As negociações diretas entre Estados Unidos e Irã, previstas para ocorrer nesta sexta-feira (19) na Suíça, foram adiadas por tempo indeterminado. O encontro em Burgenstock abriria a fase técnica para a implementação do acordo de paz assinado na última quarta-feira (17) pelos presidentes Donald Trump e Masoud Pezeshkian. O Ministério das Relações Exteriores suíço confirmou a suspensão das conversas, que também envolveriam representantes do Catar e do Paquistão, sem detalhar os motivos ou apontar uma nova data.
O recuo diplomático ganhou força após a Casa Branca anunciar o cancelamento da viagem do vice-presidente americano, JD Vance, que era esperado no país europeu. Em comunicado oficial, o governo dos EUA minimizou o impasse e atribuiu a decisão a entraves operacionais, sinalizando a intenção de retomar os contatos em breve.
“Como o vice-presidente disse em sua coletiva de imprensa, os planos para as próximas conversas técnicas não foram finalizados e a delegação dos EUA estava preparada para partir na primeira oportunidade disponível. Mas a logística dessas negociações nunca foi simples ou previsível“, afirmou um porta-voz da Casa Branca.
“Até o momento, o vice-presidente não partirá esta noite. Informaremos assim que tivermos uma atualização concreta sobre o próximo passo. Aguardamos ansiosamente o início das conversas técnicas o mais breve possível“, acrescentou.
Pressão sobre Israel e o impasse libanês
Embora a justificativa formal de Washington mencione problemas logísticos, os bastidores apontam que o recrudescimento das hostilidades no Oriente Médio inviabilizou a rodada de conversas. Na véspera do cancelamento, Vance havia adotado um tom de cobrança incomum em relação a Tel Aviv, indicando que Trump seria “o único chefe de Estado em todo o mundo que demonstra simpatia pelo país neste momento“.
“Minha resposta seria: qual é exatamente a proposta de vocês? Vocês são um país de 9 milhões de habitantes. Não podem simplesmente matar todos os seus problemas de segurança nacional“, declarou o vice-presidente americano.
O nó górdio da diplomacia reside no Líbano. Enquanto o memorando de entendimento prevê o encerramento da guerra em todas as frentes, incluindo a retirada de tropas israelenses do território libanês, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou publicamente que o Exército do país permanecerá posicionado no sul do vizinho “enquanto as necessidades de segurança exigirem“. Israel não é signatário do tratado assinado entre Washington e Teerã.
Na madrugada desta sexta-feira, uma nova onda de violência estremeceu a região. Bombardeios das forças israelenses contra alvos do Hezbollah no sul do Líbano deixaram pelo menos 18 mortos e mais de 30 feridos, segundo o balanço oficial do Ministério da Saúde libanês. Do outro lado da fronteira, Israel confirmou a morte de quatro de seus soldados em combates recentes.
‘Dedos no gatilho’ em Teerã
A insistência de Israel em manter a campanha militar provocou forte reação na cúpula política e militar iraniana. Teerã condiciona o avanço das tratativas à cessação das operações israelenses no Líbano e à preservação de suas soberanias.
O presidente do Parlamento e principal negociador do país, Mohammad Bagher Ghalibaf, adotou uma retórica dura ao comentar o processo nesta sexta-feira. “Como demonstramos ao longo das negociações anteriores, somos firmes no cumprimento das condições e das linhas vermelhas estabelecidas”, declarou, em entrevista transmitida pela agência estatal Irna.
Ghalibaf completou com uma advertência: “Se o inimigo busca ser excessivo, nós demonstramos que nossos dedos estão no gatilho e não hesitamos em dar uma resposta esmagadora ao inimigo”.
O Líder Supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, deu o aval para o andamento do acordo de 60 dias para a resolução das pendências, prazo que pode ser estendido por igual período caso não haja consenso. No entanto, o aiatolá frisou que o diálogo não implica concessões ideológicas.
“A partir deste momento, nós — ou seja, vocês, a orgulhosa nação, e este humilde servidor — aguardaremos o cumprimento das condições estabelecidas. No entanto, é evidente que as negociações presençais que serão realizadas no futuro não significarão, de forma alguma, a aceitação das posições do inimigo”, disse Khamenei em pronunciamento na televisão estatal.
Além do cessar-fogo regional, o comitê técnico terá de solucionar pontos de extrema sensibilidade, como o destino do estoque de urânio enriquecido do programa nuclear iraniano, a suspensão gradual das sanções econômicas impostas a Teerã e a normalização do tráfego comercial no Estreito de Hormuz.
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