Por Sergio Saraiva
Mais uma vez, o Brasil me parece como o doloroso verso síntese de Manuel Bandeira em “Pneumotórax”: a vida inteira que poderia ter sido e não foi.

Menino crescido na ditadura, aprendi que o Brasil era o país do futuro.
Próximo dos sessenta, me parece mais adequado imaginar que o futuro para o Brasil é uma ilusão de ótica. Como um país que viajando em uma grande curva de 360°, o que enxergasse como futuro não fosse mais que uma eterna volta ao passado.
Quantas vezes o futuro já nos pareceu tão próximo das mãos? Quantas vezes apenas nos iludíamos, e o que nos aparecia à frente era apenas o que poderia ter sido, e não foi?
A “Nova República” que poderia ter sido e não foi.
Vinte e um anos de ditadura chegava ao fim, o futuro nos sorria com os dentes alvos da liberdade. Por que Tancredo eleito não pegou o avião e não voou para São Paulo, para um dos seus melhores hospitais? Porque, fiel à sua memória e ao passado, esperava um golpe se o fizesse. Veio a morte e com ela Sarney. Até pelos jaquetões que envergava, Sarney com seus bigodes pintados de preto não poderia ser o futuro. Faria boa figura na República Velha.
A modernidade com Collor que poderia ter sido e não foi.
Críamos Collor o jovem cosmopolita, empreendedor com ideias arejadas e visão de futuro, era só mais um voluntarioso herdeiro da nossa aristocracia rural aferrada a seus desmandos e privilégios de nascença. Aécio não teria sido diferente.
A era da racionalidade com FHC que poderia ter sido e não foi.
Críamos FHC um representante da nossa intelectualidade que finalmente chegava ao poder. Era só mais um componente da classe média paulistana, preconceituosa, sonhando com um “primeiro mundo que não é aqui” e buscando um cargo público bem remunerado onde pudesse gozar dos benefícios de uma aposentadoria integral sem ter que trabalhar para chegar até ela.
A socialdemocracia com Lula que poderia ter sido e não foi.
Críamos o como um sábio formado na escola da vida severina. Mostrou-se um sonhador ingênuo e apaixonado. Lula cometeu um erro fatal tal qual Tancredo. No seu caso, o de desmobilizar as forças sociais que lhe davam apoio. Evitou o confronto, acreditou no processo democrático. Esqueceu as lições que as batalhas do sindicalismo lhe ensinaram. A luta de classes não acabou quando um operário chegou ao poder, antes, ali começava.
Por fim, Dilma é o 68 temporão que foi e não deveria ter sido.
Meio século depois, em um Brasil que, como o menino do tambor, parece se recusar a crescer, maconha, aborto, religião, marchas das famílias com Deus, Cuba e homossexualidade voltaram a ser pautas discutidas nas ruas radicalizadas pelo apelo à “moralidade” e ao “combate à corrupção”. Mas Dilma não pode ser responsabilizada por isso. Não, ela não propôs nenhum desses temas. Quando chegou ao poder, a parte da sociedade que tem voz já completara a curva de volta a 1960. Se Dilma pode ser responsabilizada por um erro, é o de ter, em tempos de vacas magras, acreditado em Jorge Gerdau e Joaquim Levy.
O que nos resta?
Mais uma vez, a espera do futuro, coloco na vitrola um tango argentino.
PS : para entregas em domicílio consulte a oficina de concertos gerais e poesia.
armandolo
1 de junho de 2015 2:02 pmColoque mesmo na vitrola um
Coloque mesmo na vitrola um tango argentino, e chore muito por Peron. A ruína deles e nossa deve-se ao maldito populismo, esta praga devoradora de sonhos.
Astronauta
1 de junho de 2015 2:04 pmPotencial não realizado
Estou com o mesmo sentimento. Há a possibilidade de o retrocesso ser ainda maior. Lembrando o outro poeta esse é o tempo de homens partidos.
mcn
1 de junho de 2015 2:55 pmBobagem, Saraiva.
O Brasil de hoje é infinitamente melhor que o dos anos 60. Há números que comprovam isso:
:: Trajetórias da Desigualdade: como Brasil Mudou nos últimos 50 anos, Marta Arretche, Ed. Unesp/CEM, 2015 – http://goo.gl/Smi6Hd
O que acontece é que saímos da aristocracia rural para a modernidade urbana, mas a aristocracia rural nunca saiu de nós. O pobre ainda se acha um escravo; e o rico, um senhor de engenho.
Anarquista Lúcida
1 de junho de 2015 6:55 pmBeleza de comentário.
Concordo plenamente.
A questao é que a vida é curta, e as melhoras demoram… Ficamos impacientes, e nos esquecemos do quanto já andamos.
arkx
1 de junho de 2015 3:00 pmsalve os encantados
salve o Infante D. Henrique! salve, salve. salve Fernando Pessoa! salve, salve.
salve Ganga Zumba! salve o Almirante Negro! salve os cabanos, os malês e os balaios! salve, salve.
salve o movimento anarcosindicalista e a Coluna Prestes! salve as greves do ABC! salve Apolônio de Carvalho e Carlos Marighella! salve, salve.
quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.
a história do futuro somos nós a escrevendo agora, no presente incerto e tomado pelo nevoeiro. mas algo se insinua através da névoa… não! não é ninguém montando um cavalo branco! espera! é uma multidão! seriam eles? os brasileiros?
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Anarquista Lúcida
1 de junho de 2015 6:58 pmArkx, é vc mesmo? Vai voltar a comentar aqui?
Benvindo de volta!
arkx
1 de junho de 2015 11:42 pmgrande abraço
p.s.: viu o filme “O Substituto”, sobre educação e professores, pesado e melancólico, mas muito bom. há diversas citações de “A Queda da Casa de Usher”: “as grossas paredes ruíam, despedaçando-se – houve um longo e tumultuoso estrondo, com milvozes de água – e a profunda e sombria lagoa aos meus pés fechou-se funebremente por sobre os destroços”
p.s.2: para esconjurar a crise -> salve os encantados!
PASÁRGADA!!!
1 de junho de 2015 3:03 pmSe você residiu no Brasil
Se você residiu no Brasil desde sua juventude, deve ter-se mantido enclausurado para não enxergar a mudança.
Se residiu no exterior, pior, não enxerga o óbvio.
Recomendo internação, para agilizar a recuperação de sua depressão.
João Maurício Pimentel
1 de junho de 2015 3:11 pmO país que poderia ter sido e não foi
Comparar Aécio com Collor….. denota profundo desconhecimento do autor.
agincourt
1 de junho de 2015 3:19 pmpindorâmicas
“No seu caso, o de desmobilizar as forças sociais que lhe davam apoio. Evitou o confronto, acreditou no processo democrático. Esqueceu as lições que as batalhas do sindicalismo lhe ensinaram. A luta de classes não acabou quando um operário chegou ao poder, antes, ali começava.”
Não sei se Lula – apesar de operário – algum dia levou a sério a luta de classes. Olhando a história recente, parece que, para The Guy, o grande sonho era que o confronto acabaria em pacíficos fins-de-semana no shopping – o aprofundamento lulista do “frango e iogurte” de FHC.
Concepção bem diferente da de um saudoso ex-tenente-coronel do Exército venezuelano.
Maria Luisa
1 de junho de 2015 4:11 pmNem tudo esta perdido
Sergio, o desencanto é tão grande porque nunca, desde João Goulart, chegamos tão perto das transformações e avanços que sonhamos para o Brasil. Um Brasil para todos. Veja que interessante a entrevista do escritor Laurentino Gomes, falando da historia do brasil e lembrando do governo Fernando Henrique Cardoso. Velhas Republicas….
[video:https://youtu.be/JmDiDgCQtnc%5D
Anarquista Lúcida
1 de junho de 2015 6:53 pmBoa contribuiçao, Maria Luísa
Vale a pena ver o vídeo. Ele mostra bem o “histórico” do que foi, e como, por pior que ainda esteja, estamos sim muito melhor (na verdade essa segunda parte é por nossa conta: ao olhar para o que foi chegamos a essa conclusao).
Webster Franklin
1 de junho de 2015 4:47 pmDiria: Um país que poderia
Diria: Um país que poderia ter sido e foi em parte. Preservar essa parte é a grande questão!!
Anarquista Lúcida
1 de junho de 2015 6:41 pmÉ isso aí. Falou e disse
Tb é importante fazer de tudo para poder continuar o que ainda falta atingir. Mesmo que se consiga pouco, pouco é melhor que nada.
jc.pompeu
1 de junho de 2015 5:46 pmseu nassif devia censurar, ou
seu nassif devia censurar, ou melhor, proibir e banir estes posteres, por aqui, de fenomenal onanista descarga emocional pra baixo… do mais puro complexo de vira-lata dos derrotados, em plena vigência do poder e modos à mesa nas mãos e pés na jaca do socialismo lulopetista, este sim, o grande derrotado e acabado!
um post derrotista deste vale 50 tons de post de empenho y arte de um aguerrido roberto são paulo-sp 2015 a se perder na avalanche de números e porcentagens e variáveis e índices e fórmulas e gráficos alfanuméricos e mais e mais números sobre números derivados a gerar mais números naturais e mais números criativos e mais e mais valores numéricos exponenciais que poderiam ser deveriam ter sido e não foram…
Astronauta
1 de junho de 2015 10:21 pmApatia
Concordo que roberto são paulo-sp faça sua parte divulgando o que já conquistamos. Só não concordo com a apatia geral.
Houve um movimento de trabalhadores contra o pacote de maldades do congresso e governo na sexta (29/05) e a imprensa faz uma pequena menção. A internet ficou silente. Centrais sindicais estão se unindo para preservar um patamar de direito que possa garantir alguma dignidade à classe. Outra façanha de Eduardo Cunha e seus correligionários: unir cut, conlutas e outras.
A grande maioria está esperando para ver para onde vai o equilíbrio. Acredito que só em 2016 saberemos. Mas a inércia dos partidos e do governo me assusta.
armandolo
1 de junho de 2015 6:23 pm“Evitou o confronto,
“Evitou o confronto, acreditou no processo democrático.”
Observe-se o nivel de pensamento do autor deste post. Preciso escrever mais alguma coisa?
Calvin
2 de junho de 2015 7:42 pmDilma deveria acreditar em Mantega!
E afundaríamos todos…