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Blog de Urariano Mota

A poesia de Ñasaindy Barrett, filha da eterna Soledad, por Urariano Mota

 

A poesia de Ñasaindy Barrett, filha da eterna Soledad

por Urariano Mota

Todo o mundo agora pode conhecer o livro “Do que foi pra ser Agora”, a poesia que a  ditadura brasileira gerou contra a sua vontade. Os cristãos diriam que é uma bênção o lançamento do livro pela Editora Mondrongo, do editor e poeta Gustavo Felicíssimo. Mas eu digo que é poesia e verdade, no sentido de Goethe. E nesse caso, de resistência e vida também. Entendam por quê.  

A poetisa Ñasaindy Barrett de Araújo é a única filha de Soledad Barrett, a guerreira de quatro povos assassinada no Recife em 1973. Ñasaindy nasceu em Cuba, por força da militância política dos pais,. Soledad Barrett Viedma, paraguaia, e José Maria Ferreira de Araújo, brasileiro. Ambos foram assassinados pela repressão no Brasil. Ele em 1970, em São Paulo depois de preso e torturado. Soledad Barrett em 1973, no  Recife, delatada pelo companheiro, o militante infiltrado Cabo Anselmo.

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Para José Dirceu, por Urariano Mota

Imagem Reprodução

Para José Dirceu, por Urariano Mota

Leio na Folha de São Paulo a noticia de que a mãe de José Dirceu foi enterrada em Minas Gerais, Notícia curta, da qual anoto.

“Segundo amigos da família, Dona Olga era poupada do noticiário sobre seu filho desde a explosão do escândalo do Mensalão, em 2005. Sempre assistia a filmes em canal fechado.

Preso em novembro de 2013, o ex-ministro pediu que a mãe não fosse informada sobre a detenção antes do Ano Novo. Para justificar a ausência dele nas festas do fim de ano, a família disse à matriarca que Dirceu estava fora do país.

Dona Olga, que nos últimos anos apresentava falhas de lucidez, também não soube que a casa onde morava fora confiscada, em maio do ano passado, por decisão do juiz Sergio Moro. “

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A prova da falta de provas na condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro, por Urariano Mota

A prova da falta de provas na condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro

por Urariano Mota

Pensei em escrever que revolta a inteligência a última sentença de Sérgio Moro contra o ex-presidente Lula. Acrescentaria que não é possível, hoje, ser um humanista que não se revolte contra o concerto da direita brasileira. Mas acalmo, sereno o discurso e passo a indicar a prova da sentença sem provas do senhor Sérgio Moro. Acompanhem por favor

https://drive.google.com/file/d/0B1trF11ZWhAPRzNIMVRNdzV5SEU/view

A primeira coisa a observar, de passagem, é que a concordância verbal e a civilização brasileira não são o forte do senhor Sérgio Moro. Sem pesquisa ou esforço de correção, notamos erros primários:

“o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva não está sendo julgado por sua opinião política e também não se encontra em avaliação as políticas por ele adotadas durante o período de seu Governo...

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Em Recife ou no Recife? De Recife ou do Recife?, por Urariano Mota

Em Recife ou no Recife? De Recife ou do Recife?

por Urariano Mota

Em recente discussão no Face, vi que não é pacífico o gênero do nome da nossa cidade. Daí que vale a pena retomar um trecho do Dicionário Amoroso do Recife, que publiquei em 2014.

O nome “recife” é sinônimo de “arrecife” nos dicionários. O batismo da cidade veio desses muros aflorados por milênios na costa pernambucana: arrecife ou recife. O nome é masculino desde a origem. No entanto, sei por experiência que devemos sair da visão etimológica, porque ela se esvai nos costumes dos dias presentes. Imaginem o que seria a comunicação se conversássemos usando palavras no significado etimológico. Cairíamos numa comédia do diálogo entre um homem do século XVI com outro do século XXI.

Penso que devemos partir do histórico mais perto do presente. Melhor, devemos vir do histórico que se fez civilização, dos poetas e escritores que falaram e falam da cidade no gênero que ficou, por força da arte e do pensamento. Pois não é próprio e legítimo estabelecer pontes entre o gênero prático e o gênio poético?

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Amado Batista e a tortura voltam, por Urariano Mota

Amado Batista e a tortura voltam

por Urariano Mota

“Eu acho que mereci a tortura. Fiz coisas erradas, os torturadores me corrigiram, assim como uma mãe que corrige um filho. Acho que eu estava errado por estar contra o governo e ter acobertado pessoas que queriam tomar o país à força. Fui torturado, mas mereci”.

A frase acima é do compositor de pérolas Amado Batista. Em 2013, quando comentei essa brutalidade, pude escrever:

A primeira coisa que destaco na frase do cantor Amado é a mentira, sob duas faces. Na que mais aparece, a mentira objetiva, da realidade a que se refere, pois a ninguém deve ser dada a punição da tortura, e no caso de Amado com o agravo do adjetivo “merecida”. Na outra face, mentira subjetiva mesmo, porque o não muito Amado desloca a dor sofrida para a felicidade da ética, aquela em que fazemos o justo, ainda que seja desconfortável.

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A ficção de Michel Temer, por Urariano Mota

A ficção de Michel Temer

por Urariano Mota

Todos vimos uma das mais repetidas notícia desta semana: o presidente Michel Temer discursou contra a denúncia de corrupção passiva apresentada pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot. Penso que se depois de um  longo sono acordássemos de repente em junho de 2017, pensaríamos estar diante de um capítulo de medíocre telenovela do Brasil. Lá na telinha, um ator no papel do Conde Drácula em traje civil discursava:

“Os senhores sabem que eu fui denunciado por corrupção passiva. Note, vou repetir a expressão, corrupção passiva a essa altura da vida, sem jamais ter recebido valores, nunca vi o dinheiro para cometer ilícitos....

Eu digo, meus amigos, minhas amigas, sem medo de errar, que a denúncia é uma ficção.... E eu volto a dizer: a denúncia de que sou corrupto é uma ficção”.

Para se defender com a maior cara de madeira, que não tem outra, o presidente Michel Temer valeu-se de um erro comum em políticos profissionais e até em jornalistas. A saber, que o outro nome da mentira é ficção, porque, num círculo vicioso, toda mentira seria ficção e toda ficção é mentira. Menos, ou melhor, o erro dessa fama é quase absoluto. Para não entrar numa pesada definição de conceitos, lembro de imediato uma opinião definidora sobre o que vem a ser a a grande ficção, que Engels viu na Comédia Humana: 

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12 poetas do Recife no rádio, por Urariano Mota

Por Urariano Mota*

O projeto nasceu para a Rádio Frei Caneca, emissora pública, que em fase experimental toca música. Eu pensava, e penso ainda, que a poesia pode entrar no rádio como se fosse música nos intervalos das canções. Talvez com um anúncio: “a rádio que toca poesia”.  É possível, desde que o poema seja bem lido e organizado em um ambiente receptivo. Afinal, todo ouvinte é uma pessoa, e toda pessoa é capaz e carente de poesia.

Depois de mais de 2 meses sem resposta,  apresentei o roteiro à Rádio Universitária  99.9 FM, no Recife. Então gravei o texto com a técnica, e o jornalista Roberto Souza lançou a poesia no ar, no programa O Redator Comunitário, por mais de duas semanas. A cada manhã subia um ou uma poeta. Vocês bem podem imaginar o que aconteceu. O ouvinte primeiro teve um espanto, depois um acostumado espanto, e mais adiante a espera dos minutos de poesia.  

Como o projeto não visa lucro ou pagamento autoral,  divulgo a seguir o roteiro dos 12 poetas do Recife. Qualquer rádio do Brasil fique à vontade para usá-lo. O importante é que a poesia sobreviva.

A seguir, a poesia pra tocar no rádio.

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Ariano Suassuna, erudito e popular, por Urariano Mota

Por Urariano Mota*

Há três anos, em um 24 de julho, assim falavam as notícias:

“O velório de Ariano Suassuna, realizado no Palácio do Campo das Princesas, no Centro do Recife, foi encerrado na tarde desta quinta-feira (24). Iniciado na noite anterior, ele ficou aberto durante toda a madrugada e recebeu grande número de parentes, amigos e fãs do escritor. 

Em cima do caixão, foram colocadas bandeiras do Sport, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), do estado de Pernambuco e do Brasil. O enterro está previsto para acontecer no Cemitério Morada da Paz, em Paulista, Grande Recife, por volta das 16h”.

Mas as notícias nada falavam do clima real, do povo real, no enterro de Ariano Suassuna. Eu estava na fila, do lado de fora do Palácio do Governo, à espera da ordem para que todos pudessem entrar em ordem até o caixão. Mas a fila não se movia. Nela, apenas se ouviam murmúrios de um povo que se conformou à fila de inúteis esperas, sob o sol ou sob a chuva como um destino. Na longa conformação as pessoas se lamentavam: “disseram que depois da missa a gente podia entrar. Mas já faz mais de hora que a missa acabou”. Eu olhava meu relógio, que parecia também ganhar a imobilidade da fila: 30 minutos, quarenta minutos... Juro que eu temia ouvir a qualquer momento um grito de lá da frente:

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Para o amor maduro, por Urariano Mota

Por Urariano Mota*

Neste Dia dos Namorados, salvo do esquecimento esta crônica para os casais de todas as idades. 

Assim como nas sucessões do tempo de toda a natureza, da flor que fenece e cai e se ergue em outra a partir dos grãos derramados, assim como a onda do mar que se espraia e se desfaz e se refaz dos seus restos em nova onda, assim também o amor se faz um sentimento de marcas e rugas que entranham à vista o sol que se foi e se organiza em nova pele. Tem um sabor íntimo do vinho de que se aprendeu a gostar, uma cumplicidade de lições apreendidas ao toque sem palavras, que o primeiro fogo não poderia construir.

Pois não é próprio do fogo o consumo e o autoconsumo voraz no incêndio, mas lento depois até as brasas que por fim esfriam? Pois sendo próprio do fogo a destruição inexorável, linear e de sentido único, do começo para o fim e sempre, é no entanto mais próprio da pessoa humana o guardar semelhança com os fenômenos naturais, mas sem se deixar reduzir ao que não tem o salto e a qualidade da gente.

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O terror em Londres e o Brasil, por Urariano Mota

O terror em Londres e o Brasil

por Urariano Mota

No mais recente atentado terrorista em Londres, os jornais chamaram a atenção para uma importante autoridade policial, que dirige a segurança para os ingleses. As notícias falavam, sem atentar para o histórico da figura:  

“Cressida Dick, comissária da polícia de Londres, informou ao início da manhã deste domingo que o ataque em Londres fez sete vítimas mortais e feriu 48 pessoas. Os três atacantes foram abatidos e, nesta altura, a polícia acredita que a situação está "sob controlo", mas as áreas afetadas vão continuar interditas e os agentes prosseguirão com as buscas para assegurar que a ameaça foi totalmente neutralizada”.

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O amor antes do ponto, por Urariano Mota

O amor antes do ponto, por Urariano Mota

Há quem pense que a carência de tudo era a causa “determinante”, para usar uma palavra das discussões da época, a causa fundamental para o que amávamos então. Assim como a economia determinava a história, a política, a sociedade, enfim, todo o universo material e espiritual, porque assim nos teria ensinado Marx – e sempre conforme o jargão simplificador das nossas encarniçadas discussões -, assim também a nossa carência de afeto seria a essência do que amávamos. Quando ouvíamos Tenderly com Ella Fitzgerald, ou os agudos do pistom de Louis Armstrong, quando ali nos encantávamos com a música, que nos deixava como almas penadas de carinho a flutuar, isso devia ser consequência do determinante, o coração que era só fome. Escapava de nós, digamos, a dialética do subjetivo e do objeto, para usar uma categoria mais filosófica. Mas não. Penso que o surgimento de Eva estava além dos argumentos da simplificação e do sofisticado. Stars fell on Alabama, penso, cantava na surdina. Desde a primeira noite, quando não foi possível tê-la plena, naquela agonia em pé, encostado à parede de tabique. Amor apressado, veloz, porque lá fora me esperava para ter uma dormida Olavo Carijó. Maldito. Por que sempre haverá um dever na hora da mais sublime felicidade? É como uma punição, um freio ou uma interdição dos poderes ocultos do sagrado evangelho, de Deus, não se poder abandonar ao prazer, ao amor livre e liberado. É como se não pudesse haver um justo e honrado momento em nossas vidas para um Summertime. Numa manhã, acordar cantando e abrir as asas, voar pelo céu, mas até essa manhã não há nada que possa nos ferir, será? Ainda assim, naqueles minutos concedidos pela carência, guardo a sua delicadeza e graça ao tocar a porta do quarto onde eu ainda estava sozinho. Tocou a porta, que cedeu. Não julgava que ela viesse, não acreditava que o convite feito numa voz cheia da coragem dos bêbados, falada entredentes na pia do corredor, “deixo a porta encostada”, numa ousadia que não sei onde fui buscar, mas sei, foi a ousadia da necessidade, eu duvidava que ela aceitasse o convite feito sem as flores da corte cavalheiresca. Gutural, com a falta de educação dos brutos: “deixo a porta encostada”. Apesar disso, ela acedeu, acendeu e ascendeu para mim.

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A beleza na Miss que envelhece, por Urariano Mota

A beleza na Miss que envelhece, por Urariano Mota

A imprensa fala hoje, entre um Trump e Temer, do próximo Concurso Miss Universo 2017.  Há leitores para tudo, em especial para o que distrai das angústias da vida.  E para as candidatas, agora, tudo é agitação e vivas a seus encantadores corpos.  Muito bem, aplausos. Mas o que virá para elas quando chegar o futuro que voa tão rápido nos próximos dias?

Penso numa senhora que certa vez me concedeu uma entrevista. Ela, Vera Lúcia Torres Bezerra, era então uma mulher a quem a educação e a gentileza não deveriam perguntar a idade.

Em uma discreta graça, que a maldade chamaria coquete, de passagem ela contou que foi Miss em 1963 quando possuía apenas 16 anos! Ah. Pela implacável aritmética em 2010, devíamos ter 2010 -1963 = 47. E quarenta e sete mais dezesseis, sessenta e três.  Mas isso era segredo, ela falava com uma graça maior, porque mocinhas menores de idade não poderiam participar do concurso. Então, pelas normas legais, se ela foi Miss aos dezoito, estaria  na ocasião por volta  dos sessenta e cinco anos. Mas a Lei e a cruel Aritmética de nada sabem. Entendam, não é bem que as pessoas, as mulheres em particular, e Vera Lúcia em especial, não sintam nem sofram quarenta e sete mais dezesseis anos. Sentem, percebem, sofrem, se desesperam ou se acomodam a esse inexorável. Não quero ser, nem poderia em razão de natural deficiência, um Catão, um copiador de procedimentos de Plutarco, a invocar ética dura e pesada moral. Mas pessoas como Vera Lúcia penetram em nossa consciência como uma antecipação do que seremos. O que nos salva ou nos salvará quando tudo for perdido?

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A ditadura ainda não é um fantasma, por Urariano Mota

A ditadura ainda não é um fantasma

por Urariano Mota

Na semana passada, com o Exército nas ruas de Brasília para reprimir a “baderna” nos protestos contra Temer, mais de uma pessoa lembrou as imagens do golpe de 1964. Nessa associação entre o que foi e o presente, alguns analistas falaram em fantasmas da ditadura que voltavam às ruas.  Mas penso que não é fantasma um regime ainda insepulto, apesar do novo tempo da democracia que vivemos. Quero dizer, não pode estar morto esse tempo que não foi assimilado como tragédia. Os crimes contra os direitos humanos dessa época ainda estão impunes. E mais grave, o drama humano dos assassinados e guerreiros não é sequer conhecido pelos mais jovens.  

Nos limites deste espaço, divulgo um trecho do meu próximo romance “A mais longa duração da juventude” nas linhas a seguir.

Por que Soledad Barrett caiu no vulgaríssimo laço do Cabo Anselmo? Eu não posso, ninguém pode escrever um teorema das relações humanas. Para os sentimentos não há um conjunto de frases lógicas, num crescendo que se revela ao fim um desastre. Numa tragédia, CQD, Como Queríamos Demonstrar. Não sou mecânico ou cruel, porque falo à luz da viva experiência. Nos anos da ditadura, os militantes mais ardorosos queriam imprimir no coração o imediato de suas convicções partidárias. Às vezes nem era preciso gravar a impressão do panfleto, porque já estava inscrito. Quero dizer, havia mistura de sentimentos, vários, dos mais piedosos da formação cristã a palavras de ordem....

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Temer, o presidente-fantasma, por Urariano Mota

Temer, o presidente-fantasma, por Urariano Mota

Entre os significados da palavra fantasma, podemos ver no Dicionário Aulete:

“Suposta aparição de pessoa que já morreu; alma penada; ASSOMBRAÇÃO; ESPECTRO”. Ou então, a seguir: “Imagem sobrenatural que alguém julga ver”. E mais adiante: “Pessoa que apenas aparenta ou representa um papel que deveria ter”

E mais nos ajuda o bom dicionário:

“Seguindo um substantivo, ao qual se liga por hífen, tem valor de adjetivo e significa 'não existente, fictício, criado para iludir, especialmente com fins fraudulentos’ ”.

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Lula e o caso do Tríplex, por Urariano Mota

Arte: Greg/DP

Lula e o caso do Tríplex

por Urariano Mota

No depoimento do ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro, o destaque do interrogatório foi o famoso tríplex do Guarujá. Esse  maravilhoso e paradisíaco superapartamento, luxuoso e digno de um dos maiores líderes políticos do planeta, encheu mais os nossos olhos e ouvidos que o profundo riacho do Ipiranga cantado no Hino Nacional.  

A esta altura, acredito que o tríplex se tornou mais que um caso judicial e político. Pelas perguntas que iam e voltavam, pela riqueza de abordagens, pelos diferentes ângulos levantados por Moro, pelo vulto do vilão, personagens e  crime, o apartamento se fez também o caso do tríplex 174 da literatura policial. Não custa nada lembrar as principais características do gênero.  

Desde Edgar Allan Poe, com Os Assassinatos da Rua Morgue, a literatura policial se caracteriza pelos elementos básicos de crime, investigação e descoberta do criminoso. Mas, sabemos: do começo ao fim o desenlace deve ter uma razão lógica e possível.  O narrador, ou a voz que conduz, não pode cometer erros técnicos ao falar do método do crime e da investigação. Os personagens e o ambiente devem ser reais. Percebem? O que haveria de mais concreto que o fabuloso tríplex na praia do Guarujá no tempo da delicadeza da propina?

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Para o dia das mães, por Urariano Mota

Para o dia das mães, por Urariano Mota

Neste domingo, penso que é de justiça um trecho do romance “O filho renegado de Deus”, que publiquei na Bertrand Brasil em 2013. Estas são as linhas: 

“Maria, perdoa por agora eu não te chamar de mãe. Assim não te chamo já porque não quero me curvar à degeneração do sentimento, ainda que eu saiba ser filho do sentimento. Por enquanto és Maria, mais mulher, santa que todo casto e pervertido cristão ama. Perdoa-me, por ora. Assim te chamar Maria é um tributo a todas as mulheres como tu, mulheres que deveriam ser abraçadas todas, em lugar de destruídas, como as marias, mariazinhas sem nada, a não ser o sexo e o nome comum. Já vês, com o mesmo discernimento fino dos teus últimos dias, em que vias e mergulhavas num silêncio sozinha, porque não querias magoar a quem amavas, já vês a contradição e o paradoxo do que tenho em ti e como eu te guardo em mim. Pois como posso te remeter àquela que para todo cristão está no céu e ao mesmo tempo te repor na terra, no destino costumeiro de toda desgraçada? Não haveria nisso um descaminho, um desvirtuamento, por querer dar a graça divina a teus vestidos podres e sujos de doméstica? Ou seria, de modo mais próprio, a subversão da subversão, porque traz de volta à terra o que fora deslocado para o céu? Aqui não nego na terra a majestade das tuas vestes que fediam, como depois o disseram. Prefiro este caminho, o de ver o céu, a humanidade magnífica no que tens de despojada, nua, no teu doce leite de índia. Sim, Maria, agora sei e repito e te repito e me reforço em todas as minhas carnes, que sou filho do teu doce leite de índia. Digo isso e assim e desta maneira paro, porque preciso respirar, inspirar, preciso de ar como naquele instante em que me salvaste do soco de Dirico no fígado. E tão primário, elementar e fundamental é o leite que bebi em teus seios, e dele venho bebendo pelo resto da vida, o que talvez não adivinhavas, porque eu próprio até então não sabia desse elementar elemento. Pois sou filho do teu leite, quase diria, sou filho do teu enorme afeto, como outros são filhos do leite de Marias brancas, negras, amarelas, ruivas, pardas, marias. Das Marias desgraçadas, de modo mais preciso. Da precisa Maria Desgraçada que um dia foste.

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Severina doce, fraterna e companheira, por Urariano Mota

Severina doce, fraterna e companheira

por Urariano Mota

Para o 13 de maio, copio um trecho do meu romance “A mais longa duração da juventude” https://www.amazon.com/longa-dura%C3%A7%C3%A3o-juventude-Portuguese-ebook/dp/B01N48T0JU :  

Nunca será demais ou excessivo o tributo que devemos à generosidade da mulher anônima. Em mais de uma oportunidade, o seu coração nos fez abrigo quando tudo era terror de Estado. Penso na cozinheira da pensão, dona Severina, uma senhora negra, analfabeta, que lia como ninguém as necessidades dos fodidos. Mais e melhor que a Irene de Manuel Bandeira, “Irene boa, Irene preta, Irene sempre de bom humor”, maior foi Severina, porque a sua bondade era ativa, não era aquela da criada perfeita, sempre a serviço dos patrões, que por isso entrará no céu, apesar de negra. Não, sob risco, na conspiração sem palavras e sem bandeira, muda, quanto devemos a ela? Severina lia em nossos olhos a angústia, e um sorriso se insinuava em seu rosto, quando nos olhava com olhos graúdos como se nos dissesse: “Eu te compreendo, futuro. Se para a humanidade houver algum, eu te compreendo, futuro camarada”. Esta lembrança vem na escrita. A gente tem que escrever para não ser um filho da puta, ou um ingrato, pior que os gatos domésticos. Por quê? Eu pagava somente a minha vaga e alimentação. Almoçava lá embaixo, mas lá em cima, Luiz do Carmo estava trancado sem comer. Então eu comia até a metade do meu prato. E ao me levantar da mesa com os meus 50% deixados, eu falava para me justificar do modo exótico de comer:

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Teremos festa no 8 de maio francês?, por Guilherme Cavalheiro

Sugestão de Urariano Mota

Amigos, divulgo a seguir a reflexão crítica de Guilherme Cavalheiro, cientista político que hoje vive e trabalha na França. Ele está no olho do furacão e vê por nós o que a tevê nos esconde.

Teremos festa no 8 de maio francês? *

Guilherme Cavalheiro

A França comemora nessa segunda-feira mais uma vitória contra fascistas, racistas, antissemitas e conservadores de todos os matizes. Falo do feriado nacional de 8 de maio, comemoração da vitória contra os nazistas em 1945. Mas poderia estar falando também da provável vitória contra o Front National, partido fundado por fascistas, racistas, antissemitas e conservadores de todos matizes. Infelizmente, se em 2002 Jacques Chirac esmagava a besta imunda com 82% dos votos, a bestinha Le Pen ganhará no mínimo o apoio de 40% dos eleitores no domingo, 7 de maio, mais que dobrando o resultado de seu pai. Do que escapamos com a vitória de Emmanuel Macron ?

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Como receber os gringos que invadirão o Brasil, por Urariano Mota

Como receber os gringos que invadirão o Brasil

por Urariano Mota

A BBC Brasil anunciou ontem http://www.bbc.com/portuguese/brasil-39802863 :

“Tropas americanas foram convidadas pelo Exército brasileiro a participar de um exercício militar na tríplice fronteira amazônica entre Brasil, Peru e Colômbia em novembro deste ano.

Segundo o Exército, a Operação América Unida terá dez dias de simulações militares comandadas a partir de base multinacional formada por tropas dos três países da fronteira e dos Estados Unidos.

Descrita pelas Forças Armadas como uma experiência inédita no Brasil, a base internacional temporária abrigará itens de logística como munição, aparato de disparos e transporte e equipamentos de comunicação, além das tropas. O Exército afirma que também convidou ‘observadores militares de outras nações amigas e diversas agências e órgãos governamentais’".

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Primeiro de maio, por Urariano Mota

Em um primeiro de maio de 2015, escrevi que em Curitiba os professores estavam desprezados, cercados e reprimidos. Ali, a pedagogia estava vencida por bombas, espancamentos e balas de borracha, que deixavam um soldo para os mestres de 213 feridos. Mas não imaginava o inferno que viria com o primeiro de maio de hoje em todo o Brasil.

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Eu também já fui ladrão, por Urariano Mota

Eu também já fui ladrão, por Urariano Mota

Eu também já fui ladrão, confesso.

Eu e um amigo, a quem chamarei de Hermann, trabalhávamos em um banco privado. Começávamos o expediente às 7 da manhã, quando não mais cedo, e terminávamos por volta das 20 horas. Melhor dizendo: fazíamos um breve intervalo para o outro dia. Isso, é claro, quando não demonstrávamos maiores provas de amor ao ofício estendendo a jornada até as 22 horas. Ainda assim, não chegávamos a ganhar o pão com o suor do próprio rosto, porque: a) o que ganhávamos não dava para o pão acompanhado de qualquer proteína; b) não suávamos, porque o trabalho era sob o frescor do ar-condicionado. Mas alguma coisa ganhávamos, como veremos.

Nada direi sobre Hermann, um descendente de empresário sueco, um descendente bastardo já se vê, um sujeito deserdado, que estendia olhos mui nobres para o que os seus dedos finos não alcançavam. A saber, tudo: cervejas, cigarros, e, luxo dos luxos, almoço, janta e ceia. Nada direi. Importa saber que em uma fatídica noite Hermann estendeu sua cobiça para uma direção. Acompanhei-o, não bem por solidariedade, mas por experiência. Os seus olhos sempre se dirigiam para o que eu também ambicionava.  E vejo e vi então o grupo dos quatro gerentes que entrava em nossa última sala, próxima à cozinha (mirem como o diabo nos queria). Ali se encontrava o refrigerador, que de ordinário abrigava somente água, nada mais que água.  De sede, portanto, não morreríamos.

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Chico Buarque e a revolução portuguesa, por Urariano Mota

Chico Buarque e a revolução portuguesa

por Urariano Mota

Há pouco, me chegou a notícia de que, para muitos portugueses, Chico Buarque fala da revolução dos cravos na música Fado Tropical. No Brasil, no entanto, pensávamos até então que Chico Buarque compusera a bela homenagem ao abril em Portugal com a canção Tanto Mar. Mas o mais sensato a esta altura será dizer: a história continua, por mais que pensemos ter fechado seus significados.

Em dados factuais, a música de Chico Buarque para a revolução portuguesa foi Tanto Mar. Pesquiso e copio da internet: “A célebre canção ‘Tanto Mar’, da autoria de Chico Buarque de Hollanda, tem duas versões. A primeira foi lançada no dia 26 de agosto de 1975 e reflete a expetativa e a alegria em relação à situação portuguesa por parte do compositor brasileiro. Em 1978, Chico Buarque alterou alguns versos de acordo com a sua visão face aos posteriores desenvolvimentos em Portugal”.

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Lula e a destruição de provas contra o PT, por Urariano Mota

Por Urariano Mota

Em abril de 2006, em artigo sob o título “A imprensa e Lula em 2106”, eu chamava a atenção para a dificuldade do historiador em conhecer o Brasil 100 anos depois:

“Então o nosso historiador do futuro faz uma impressionante descoberta. Em 2006, na imprensa brasileira todos os fatos, todas as coisas, todos os acontecimentos, fossem do mar, da terra, do ar, do pensamento, dos répteis, das temíveis cobras corais, dos peixes até o mico-leão-dourado, todos os reinos e possíveis ocorrências se relacionavam, sempre, com o governo Lula. Para mal, of course... Até chegar a este extremo:

Nada se compara ao incidente de uma peçonheta cobra-coral que atravessou o caminho do presidente em 2003, o historiador viu em um jornal documento. Acontecera em Buíque, Pernambuco. Um agricultor, para defender o seu presidente, matou a cobra a pau. Pergunta de matéria do Estado de São Paulo:
‘Morte de cobra em Buíque foi crime ambiental?’...

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Gagárin e o Recife, por Urariano Mota

Gagárin e o Recife, por Urariano Mota

No dia 12 de Abril de 1961, o soviético Yuri Gagárin se tornou o primeiro homem a viajar no espaço. Distante da Guerra Fria, que hoje volta com o Pig Trump, o Museu do Ar e Espaço dos Estados Unidos relembrou na semana passada o herói russo: “Hoje em 1961: Yuri Gagárin se tornou o primeiro humano a voar pelo espaço ao dar uma volta ao redor da Terra”. Mas quase ninguém sabe que Yuri Gagárin passou em Pernambuco. Como explico a seguir, no trecho que copio do Dicionário Amoroso do Recife:

Quando pesquisamos, em todos os lugares nos informam que Yuri Gagárin foi o primeiro homem a completar uma volta em torno da Terra. Dizem até que a pequena estatura de Gagárin contribuiu para o seu grande feito, uma vez que ele circulou em uma nave apertada. Mas a gente consulta, pesquisa nos mais diversos arquivos, e ninguém fala que o astronauta Yuri Gagárin passou uma vez no Recife.

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O homem Lula nesta sexta-feira santa, por Urariano Mota

O homem Lula nesta sexta-feira santa, por Urariano Mota

Vocês perdoem a tentativa desta homilia em plena sexta-feira santa. Perdoado, devo dizer:

 “Pilatos mandou então flagelar Jesus. Os soldados teceram de espinhos uma coroa, puseram-na sobre a sua cabeça e o cobriram com um manto de púrpura. Aproximavam-se dele e diziam: Salve, rei dos judeus! E davam-lhe bofetadas. Pilatos saiu outra vez e disse-lhes: Eis que vo-lo trago fora, para que saibais que não acho nele nenhum motivo de acusação. Apareceu então Jesus, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse: Ecce homo! Eis o homem!” (Jo 19,1-5).

Eis o homem! Quando Lula se despedia da Presidência, esteve no Recife.  No discurso desse dia, ele falou:

“Então resolvi fazer as caravanas da cidadania. E comecei fazendo a primeira caravana percorrendo o trajeto que a minha mãe percorreu com oito filhos, saindo de Caetés até a cidade de Santos, em São Paulo. Parando em cada cidade, conversando com as pessoas. Depois eu percorri 91 mil km de carro, de trem, de ônibus, de barco. Para conhecer a cara, o jeito, o contar da piada, da graça, o cantar do povo pernambucano, o sofrimento do povo brasileiro. E isso me deu uma dimensão do Brasil que eu queria governar”.

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Literatura para os imprescindíveis, por Urariano Mota

Literatura para os imprescindíveis, por Urariano Mota

Uma reportagem no Diário de Pernambuco, sob o título de “Projeto aproxima alunos da literatura pernambucana”, me acordou para uma experiência vivida em escola pública, na  Escola Caio Pereira, no Alto José Bonifácio, no Recife.  

No texto do Diário de Pernambuco, lemos:

“O Projeto Outras Palavras já visitou 223 escolas estaduais, levando autores para conversas e doando livros

Para aproximar estudantes do ensino médio da produção literária local, foi criado o projeto Outras Palavras. Ontem, a ação levou o contista Luiz Coutinho, autor de Nós, os bichos, à Escola de Referência em Ensino Médio Diario de Pernambuco, no Engenho do Meio. Capitaneado pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), o programa é fruto da inquietação da vice-presidente do órgão, Antonieta Trindade, após 32 anos de trabalho em escolas estaduais.

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O poeta Alberto da Cunha Melo no seu aniversário, por Urariano Mota

O poeta Alberto da Cunha Melo no seu aniversário, por Urariano Mota

Cláudia Cordeiro, a  incansável divulgadora da obra e pessoa do  poeta, convida todos pelo Face:  “No próximo 8 de abril a partir das 15 horas, no Parque 13 de Maio, Recife, vamos homenagear o poeta Alberto da Cunha Melo, que completaria 75 anos nessa data”.  É claro, os que amamos a melhor poesia no Brasil, os que integramos na alma os poemas bem realizados contra a opressão política e social, não poderemos faltar ao encontro.  

Então aproveito o espaço para publicar um breve texto sobre o amigo e poeta. De imediato, retiro do limbo algumas linhas da apresentação que fiz para o seu livro inédito, Salmos de Olinda. Escrevi e estava guardado até aqui:

Alberto da Cunha Melo, mais uma vez, caminha sobre as águas. Essa frase  quer dizer: o poeta escreve magnífica poesia sobre um caminho tão difícil, que o resultado parece milagre. O leitor não se engane pela evocação da palavra Salmos, que remete a oração ou a cântico sagrado do rei Davi. Nem pense tampouco que, sendo poemas de Olinda, venham salmos da carne transgressora da libação dos dias do rei Momo. Não, nem tanto ao céu, nem tanto à terra.   

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O livro de Ñasaindy Barrett de Araújo, a filha de Soledad Barrett, por Urariano Mota

O livro de Ñasaindy Barrett de Araújo, a filha de Soledad Barrett

por Urariano Mota

Quando maio chegar, o Brasil vai conhecer a poesia da filha de Soledad Barrett, a guerrilheira assassinada no Recife sob a ditadura Médici. Lançado pela Editora Mondrongo, o livro de Ñasaindy Barrett de Araújo tem um nome que sugere a difícil luta da dignidade todos os dias: “Do que foi pra ser Agora”. Para ele, pude escrever a apresentação que divulgo a seguir. 

Poesia e Vida

Chamo a atenção do leitor para o caráter estético e político do livro “Do que foi pra ser Agora”.   

Primeiro, porque é impossível não falar que sua autora Ñasaindy Barrett de Araújo é a única filha de Soledad Barrett. Filha amada pela guerreira de quatro povos, como a chamava o grande poeta Mario Benedetti. E acrescento:  o caráter literário e político do livro se dá não só pelas condições de vida e morte da guerreira paraguaia, assassinada pela ditadura no Recife. Mas pela própria vida de sua filha poetisa.

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Graciliano Ramos atualizado, por Urariano Mota

Graciliano Ramos atualizado, por Urariano Mota

No mais recente 20 de março, a lembrança do dia da morte de Graciliano Ramos deu margem à repetição de erros sobre o escritor na imprensa. Isso, claro, nos espaços mais cultos da mídia, porque no geral o escritor não foi sequer lembrado. Então vieram aquelas clássicas visões do genial mestre em que se destacam a secura do seu estilo, o enxuto,  só ossos, porque a sua obra devia ser reflexo imediato de Vidas Secas. E desse livro, que tomam como romance, logo o autor se torna um Fabiano a caminhar em paisagem árida, espinhosa de mandacaru.

No mesmo dia 20, quando se noticiou o lançamento do livro “Um escritor na capela”, que faz uma homenagem ao escritor comunista que sofreu prisão no Estado Novo, partiu-se para a menção, de passagem e rápida, de Memórias do Cárcere. Ora, todas as vezes em que se fala sobre literatura na mídia, e sobre Graciliano Ramos em particular, eu me torno mais que cinco sentidos de atenção.  E me digo: “alerta, aí vêm topadas e tapados”. E mais uma vez não me frustraram. Com efeito, num salto acrobático foram de Vidas Secas a Memórias do Cárcere. E como se nada dissessem, falaram que a obra máxima das memórias políticas no Brasil, foram publicadas na primeira edição “em dois volumes”. Uma luz vermelha se acendeu em mim, “aí tem – o que é isso?”. Então da sala onde eu estava me vieram à lembrança os volumes da primeiríssima edição da José Olympio, que comprei num golpe de sorte no sebo, desprezados como papel velho. Fui então até a estante e alisei feliz os livros de capa amarela. Ali estavam “os dois”  isto é, o Graciliano real e o da mídia.

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Albert Einstein, a relatividade e o Brasil, por Urariano Mota

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Por Urariano Mota

Num 21 de março de 1925, Albert Einstein passou pelo Rio de Janeiro. Depois, voltou em 4 de maio  Mas quase ninguém fala do desastre cômico da passagem do cientista pela boa sociedade do Brasil. Muitos personagens daquela elite continuam vivos, com uma atualidade arqueológica.

Na chegada de Einstein ao porto do Rio de Janeiro só não lhe tocaram Cidade Maravilhosa porque a banda não podia tocar o que ainda não existia. Mas as fotos mostram o cientista em um mar de curiosos, que lhe acenavam e sorriam como se ele fosse um astro de cinema. Se tivesse tempo para refletir, certamente ele diria o que certa vez comentou Borges, ao ser cumprimentado por muitas pessoas nas ruas de Buenos Aires: “eles acenam para um homem que pensam que sou eu”.

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