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Blog de Urariano Mota

Graciliano Ramos atualizado, por Urariano Mota

Graciliano Ramos atualizado, por Urariano Mota

No mais recente 20 de março, a lembrança do dia da morte de Graciliano Ramos deu margem à repetição de erros sobre o escritor na imprensa. Isso, claro, nos espaços mais cultos da mídia, porque no geral o escritor não foi sequer lembrado. Então vieram aquelas clássicas visões do genial mestre em que se destacam a secura do seu estilo, o enxuto,  só ossos, porque a sua obra devia ser reflexo imediato de Vidas Secas. E desse livro, que tomam como romance, logo o autor se torna um Fabiano a caminhar em paisagem árida, espinhosa de mandacaru.

No mesmo dia 20, quando se noticiou o lançamento do livro “Um escritor na capela”, que faz uma homenagem ao escritor comunista que sofreu prisão no Estado Novo, partiu-se para a menção, de passagem e rápida, de Memórias do Cárcere. Ora, todas as vezes em que se fala sobre literatura na mídia, e sobre Graciliano Ramos em particular, eu me torno mais que cinco sentidos de atenção.  E me digo: “alerta, aí vêm topadas e tapados”. E mais uma vez não me frustraram. Com efeito, num salto acrobático foram de Vidas Secas a Memórias do Cárcere. E como se nada dissessem, falaram que a obra máxima das memórias políticas no Brasil, foram publicadas na primeira edição “em dois volumes”. Uma luz vermelha se acendeu em mim, “aí tem – o que é isso?”. Então da sala onde eu estava me vieram à lembrança os volumes da primeiríssima edição da José Olympio, que comprei num golpe de sorte no sebo, desprezados como papel velho. Fui então até a estante e alisei feliz os livros de capa amarela. Ali estavam “os dois”  isto é, o Graciliano real e o da mídia.

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Albert Einstein, a relatividade e o Brasil, por Urariano Mota

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Por Urariano Mota

Num 21 de março de 1925, Albert Einstein passou pelo Rio de Janeiro. Depois, voltou em 4 de maio  Mas quase ninguém fala do desastre cômico da passagem do cientista pela boa sociedade do Brasil. Muitos personagens daquela elite continuam vivos, com uma atualidade arqueológica.

Na chegada de Einstein ao porto do Rio de Janeiro só não lhe tocaram Cidade Maravilhosa porque a banda não podia tocar o que ainda não existia. Mas as fotos mostram o cientista em um mar de curiosos, que lhe acenavam e sorriam como se ele fosse um astro de cinema. Se tivesse tempo para refletir, certamente ele diria o que certa vez comentou Borges, ao ser cumprimentado por muitas pessoas nas ruas de Buenos Aires: “eles acenam para um homem que pensam que sou eu”.

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O cumprimento impossível dos Dez Mandamentos, por Urariano Mota

Por Urariano Mota*

Vinha eu posto em sossego no ônibus, quando meus olhos viram estas linhas escritas na parede de proteção do motorista: 

MADRE TERESA DE CALCUTÁ - POEMA DA PAZ

 

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Soledad Barrett reaparece em novo romance, por Urariano Mota

Por Urariano Mota

Do romance inédito A mais longa duração da juventude*

As recentes declaração de Michel Temer para o Dia Internacional da Mulher, quando o medíocre lançou coices na intenção de elogio, trazem à tona o nosso novo livro. Nele, Soledad Barrett ressurge entre os militantes socialistas do Recife, linda e terna. A seguir, divulgo algumas linhas sem as descobertas que narro sobre ela, entre os bravos de gerações do Recife.

Na memória, a imagem de Soledad Barrett volta em preto e branco ou sépia. Em uma ampliação fotográfica, o sépia. O preto e branco na penetração de um sonho. Ela é a mulher pretendida por mim e outros militantes naqueles anos. Há um sentimento de delicadeza que nos invade. Eu a vejo no quintal da casa de Marx, em Jaboatão. Cheia de uma beleza que não desejava chamar atenção, me ocorreu. Então ninguém podia imaginar que a visão das suas pernas, que ela nos furtava com túnicas, calças jeans, saias longas, cobriam o trauma de cruzes nazistas em cicatriz, gravadas à força em suas coxas no Uruguai. No entanto, a aparência de pudor era superficial, porque o furto e a negação para os olhos não detinham toda a Soledad, feminina plena do rosto aos seios e pessoa. Há sempre um tom da verdade que busca o núcleo sensível da imagem em sépia. Toca no músculo mais vivo, ponto delicado.

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Gabriel García Márquez aos 90 anos, por Urariano Mota

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Por Urariano Mota

Neste 6 de março, o gênio de Gabriel García Márquez completaria 90 anos. Na sua ótima biografia escrita por Gerald Martin, podemos ler:

Gabo se mostrava claramente angustiado. Depois que conversamos sobre seu trabalho e planos por algum tempo, declarou que não tinha certeza se voltaria a escrever. Então ele disse, quase melancólico: ‘Escrevi bastante, não escrevi? As pessoas não podem ficar frustradas, e não podem esperar mais nada de mim, não é?

Estávamos sentados em imensas poltronas azuis, numa saleta íntima do hotel, de onde se via o anel rodoviário do sul da Cidade do México. Lá fora estava o século XXI, voando. Oito pistas de tráfego incessante.

Ele me olhou e disse:

– Sabe, algumas vezes fico deprimido.

– Como? Você, Gabo, depois de tudo que realizou? Não acredito. Por quê? Leia mais »

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Portela, o rio que não passa de Paulinho da Viola, por Urariano Mota

Portela, o rio que não passa de Paulinho da Viola

por Urariano Mota

Em tempos só de angústia, a melhor notícia da semana foi a vitória da escola de samba Portela no carnaval carioca. Devo dizer, o melhor da notícia foi a circunstância rara dessa vitória. A Portela venceu com a música “Foi um rio que passou em minha vida” de Paulinho da Viola no enredo.  E foi campeã, depois de 33 anos.

E o que fala Paulinho da Viola desse momento raro? À sua maneira modesta, que só quer falar das coisas do mundo, minha nega, ele declara:  “Eu fico muito feliz e honrado com essa referência. Na verdade, o enredo tratava de rios do mundo, tinha esse samba, de repente, foi um motivo de inspiração, É uma coisa que me honra e eu fiquei muito feliz com isso. Eu continuo dizendo que o mérito é da turma que desfilou, que desenvolveu o enredo e que fez um enredo como pretendia, que era tratar dos rios do mundo. Era o rio Portela e os rios do mundo. Isso que é legal”.

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Uma noite de carnaval na ditadura, por Urariano Mota

Uma noite de carnaval na ditadura

por Urariano Mota

O que dizer de alguém como Vargas, que me fala nesta noite? É simples, absurdo, cheira mal e me dá lição de que bom é o pão para todos. Eu nada sei, e ninguém sabe até aqui, o heroísmo de que será capaz por uma razão fora do manual marxista que ele vulgariza, com o dedo na minha cara. Ele é o herói sem  Olimpo, devo dizer, o herói sem Homero, sem um só narrador, mas acima da nossa altura, penso, pela ação que desenvolverá daqui a menos de um ano. Agora, nesta noite da sexta-feira de carnaval, não. Com a cerveja que dá um calor do peito, com a batida de limão, o militante de oculto nome Getúlio parece não gostar de mim. E continua a inquisição:

- Você já leu Trótski? Nem mesmo Isaac Deutscher? Nãão?! 

- Eu vi Lênin – me defendo.

- O quê? O Estado e a Revolução? Que fazer? Imperialismo, etapa superior do capitalismo?

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Raduan Nassar X roberto freire, por Urariano Mota

Raduan Nassar X roberto freire

por Urariano Mota

Sinto não poder ainda escrever com o devido distanciamento. Tentei até passar mais tempo sem falar, pois esperava que o fragor da onda se perdesse no horizonte. Mas não devo mais, sob pena de omissão. Entendam por favor a urgência e descontem as mal traçadas que vêm a seguir.  

Na solenidade da entrega do Prêmio Camões a Raduan Nassar,  quase toda imprensa brasileira preferiu esquecer a beleza do discurso do escritor.  Aqui, houve uma inversão. Pelo noticiário, mais importante que o Prêmio Camões foi a baixeza, tratada como resposta,  do ministro da cultura. No Jornal da Cultura (essa palavra tão destruída no Brasil de hoje) um comentarista chegou a lembrar o passado do ministro como de um homem de esquerda, e portanto isento defensor do novo governo: "ele vem do PC do B". Santa ignorância, total e absoluta, porque o comentarista desconhecia por completo o que houve com o movimento comunista no Brasil. O ministro da cultura destruída veio do PCB, de onde saiu para o PPS, a versão mais infame do que pode ser um partido com tintas de ex-revolucionário.

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Direitos humanos no rádio, por Urariano Mota

Direitos humanos no rádio

por Urariano Mota

No mais recente 13 de fevereiro, foi comemorado o Dia Mundial do Rádio. Em boa utilização desse aniversário, a diretora-geral da UNESCO Irina Bokova declarou que o acesso público à informação é essencial para fortalecer o Estado de Direito. E mais:

“A alfabetização midiática e informacional nunca foi tão essencial para construir a confiança na informação e no conhecimento, em uma época em que as noções de ‘verdade’ são desafiadas”. O que vale dizer, o rádio também pode promover os direitos humanos, que no geral vêm sendo tão desprezados por comunicadores reacionários no Brasil e no mundo. 

Bem sei por experiência a intensidade da luta no ar, que não gera socos no vazio. Há muito, conheço como anda a opinião pública intoxicada de ódio e terror.  Lembro, primeiro, de um programa de direitos humanos no rádio, o Violência Zero, em que estivemos eu, Rui Sarinho e Marco Albertim, o  excelente escritor e jornalista que perdemos há pouco. No estúdio da Rádio Tamandaré do Recife, na altura dos anos 80, sentíamos a disputa de ideias na sociedade recifense entre punir sem medida e o direito à justiça. Ainda que sem método científico, pelos telefonemas dos ouvintes notávamos que a divisão entre os mais bárbaros e civilizados era quase meio a meio.

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O frevo que se canta hoje no Recife, por Urariano Mota

O frevo que se canta hoje no Recife

por Urariano Mota

No Marco Zero, tocava uma orquestra afinada, passistas faziam um passo de acrobatas, cercados de gente de muitas idades e lugares. Mas eis que de repente, no azul do céu do cais, foi anunciado o frevo de bloco Evocação nº 1, de Nelson Ferreira. Para mim, coisa melhor não há, e me deixei ficar em desarmada prelibação do que viria. Um calor de felicidade correu no peito em atenção à lembrança que guardamos da letra, da canção, do coral de Batutas de São José, do tempo imorredouro da melodia.  Então a voz da cantora soltou:

“Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon
Cadê teus blocos famosos?...”

Mas esses primeiros versos não dizem bem o que ouvi. Outra canção se fez presente já no começo, porque a cantora cometeu um “Fê-linto”. De imediato, esclareço que tal variação na prosódia local não é coisa boba, sem importância.  Nós estamos falando de um hino da cidade. Trata-se de uma das maiores obras de Nelson Ferreira. Mas o melhor veio depois. Terminada a música, fui ao animador do encontro e lhe fiz ver que aquela “pronúncia” não era conforme a original. Então ele me respondeu com o ar mais puro da tarde:

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Greve dos PMs do Espírito Santo acaba em barriga do Jornal Nacional, por Urariano Mota

Greve dos PMs do Espírito Santo acaba em barriga do Jornal Nacional

por Urariano Mota

Agora, se confirma que o Jornal Nacional cometeu uma tremenda "barriga". Anunciou o fim da greve dos PMS do Espírito Santo em furo de reportagem na sexta-feira 10 de fevereiro.

Pouco depois, o site de O Globo foi mais ponderado, aqui http://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2017/02/governo-associacoes-e-sindicato-tem-acordo-e-greve-termina-no-es.html  :

“Representantes dos policiais militares e do Governo do Estado chegaram a um acordo, na noite desta sexta-feira (10) em uma reunião sem a participação das mulheres dos PMs que ocuparam a frente dos batalhões no estado. O anuncio aconteceu no Palácio da Fonte Grande, no Centro de Vitória. As mulheres dos PMs falaram com o G1 e dizem que não foram comunicadas do acordo. Pelo acordo, os PMs voltam às ruas do Espírito Santo às 7h da manhã deste sábado (11). A paralisação completou sete dias nesta sexta-feira (10). A informação do acordo foi publicada no blog da jornalista Miriam Leitão.

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O Gordo e o frevo, por Urariano Mota

O Gordo e o frevo, por Urariano Mota

O Dia do Frevo e seus 110 anos ocorreram nesta semana, em 9 de fevereiro. Tantas vezes já escrevi sobre essa identidade pernambucana e tantas mais hei de escrever, pois o que é da natureza da gente não cansa. Mas hoje falarei da música a partir do Gordo, personagem do meu romance “A longa duração da juventude” **. Acompanhem, por favor, o reflexo do frevo na vida de um homem.   

“Nós estamos no gozo da aurora, na Portuguesa às onze da noite de uma sexta-feira, e o Gordo nos ensina os frevos imortais, de compositores que até hoje ninguém escuta ou fala. Jones Johnson, Toscano Filho, Zumba, Sérgio Lisboa, Nino Galvão. A sua fonte são as memórias da avó, dona Bangue, e do avô, o velho Sucupira, da infância que ele guarda nos discos vinis da Rozenblit. Tesouros. Ele fala num saber que desconcerta, mas não humilha, porque o pagamento será a sua lição. Como agora, num domingo em sua casa.

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Espírito Santo do Horror, por Christiane Brito e Urariano Mota

por Christiane Brito e Urariano Mota

No Brasil, Temer passou a ser o nome próprio de um verbo: temer.

A população do estado do Espírito Santo não merece tamanha trágica ironia. Aquele ser que na liturgia católica se descreve como Deus, a terceira pessoa da Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo, hoje no Brasil significa Temer, Caos e Horror.

A Segurança Nacional, no sentido policial -- pois a segurança já não mais existe em matéria de direitos trabalhistas, educacionais, saúde, previdência e cultura – solta os últimos suspiros ao privar cidadãos do direito à própria vida e sossego.

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Os urubus e as mortes de Dona Marisa, por Urariano Mota

Os urubus e as mortes de Dona Marisa

por Urariano Mota

Em 2005, quando faleceu Miguel Arraes publiquei no La Insignia, na Espanha:

“Os obituários que sempre esvoaçam e rondam a agonia dos grandes homens desta vez falharam no alcance e na sua mira. Urubus, de boa visão e argúcia, desta vez os obituários erraram o cadáver do brasileiro que se vai. E não exatamente por falta de tempo e de informações.”

O que publiquei antes, também se aplica agora, de modo mais cruel em relação a Dona Marisa, a companheira da vida de Lula. Primeiro, porque a mataram de forma lenta e perversa, indigna, quando a envolveram em crimes de corrupção – quem? Sérgio Moro e bando – em compra de apartamento que jamais possuiu. E mais pedalinhos para os netos! Ainda nessa primeira morte a mataram quando viu caluniarem para a humilhação Lula Amado do Brasil. Dessa primeira morte é inescapável a culpa da grande pequena mídia, que acusa primeiro e apura depois, que publica  maldosas hipóteses como fatos consumados, na base do “se não furtou, alguém furtou para ele”. E mais a perseguição nos processos da Lava Jato, onde o criminoso Lula é visto como o chefe secreto da corrupção de todos os tempos no Brasil. Dessa sua primeira morte, mídia, Moro e demais assemelhados têm uma inescapável culpa. Que enviem condolências e sinais de respeito apenas mostram que a hipocrisia respeita a virtude na aparência.

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A tortura como método de esmagar a pessoa, por Urariano Mota

por Urariano Mota

As notícias sobre o fascismo de Donald Trump chegam nestes dias. Ele fala em reabrir as prisões secretas da CIA no estrangeiro e a continuação do programa de interrogatórios que foi desmantelado em 2009. Palavras de Trump:  “Falei com oficiais dos serviços secretos e perguntei-lhes: ‘Funciona? A tortura funciona?’ E eles responderam-me: ‘Sim, absolutamente!’ Sim, quero trazer de volta a tortura. Quero manter o nosso país a salvo. Eu sempre obedeceria a lei, mas gostaria que a lei fosse expandida. Nós devemos usar algo mais forte do que temos agora. Hoje o waterboarding  (afogamento simulado) não é permitido, até onde eu sei. Eu quero que, no mínimo, ele seja permitido”.

Mas alguma vez se justifica a tortura? Acompanhem por favor como se constroem as possibilidades "morais" que justificam o esmagamento de uma pessoa. O recurso da retórica lança hipóteses semelhantes a este encadeamento:

- Você é capaz de matar uma criança?

- Não, claro que não.

- E se a criança fosse uma terrorista?

- Crianças não são terroristas.

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Até prova em contrário, todo negro é ladrão, por Urariano Mota

No Recife, a denúncia de racismo da Casa dos Frios contra o motorista Mário José Ferreira repercute nas redes sociais. A gerente de uma loja da Casa chamou a polícia para prender o motorista, porque ele estaria fingindo comprar bolos antes do assalto. A Casa dos Frios alega que apenas seguiu um procedimento padrão, porque  suspeitou que o homem estava armado. 

A matéria: Motorista que acusou Casa dos Frios de racismo grava vídeo sobre o caso

Esse caso me leva a uma vítima de racismo no Restaurante Leite, no Recife. Está em meu romance “O filho renegado de Deus”. É ficção, mas como tudo que publico vem do que sei e vivi. O Leite, hoje, continua a ser o melhor restaurante da cidade. O problema  é que, como toda excelência de Pernambuco, dos doces ao frevo, o Leite possui também uma história de exclusão e violência. No Leite,  negros não entravam a não ser de farda  como empregados. Isso pelo menos até os anos 50.

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Joaquim Nabuco, um profeta do Brasil, por Urariano Mota

Lembro que em 2010, quando se completaram os cem anos da morte de Joaquim Nabuco, muitas reportagens foram publicadas. Em quase todas, o destaque foi para o  homem liberal, o personagem ilustrado de Quincas, o belo. Nas breves menções às ideias mais radicais de Nabuco, dava-se um pulo esperto para o conceito de “homem complexo”.

Copio um trecho eloquente da Veja:

“As mulheres não resistiam a Nabuco... (já o abolicionismo) foi uma história de homens tomados de paixão por uma causa justa e, entre eles, nenhum mais apaixonado do que o jovem pernambucano de família ilustre, pai, avô e bisavô senadores do Império, com muito berço e quase nenhum dinheiro, que se tornou o que de mais parecido poderia existir no século XIX com uma celebridade ao estilo contemporâneo, aclamado, paparicado e adorado... assumidamente metrossexual, ou, como se dizia no século XIX, um dândi, o tipo masculino preocupado com a aparência e sensível a modismos.”

Notem que as coisas mais graves foram escritas assim, entre amenidades e atualizações que vulgarizam ou difamam. A paixão de Nabuco pela causa abolicionista como uma extensão de galã de telenovela se tornou insuportável. Não era justo que ele se destacasse pelo obscurecimento de homens tão fundamentais quanto Luiz Gama, André Rebouças, José do Patrocínio, José Mariano. Homens, enfim, talvez menos belos ou apurados no vestir, mas cheios de amor e entrega absoluta à igualdade das gentes.

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Pátria minha, por Urariano Mota

Pátria minha, por Urariano Mota

Para estes dias de novo golpe no Brasil, esta evocação e invocação de Vinícius de Moraes.

O crítico literário José Castello numa entrevista contou que o poeta maior  Vinicius de Moraes apresentava um show em Lisboa em 13 de dezembro de 1968. Dia em que os militares do Brasil deram um golpe dentro do golpe com o Ato Institucional número 5.  À saída do teatro, militantes da Juventude Salazarista, todos vestidos de terno e gravata, ficaram esperando a saída do poeta para hostilizá-lo. Eles relacionavam Vinicius à esquerda e ao comunismo. Mas o poeta não se deixou intimidar, e contrariando a orientação que lhe foi dada, encarou os manifestantes recitando de improviso todo o seu poema Pátria Minha:

“A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria. Leia mais »

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A literatura em tempos digitais

Urariano Mota e Raimundo Carrero falam na TV Pernambuco sobre literatura e novas formas do romance na internet.

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O futuro neste ano que se inicia, por Urariano Mota

por Urariano Mota

Para que lado sopra o futuro? Essa pergunta não é vã nem abstrata. Ela quer apenas dizer, na inquietação de cada um de nós: qual será o nosso destino nos dias que ainda não vivemos? 

Houve um tempo em que o futuro era a paz idílica, sentimental, onde todas as feras passeavam ao lado de mansas ovelhas. Esse futuro passou. Houve um tempo em que o amor era a resposta certa para toda baixeza humana.  Passou. Houve um tempo ainda em que a simples visão da flor, da orquídea, da cornucópia de pétalas nos jardins, deixava o peito cheio de um sentimento de felicidade, a ponto de suavizar o semblante, de amolecer os músculos, de fazer úmidos os nossos olhos. Esse tempo se foi.  Então, que futuro nos resta? Que paraísos são possíveis? Ou para que inferno o vento sopra?

Os jovens mais sensíveis e angustiados nos perguntam sempre: o senhor acha que ainda é possível uma ditadura de generais no Brasil?  - Não sei, não sabemos, é o que nos vem. Quem sabe é o vento, dá vontade de responder. Mas só o dizer "não sei" para eles é motivo de espanto. Entendemos a razão. Os jovens confundem cabelos brancos com sabedoria. Talvez nem saibam que os idiotas também amadurecem, sem crescimento da experiência. Talvez nem percebam que esse pesadelo do golpe militar nos acompanha todas as noites, como uma amada de sinal invertido.

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Sonhos do passado e do presente

 

Entrevista sobre o romance “A longa duração da juventude” publicada no Diário de Pernambuco

A luta dos adolescentes e jovens adultos por um mundo melhor e mais justo - e os traumas que podem ocorrer a partir dessa ousadia - são o pano de fundo abordado pelo jornalista e escritor Urariano Mota em seu novo livro, A longa duração da juventude. 

A obra, à venda no site Amazon, é um retorno a memórias do pós-ditadura, mas, ao mesmo tempo, traz uma ponte para o futuro ao relacionar a militância de esquerda dos anos 1960 ao protesto dos estudantes brasileiros na atualidade. “Tenho que contar essa história, senão isso vai ficar perdido. Certas coisas não vão ser ditas se você não falar”, afirma Urariano, colaborador frequente da seção de Opinião do Diario.

O autor dos romances Os corações futuristas, Soledad no Recife e O filho renegado de Deus, além de Dicionário amoroso do Recife, pontua que o romance, segundo ele o mais ambicioso de sua trajetória, foi detonado a partir da morte de um amigo querido, o escritor, jornalista e militante comunista Marco Albertim. “A primeira coisa a destacar é a seguinte: eu não procurei escrever somente sobre a ditadura. Quando eu estava indo visitar pensões onde morei, vi uma passeata de adolescentes protestando com bandeiras por uma educação melhor. Foi quando me ocorreu o fato de que havia uma duração mais longa da juventude. Quem esteve na clandestinidade e foi ao limite da entrega da propria vida está nesses jovens das ocupações de escolas e universidades”.

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Desafios do escritor em tempo de golpe

Wellington Calasans, correspondente internacional de O Cafezinho, me deu a honra desta apresentação e entrevista. Nela eu falo sobre romance, ditadura, tempos de Temer, juventude e história.   

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Romance que liga gerações de rebeldes, por Urariano Mota

 

por Urariano Mota

Vocês perdoem a tremenda cara de pau do autor. Mas nestes dias em que vivemos a maior desgraça dos direitos humanos e sociais desde o gole de 64, creio ser permitido que se chame atenção para um romance que narra a dor, heroísmo, felicidade e resistência de jovens contra a ditadura. Jovens de antes, hoje com mais de 60 anos, que continuam nos jovens de hoje, nas ocupações de escolas e universidades.

Para este dia maldito, penso que estou perdoado por postar o vídeo a seguir, com esta  cara de madeira que eu não esperava possuir  um dia.

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A mais longa duração da juventude, por Urariano Mota

A mais longa duração da juventude*

por Urariano Mota

A jornalista e escritora Christiane Brito assim abriu o meu texto no jornal português Tornado:

“Urariano Mota é um grande escritor do Recife (Pernambuco). É autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil.

Aqui ele apresenta seu novo livro, belíssimo “A mais longa juventude”, que  está disponível para leitura  gratuita  no Kindle. Fala de política, amor e sexo, num tempo que flui na ilógica da memória da ditadura e no resgate da força de uma juventude eternamente indignada contra a opressão..

Bom, Urariano é um brasileiro de Olinda e Recife, tem outra riqueza cultural, linguajar, fiquei muito feliz quando ele quis colaborar com o Tornado”.

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Sotaque do Recife X Fala no Rádio e Tevê, por Urariano Mota

Sotaque do Recife X Fala no Rádio e Tevê*

por Urariano Mota

Raro as nossas vogais “E” e “O” se pronunciam como se escrevem nas sílabas. Nem, muito menos, como “ê” e “ô”, ave Maria. Aliás, “ave” é bem ilustrativa da variação, ora se pronuncia “ávi”, ora “avé”, como se escuta nos cânticos das igrejas católicas do Nordeste. Assim também na palavra Recife, que ora é Ricife, ora é Ré-cife. Ouça-se, a propósito, Alceu Valença cantando Voltei, Recife, e o Coral de Batutas de São José na música Evocação no. 1, de Nelson Ferreira. O coral em suas vozes eternas canta “Ré-cife adór-mecia, ficava a sonhar...”.

Mais de uma vez pude notar que os apresentadores na mídia possuem uma língua diferente da falada. Mas a coisa se tornou mais séria quando percebi que, mesmo fora do trator absoluto do Jornal Nacional, os apresentadores locais do rádio e tevê falam também outra língua. O que me despertou foi uma reportagem sobre o trânsito na Avenida Beberibe, no bairro de Água Fria, que tão bem conheço. E não sei se foi um despertar ou um escândalo.

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Fidel Castro, presente, por Urariano Mota

Por Urariano Mota

Hoje acordei de madrugada, depois de uma noite insone. Pior dizendo, me levantei da cama depois de acordas e adormeces sucessivos. As pessoas do povo de Água Fria, meu amado bairro do Recife, diriam que essa instabilidade era um  aviso, e com isso queriam dizer, mensagens que nos chegam sem que a consciência tome tento. Então me levantei, abri o computador e recebi o que eu não queria: “Fidel morre aos 90 anos”.  O que é isso? Sabemos, claro, que mais cedo ou mais tarde ia acontecer, até porque é da nossa natureza a mortalidade, até porque Fidel atingira uma idade que não comportava a surpresa da morte, até porque... besteira. Olho, torno a ler, volto para a tela  e só consigo falar: porra! Leia mais »

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Pai mata filho, até quando?, por Urariano Mota

Pai mata filho, até quando? *

por Urariano Mota

As primeiras notícias informaram que “Um engenheiro matou a tiros o filho estudante universitário e cometeu suicídio.  Alexandre José da Silva Neto, o pai,  não aceitava a participação do filho Guilherme Silva Neto  em protestos, como a ocupação da universidade, onde o jovem cursava matemática”. Depois, foi noticiado que Alexandre era possessivo e queria que o filho pensasse como ele.  Então veio um mar de comentários bárbaros que denotam o nível da mente e moral da direita brasileira. Um promotor de São Paulo chegou a sentenciar que o pai matou apenas mais um vagabundo.  Ponto? Não. A discussão ainda nem começou.

Quando o ex-presidente Lula, há seis anos, assinou um projeto de lei de combate às surras domésticas, houve uma tempestade de reação. Vimos então a extrema-direita ou  conservadores de todo gênero, e alguns até podiam ser tomados como representantes do pensamento da educação pela porrada.  Diziam:

 “Não aceito interferência do Estado dentro da minha casa, na condução da educação dos meus filhos. Não vai ter juiz, desembargador ou presidente, que vai me dizer como educar meus filhos. Na minha opinião a lei mais forte é o direito dos pais de educarem seus filhos”.

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O negro que falava inglês, por Urariano Mota

O negro que falava inglês*

por Urariano Mota

Filadelfo era vítima do próprio talento. A sua via-crúcis fora construída pelo inegável gênio de que era possuído. Mas como? Mas como assim, se isso vai de encontro, é uma oposição a tudo quanto nos ensinam sobre o valor da educação e do trabalho? Se as ideias gerais, abstratas em conceito irrefutável, faltam a esta narração, não deve faltar o entendimento do que aumentou a desgraça de Filadelfo. Para um, digamos, simples mestiço, neto de escravos, que fora guia de cego na infância, possível abusado por adultos, para esse gênero de ser, era uma vitória ter atingido o ponto em que o vemos em 1958.

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Por que ocupam escolas e universidades?, por Urariano Mota

por Urariano Mota

Como sempre, a televisão, a grande mídia, fala dos danos causados pelos protestos à sociedade. Essa informação é conhecida: em todo movimento ou greve, mostra-se o quanto a vida ficou ruim depois dos baderneiros e agitadores. Jamais se mencionam as razões que levam à desordem. Minto, mencionam, no cumprimento do papel de “mostrar o outro lado”. Mas pelo tempo exibido, pela ênfase e eloquência, o outro lado é mínimo frente aos estragos causados. Ensinava Brecht:  "Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas as margens que o comprimem".

Por que os estudantes ocupam escolas e universidades? Em busca de respostas, ouço depoimentos como o de uma jovem na UFPE:  

“Estamos aqui em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, bandeira sob a qual já se unificam milhares de institutos, universidades e escolas secundaristas, das redes federal, estadual e municipal, nos tornando um único movimento de ocupação na educação pública nacional. A PEC 241 – agora PEC 55 –  ataca os direitos sociais duramente conquistados, desmonta o já precário estado  de bem-estar social, impondo um regime de congelamento orçamentário da União por 20 anos”.

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Nos 71 anos do eterno Presidente Lula, por Urariano Mota

por Urariano Mota

Nestas mais recentes horas, nesta altura da sua vida, quando se trama a prisão do maior presidente brasileiro, quando a sua grande obra de inclusão social e desenvolvimento do Brasil procura se fazer esquecer, saúdo aqui do meu canto os fecundos dias do eterno presidente do Brasil.

À minha maneira, nesta quase homenagem, pesquiso e o recupero em 4 momentos.

Num primeiro, me vêm as fotos de Lula na imprensa, quando ele padecia de câncer. Ali, com os cabelos e barba raspados por dona Marisa, a primeira coisa que vinha na gente era um choque. A intimidade de Lula com o povo brasileiro era, é de tal sorte,  que vê-lo nesse estágio de luta contra o câncer era o mesmo que rever um amigo caído em um leito de hospital. Depois, quando a gente atentava bem para a sua face, a sorrir, brincalhão, como a nos dizer “eu ainda vou provar um caldinho de feijão com cachaça no Recife, não desesperem”, batia na gente uma simpatia pelo homem provado pela dificuldade desde a infância.

Mais adiante, a foto despertava a reflexão de que a partir dela muitos brasileiros poderiam retirar do câncer o aspecto macabro, definitivo e definidor, como até hoje todos o vemos.  Lula, na foto, estava a nos sorrir e nos puxar para cima, “enfrentem, nada está definido, vamos adiante”. Se tudo fosse em vão, só a sua imagem deveria receber prêmio dos institutos de oncologia, porque deixava em todos a luz da esperança.

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