Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (9)
Artigo 9 – Quem financia as pequenas empresas? A arquitetura institucional do crédito nos Estados Unidos e no Brasil
por Maurício Martinelli Luperi
⸻
Introdução
Nos artigos anteriores desta série analisamos diversos instrumentos de financiamento empresarial que complementam o crédito bancário tradicional.
Mostramos como grandes empresas acessam o mercado por meio de Corporate Bonds, debêntures e Commercial Papers. Em seguida, examinamos como pequenas e médias empresas podem ampliar seu acesso ao crédito utilizando mecanismos como a securitização de recebíveis, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e programas de garantias públicas.
Esses instrumentos, entretanto, não operam sozinhos.
Sempre existe uma instituição responsável por originar operações, analisar projetos, acompanhar empresas e administrar riscos.
Em outras palavras, por trás de cada empréstimo existe uma organização que conecta poupadores e investidores às empresas que necessitam de financiamento.
A pergunta central deste artigo, portanto, não é quais instrumentos existem, mas quem efetivamente financia as pequenas empresas.
Responder essa questão ajuda a compreender uma diferença importante entre Brasil e Estados Unidos.
Enquanto o sistema brasileiro permanece fortemente concentrado em poucos bancos de grande porte, o sistema norte-americano combina diferentes tipos de instituições financeiras, cada uma especializada em segmentos específicos da economia.
Essa diversidade amplia a concorrência, reduz a concentração da intermediação financeira e cria múltiplas portas de entrada para empresas de diferentes tamanhos.
⸻
O problema da informação
O crédito para pequenas empresas apresenta uma característica que o diferencia do financiamento das grandes corporações.
Uma grande companhia aberta divulga balanços auditados, possui classificação de risco, histórico de mercado e ampla cobertura por analistas.
Uma pequena empresa frequentemente depende de informações qualitativas.
Quem conhece melhor seus clientes?
Quem acompanha seu fluxo de caixa?
Quem sabe se a administração é competente?
Quem conhece a economia local?
Essas informações dificilmente aparecem apenas em modelos estatísticos.
Por isso, a literatura econômica desenvolveu o conceito de relationship lending, segundo o qual parte importante do crédito às pequenas empresas depende do relacionamento contínuo entre credor e empresa.
⸻
Community Banks
Nos Estados Unidos existem milhares de bancos comunitários.
São instituições relativamente pequenas, com forte atuação regional e conhecimento aprofundado das economias locais.
Seu modelo de negócios não consiste em competir diretamente com grandes bancos de investimento.
Seu foco é financiar pequenas empresas, agricultores, comerciantes, profissionais liberais e famílias.
Como acompanham seus clientes durante muitos anos, conseguem produzir informações que dificilmente seriam captadas por modelos automatizados.
Isso reduz assimetrias de informação e amplia a oferta de crédito para empresas que, de outra forma, poderiam ser consideradas excessivamente arriscadas.
⸻
Regional Banks
Entre os grandes bancos nacionais e os pequenos bancos comunitários existe um amplo conjunto de bancos regionais.
Essas instituições operam em alguns estados ou regiões específicas.
Possuem maior escala que os community banks, mas continuam relativamente próximas das economias locais.
Frequentemente financiam empresas de porte médio, cadeias produtivas regionais, agronegócio, indústria e comércio.
Essa diversidade institucional reduz a dependência de poucos grandes conglomerados financeiros.
⸻
Credit Unions
Outro componente importante são as cooperativas de crédito.
Nos Estados Unidos elas possuem milhões de associados.
Como pertencem aos próprios cooperados, frequentemente apresentam forte atuação regional.
Embora muitas sejam voltadas ao crédito para famílias, diversas cooperativas também atendem pequenas empresas.
Sua presença amplia ainda mais a concorrência financeira.
⸻
Community Development Financial Institutions (CDFIs)
Os Estados Unidos desenvolveram ainda um conjunto de instituições voltadas ao financiamento de regiões menos atendidas pelo sistema financeiro tradicional.
As Community Development Financial Institutions (CDFIs) combinam recursos privados, públicos e filantrópicos para financiar pequenas empresas, projetos comunitários, habitação e desenvolvimento regional.
Seu objetivo não é substituir os bancos comerciais.
É atender segmentos que normalmente enfrentariam maiores dificuldades de acesso ao crédito.
⸻
Fintechs e novos credores
Nos últimos anos surgiram novas plataformas digitais especializadas em pequenas empresas.
Algumas utilizam inteligência artificial para analisar fluxo de caixa, vendas eletrônicas, histórico tributário e movimentação financeira.
Outras originam operações posteriormente financiadas por fundos de crédito privado ou investidores institucionais.
Essas empresas não eliminam os bancos.
Passam a integrar um ecossistema mais amplo de originação de crédito.
⸻
Como funciona no Brasil?
O Brasil possui um sistema significativamente mais concentrado.
Poucos bancos respondem por parcela expressiva do crédito.
Nos últimos anos houve crescimento importante das cooperativas de crédito, das fintechs e das Sociedades de Crédito Direto (SCDs).
Também existem bancos públicos relevantes, especialmente BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Apesar desses avanços, a estrutura permanece menos diversificada que a norte-americana.
Em diversas regiões do país, pequenas empresas continuam dependendo de um número reduzido de instituições financeiras.
⸻
Por que essa diversidade importa?
Quanto maior o número de instituições capazes de originar crédito, maior tende a ser a concorrência.
Instituições diferentes desenvolvem especializações diferentes.
Algumas conhecem melhor o agronegócio.
Outras dominam tecnologia.
Outras financiam comércio local.
Outras trabalham com inovação.
Essa especialização reduz custos de informação.
Reduz assimetria.
Permite avaliação de risco mais precisa.
Consequentemente, aumenta a oferta potencial de crédito.
⸻
Diversidade institucional também reduz spreads
Grande parte do debate brasileiro concentra-se na Selic.
Naturalmente, a taxa básica influencia o custo do crédito.
Mas ela não explica sozinha a diferença entre sistemas financeiros.
Quando apenas poucas instituições concentram a maior parte da intermediação financeira, a competição tende a ser menor.
Mercados com maior diversidade institucional criam pressão competitiva adicional.
Isso contribui para reduzir spreads, ampliar prazos e diversificar produtos financeiros.
Não existe um único fator responsável.
Existe uma arquitetura institucional mais ampla.
⸻
O papel do Estado
O Estado não precisa substituir o mercado.
Pode fortalecer sua capacidade de funcionamento.
Nos Estados Unidos isso ocorre por meio da SBA, da supervisão bancária, das CDFIs, do mercado secundário de empréstimos garantidos e de programas voltados às pequenas empresas.
No Brasil existem experiências importantes.
Mas ainda há espaço para ampliar a integração entre bancos públicos, cooperativas, fintechs, fundos garantidores e mercado de capitais.
⸻
Considerações finais
Ao longo desta série vimos que sistemas financeiros mais desenvolvidos não dependem de um único instrumento nem de uma única instituição.
Corporate Bonds, Commercial Papers, securitização, FIDCs e garantias públicas representam apenas parte de um ecossistema muito mais amplo.
Este artigo acrescenta uma nova dimensão à análise.
O crédito não depende apenas dos ativos financeiros disponíveis.
Depende também das organizações responsáveis por originar operações, produzir informações, acompanhar empresas e administrar riscos.
A experiência norte-americana mostra que a convivência entre grandes bancos, bancos comunitários, bancos regionais, cooperativas, CDFIs, fintechs e investidores institucionais amplia as possibilidades de financiamento das pequenas e médias empresas.
No Brasil, embora cooperativas de crédito, fintechs e bancos públicos tenham ampliado sua participação nos últimos anos, a estrutura permanece mais concentrada.
O fortalecimento de uma arquitetura institucional mais diversificada pode contribuir para ampliar a concorrência, reduzir assimetrias de informação e criar novas alternativas de financiamento para empresas de diferentes portes.
Essa conclusão prepara o próximo passo da série.
Até aqui analisamos predominantemente instrumentos de dívida.
No próximo artigo passaremos a examinar uma forma completamente distinta de financiamento: o capital próprio.
Veremos como Private Equity, Venture Capital e o mercado de ações financiam inovação, crescimento empresarial e transformação produtiva, permitindo que empresas obtenham recursos sem aumentar seu endividamento.
⸻
Leitura recomendada
- BERGER, Allen N.; UDELL, Gregory F. Relationship Lending and Lines of Credit in Small Firm Finance. Journal of Business, University of Chicago Press, 1995.
- BERGER, Allen N.; UDELL, Gregory F. “A More Complete Conceptual Framework for SME Finance”. Journal of Banking & Finance. Elsevier, 2006.
- DEGRYSE, Hans; ONGENA, Steven. The Impact of Competition on Bank Relationships. Oxford University Press, 2008.
- PETERSEN, Mitchell A.; RAJAN, Raghuram G. “The Benefits of Lending Relationships”. Journal of Finance. Wiley, 1994.
- Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC). Community Banking Study. Washington, D.C., 2020.
- National Credit Union Administration (NCUA). Annual Report. Washington, D.C., diversas edições.
- U.S. Department of the Treasury. CDFI Fund Annual Report. Washington, D.C., diversas edições.
- Banco Central do Brasil. Relatório de Economia Bancária. Brasília, diversas edições.
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (1), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (2), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (3), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (4), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (5), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (6), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (7), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (8), por Maurício Luperi
Deixe um comentário