somos dois…

      e que Deus tenha piedade de nossa revolta! Um abraço!

    3. Pedro Mundim

      27 de março de 2016 2:49 pm

      A classe média é o pobre amanhã

      A classe média é o pobre amanhã. Todo pobre que combate a classe média está dando um tiro no próprio pé. Essa ideia de que a classe média não quer que o governo ajude os pobres é uma piada já bastante gasta a essa altura. Quem repete isso quer fomentar uma invejazinha boba e apresentar o governo como o Pai dos Pobres. Como se fosse possível ajudar aos pobres sem ajudar a classe média à qual todo pobre quer ascender…

  2. paulmourap

    27 de março de 2016 12:10 pm

    A pergunta que não quer calar…

    o que seria da tenaz Ivanildes se tivesse oportunidade de se educar (educação formal é claro).

    Seria uma trabalhadora qualificada e dedicada produzindo bens e conhecimento de alto valor agregado para o bem de toda a sociedade.

    Essa pergunta começou a ser respondida pelos governos trabalhistas/populares nos últimos anos e já temos muitos resultados positivos.

     

     

  3. fabio x

    27 de março de 2016 12:47 pm

    Moral da historia: graças ao

    Moral da historia: graças ao empregador que conseguiu num dos paises de maior carga tributaria do mundo montar um negocio lucrativo, ela teve a possibilidade de trabalhar de acordo com suas capacidades e, como bem diz o texto, “Durante 30 longos anos, matou a fome de milhões, incontáveis milhões, que degustavam seus pastéis, suas coxinhas e seus quibes.” Realmente todos são herois pois “Na ponta do lápis, tim-tim por tim-tim, qual dos colossos acima seria capaz de igualar sua vastíssima produção de bens comestíveis e baratos, que abaixo revelo, perplexo com tanta grandeza e tenacidade?”

  4. Weyll

    27 de março de 2016 1:06 pm

    Depois do golpe, as Ivanildes

    Depois do golpe, as Ivanildes vão perder o emprego e a aposentadoria, o Samu e o Mais Medicos. As que tiverem sorte, vão continuar no emprego ganhando menos ainda. E o 1% da população ficará ainda mais rica

  5. Ely de Souza

    27 de março de 2016 2:08 pm

    As (os) invisíveis.

    Certa feita conversava sobre política num bar tipo “Boca Maldita” na futura capital federal do Brasil : JAGUARIAÍVA (PR).

    É uma padaria de um amigo, grande amigo. Lugar bem frequentado (de operários, aposentados, médicos, pecuaristas, pescadores e mentirosos de todos os gêneros)  pelas boas pessoas de bem da pequena cidade. Lugar mais eclético impossível.

    A certa altura da animada conversa, contestando os sindicatos, um fazendeiro rasgou elogios ao seu retireiro : – “homem trabalhador, levanta às 4 da manhã, ordenha tantas vacas, faz isso, faz aquilo, conserta cercas … não precisa mandar… . É da minha confiança. Esses dias mesmo, disse o grato patrão, fui viajar e fiquei 30 dias fora, no exterior, com a família e deixei tudo nas mãos dele, quando voltei, prestou contas de tudo direitinho. Aproveitando o fechamento do pensamento do fazendeiro, velho conhecido, e completei : – E claro que você lhe deu 30 dias de férias e fez todas  as tarefas  que ele faz na fazenda, né ?

    O retireiro serviu ao pai do moço que já casou e contituiu família. Quanto ganha ? Recorrendo a uma lógica morística – ISSO NÃO VEM AO CASO.

    Só posso afirmar que a conversa findou-se na minha pergunta e não fiquei sabendo das férias do trabalhador de confiança.

  6. heber bezerra

    27 de março de 2016 2:16 pm

    Ótima reflexão. Parabéns

    Ótima reflexão. Parabéns Sebastião Nunes

  7. Quintela

    27 de março de 2016 2:48 pm

    No HABIBS é exatamente isso,

    No HABIBS é exatamente isso, escravidão em pleno séc.XXI, não sendo suficiente há sonegação de impostos totalmente sistematizada.

    1. Pedro Mundim

      27 de março de 2016 3:00 pm

      Se não houvesse sonegação…

      Se não houvesse sonegação, os salários pagos pelo Habib´s seriam ainda menores, ou os preços dos salgadinhos seriam maiores. Nunca soneguei impostos, mas compreendo perfeitamente quem o faz.

      1. zhungarian alatau

        27 de março de 2016 7:22 pm

        Tipo a Globo, não é mesmo?

        Tipo a Globo, não é mesmo?

        1. Pedro Mundim

          27 de março de 2016 8:45 pm

          Não sei se a Globo sonega impostos, mas…

          Não sei se a Globo sonega impostos, mas em um país onde a carga tributária é muito maior que a média dos países emergentes, e a qualidade dos serviços é muito inferior, sonegar impostos chega a ser quase meritório. Até se for feito pela Globo.

  8. Pedro Mundim

    27 de março de 2016 2:57 pm

    Isso não é escravidão

    Isso não é escravidão, é trabalho assalariado mal pago, característico de país pobre. O valor dos salários é regulado pelo Mercado de Trabalho, e não pela vontade deste ou daquele. Trata-se de uma equação que leva em conta, de um lado, a quantidade de capital disponível, e de outro a quantidade de trabalhadores disponíveis. Apenas o enriquecimento do país muda essa relação.

  9. José Tanajura de Carvalho

    27 de março de 2016 3:54 pm

    O que você nunca soube sobre a escravidão moderna e jamais ficar

    Excelente artigo. Começaria as minhas aulas de teoria econômica com a leitura obrigatória sobre esse texto. Dele, chegaria fácil, fácil, ao conceito de mais-valia.

    Parabéns!

  10. Marisa Choguill

    28 de junho de 2016 9:27 am

    Excelente artigo, Tiao!

    Como um comentarista diz acima, eu tambem pretendo usa-lo em minhas aulas.  Obrigada!

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