20 de junho de 2026

A degradação planejada do Estado e da economia, por J. Carlos de Assis

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A degradação planejada do Estado e da economia

por J. Carlos de Assis

A mesma inteligência por trás do desconhecimento das relações econômicas reais entre setor público e setor privado oferece à sociedade brasileira o espetáculo de uma ação programada para 20 anos de degradação do Estado e da economia. O plano Meireles-Temer não é nada menos que isso. Fruto da imbecilidade de um grupo de economistas e “cientistas” políticos neoliberais, a PEC 241 nos remete a um ambiente econômico insólito, no qual o gasto e o investimento público se esgotam em si mesmos, sem relação com o resto da economia.

As pessoas, sobretudo os funcionários públicos, preocupam-se justificadamente com a curva de seus rendimentos futuros a serem pagos ou não pelo Estado. Tem razão. Contudo, o problema real não é esse. É a relação do Estado com a economia. Imagine o congelamento em termos reais dos investimentos em habitação. Ao longo de 20 anos milhões de pessoas vão sair das casas dos pais, outros milhões vão se casar, outras tantas terão feito uma pequena poupança para abandonar seus barracos infectos e buscar uma alternativa habitacional.

Se o Governo congelar seus investimentos em habitação, o setor privado só cuidará de produzir habitação para a classe média e os ricos. Milhares de empresas construtoras terão seu mercado congelado. Algumas quebrarão e outras serão drasticamente reduzidas em tamanho. Mas a coisa não acaba aí. A produção proporcional de cimento, aço,  madeira, plástico terá também de ser congelada. A de móveis e utensílios domésticos, igualmente. Ao todo, milhões de trabalhadores perderão seus empregos, acrescentando sua desgraça à desgraça supostamente menor do servidor com salário congelado.

Contudo, o servidor que não perdeu o emprego representaria um mercado também congelado. Tudo o que se refere a uma curva de consumo do funcionalismo durante 20 anos ficará nivelado nos valores reais do próximo ano. Sem falar no desconforto e na insegurança que isso representaria para milhões de famílias, teremos de novo, aqui, a interseção com a economia privada, com a queda relativa da demanda dos servidores provocando milhões de desempregados, sobretudo dos jovens e dos acima dos 40 anos.

Ainda não é tudo. Na realidade, o pior ainda estaria por vir. Como a economia já está em depressão, o plano Meireles-Temer estará tratando a doença com doses mortais de um poderoso veneno depressivo. De fato, em depressão ou recessão, a única forma de recuperar a economia debilitada é pelo aumento decisivo do gasto e dos investimentos públicos, não importa o aumento da dívida (a relação dívida/PIB cairá com o crescimento da produção). Até mesmo o recessivo FMI passou a admitir isso, segundo seu último Global Outlook, no qual recomenda “ação fiscal” para favorecer a recuperação da economia mundial.

E ainda não é tudo. A economia ocidental está à beira de uma nova crise, ou na “terceira etapa” da crise de 2008, segundo a UNCTAD. Se houvesse racionalidade no Planalto ou na Fazenda, este seria o pior momento para se fazer um plano de ajuste. O Governo, com essa iniciativa de singular estupidez, revela o desconhecimento absoluto dos fundamentos da economia. Ou simplesmente está fazendo todos nós de idiotas, enquanto prepara um terreno de terra arrasada para entregar ao setor privado o patrimônio público e a soberania do país.

Entretanto, resta uma esperança. O Senado. Espero que tenha mais senso de responsabilidade do que a Câmara.

J. Carlos de Assis – Economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre a economia política brasileira.

**Para evitar analogias desagradáveis, mudamos o nome de Aliança pelo Brasil, a entidade que estamos construindo para ajudar na reconstrução da política e da economia brasileira, para Movimento Brasil Agora, que deve estrear ainda este mês com seminários no Rio de Janeiro (A privatização fatiada e os riscos de desestruturação da cadeia produtiva da Petrobrás) e em Brasília (A PEC do Estado mínimo: a degradação planejada do setor público e da economia).

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5 Comentários
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  1. Marcelo33

    13 de outubro de 2016 1:09 pm

    Se o senado tivesse

    Se o senado tivesse responsabilidade, Temer não era presidente. 

    QWuanto ao movimento Brasil, se essa PEC passar, o país morre, não adianta nem ter…

  2. jose adailton v ribeiro

    13 de outubro de 2016 1:27 pm

    Silêncio

    Não li o texto mas, no ctr+f   não encontrei  a palavra corrupção que bem poderia está inserido no contexto,  quando o autor se refere a degradação do Estado no título do post.

    Aqui é um blog político e não fala mais nisto.

    PS: Publicaram o artigo da Gleisi Hofman na Folha de hoje? Quando o jornal  fechar as portas muita gente vai sentir falta.

  3. Marcelo33

    13 de outubro de 2016 1:31 pm

    Sinceramente, eu ando muito

    Sinceramente, eu ando muito depressivo e triste.

    Acho que a chance de barrar essa PEC é 0.

    Eu trabalho e empresa pública, e a maioria esmagadora das pessoas que trabalham comigo é a favor desse negócio. E o mais engraçado é que na hora do acordo coletivo, todos querem ser radicais…

    Se nos queremos, imagina gente não tão diretamente atingida…

  4. bonfim0alex

    13 de outubro de 2016 2:09 pm

    Movimento Brasil

    Mais uma vez  Professor, fica evidente que uma sociedade fragilizada e sem elos  que unam todos seus setores na defesa de seus interesses civis e /ou sem formas de expressar o poder fica refém ciclicamente de estruturas arcaicas políticas autoritárias. O redesenho ou uma nova arquitetura institucional vai ser necessário para que a nação brasileira se reconcilie consiga mesma e supere o círculo vicioso do autoritarismo e sua expressão social-econômica local e suas conexões com o mundo. Acredito  também como  defendeu recentemente o Professor Jessé Souza em ‘A tolice da inteligência brasileira’, que esse redesenho de certa forma da ‘alma nacional’ exige reflexões que sem esconder nossas contradições e a falsa dicotomia estado versus mercado; enfatize as potencialidades e a riqueza moral do país. O que será traduzido em novos livros, filmes, políticas, negócios e abordagens de estudo no sistema de educação, etc.  Sepultando de vez a narrativa do fracasso ético-civilizatório das culturas latino-americanas que nos é entregue todo dia pelas academias, mídia, cultura e folclore  sobre as supostas falhas do caráter  nacional. Nessa linha o Movimento Brasil semeará novos horizontes para o país. 

    1. Marcelo33

      13 de outubro de 2016 4:59 pm

      se essa PEC passar o país

      se essa PEC passar o país está morto e enterrado… Até pq esquerda jamais terá 2/3 do congresso para acabar com ela.

      Seria mais humano jogarem bombas nucleares aqui.

      Discordo de você. Esse país é um baita  fracasso ético-civilizatório. O Egoísmo do Brasileiro nos jogou nesse poço sem fundo. As pessoas apoiam a PEC 241 porque acham que sempre quem vai se ferrar é o outro.

      O Nosso ódio daqueles que não estão na mesma classe social que a gente é que leva as pessoas a apoiarem algo que vai destrui-lás… trabalho em empresa públicano meu trabalho, as pessoas brigam por aumento ao mesmo tempo que são a favor da PEC pq o PT acabou com o país. As pessoas estão mais preocupadas em não serem petistas que com o próprio futuro. Todo mundo quer que “o outro” se ferre para se dar bem.

      Não vou falar em fracasso latino-americano por que acho que dificilmente algum outro país latino-americano tenha algo tão podre quanto a elite e classe médias Brasileiras. E nada mais acomodado que nossos pobres. Que inveja dos Asrgentinos lotando as ruas contra um presidente eleito que joga a população na miséria e aqui o cara entra via golpe e conta com a pasmaceira do povo.

      Cada dia tenho mais vontade de morrer vendo o que fizeram com meu país.

       

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