O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, em uma decisão amplamente esperada pelo mercado. Apesar do corte, a comunicação adotada pelo colegiado manteve um tom cauteloso, com destaque para os riscos inflacionários, as incertezas externas e a necessidade de acompanhar a evolução dos indicadores antes de definir os próximos passos.
Para economistas consultados pelo Jornal GGN, a principal mudança não esteve no tamanho da redução, mas na sinalização apresentada pelo Banco Central. Enquanto uma parte dos analistas avalia que o cenário permite a continuidade de cortes graduais, outros interpretam o comunicado como um sinal de possível pausa após a Selic atingir 14%.
Segundo Rafael Ihara, economista-chefe da Meraki Capital, a decisão, as projeções e a orientação do Copom vieram em linha com o esperado. Para ele, o Banco Central adotou uma linguagem mais dura em comparação com a reunião anterior para evitar novas críticas ao seu posicionamento.
“Sem surpresas. Decisão, guidance e projeções totalmente em linha com o esperado”, afirmou Ihara. Na avaliação do economista, caso o cenário atual permaneça, o Banco Central deve continuar reduzindo os juros em ritmo de 0,25 ponto percentual.
Mudança de tom no comunicado chama atenção
O economista Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimentos, destacou que a principal alteração entre os comunicados de junho e agosto foi justamente a descrição do comportamento da inflação.
Segundo ele, no encontro anterior o Copom indicava aceleração dos núcleos inflacionários e afastamento da meta. Agora, o texto aponta desaceleração da inflação cheia e das medidas subjacentes, ainda que em níveis acima do desejado. “O verbo mudou. Antes era piorando; agora é melhorando, porém ainda alto”, avaliou Passero.
Para o analista, a desaceleração da inflação e da atividade econômica indica que o processo de convergência está funcionando, abrindo algum espaço para novos cortes. No entanto, o Banco Central evitou oferecer uma sinalização explícita sobre a trajetória futura dos juros.
O analista macroeconômico Marcos Freitas, da AF Invest, também avaliou que as mudanças no comunicado foram sutis. Segundo ele, o Banco Central manteve a assimetria altista no balanço de riscos e continuou destacando as incertezas relacionadas ao cenário internacional, como a política monetária das economias desenvolvidas e os conflitos geopolíticos.
“Não houve grandes surpresas. A decisão ficou dentro do esperado, com corte de 25 pontos-base”, afirmou Fontes.
Mercado vê possibilidade de pausa após Selic chegar a 14%
Apesar do reconhecimento de melhora nos indicadores, parte dos economistas interpreta a comunicação do Banco Central como um sinal de cautela para os próximos encontros.
Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, avaliou que o comunicado veio mais duro do que o esperado. Segundo ele, embora o Copom reconheça a moderação da atividade, o colegiado reforçou a avaliação de que o mercado de trabalho permanece aquecido.
Perri destacou que as expectativas de inflação continuam sendo o principal ponto de preocupação do Banco Central. Segundo ele, a melhora recente foi suficiente para justificar o corte, mas não representa o início de um ciclo amplo de flexibilização.
“O cenário base é uma pausa em 14%. Temos que ter surpresas positivas daqui para frente para isso mudar”, afirmou.
O especialista em investimentos Augusto Parente, sócio da AW Capital, também destacou o tom cauteloso do comunicado, especialmente em relação aos possíveis impactos do petróleo e de eventos climáticos sobre os preços. Apesar disso, Parente avaliou que a redução dos juros foi adequada diante do nível elevado do juro real e de sinais positivos, como a desaceleração da atividade econômica e a menor pressão das commodities.
Corte lento mantém juros altos por mais tempo
Para Gabriel Castro, analista de investimentos do Grupo Mide, o movimento representa a continuidade de um processo gradual de flexibilização monetária. Segundo ele, a Selic caiu pela quarta reunião consecutiva, acumulando redução de 1 ponto percentual desde o início do ciclo.
Castro destacou que o Banco Central evitou apresentar uma trajetória futura justamente em razão das incertezas envolvendo petróleo, clima, política monetária dos Estados Unidos e estímulos fiscais domésticos. “Direção é de queda, mas a velocidade é de conta-gotas”, afirmou.
Na avaliação do analista, o nível de juros ainda mantém efeitos importantes sobre consumidores e empresas. A renda fixa segue atrativa, enquanto o crédito permanece caro e o impacto sobre financiamentos deve aparecer apenas de forma gradual.
O professor Denis Medina, da Universidade Anhembi Morumbi, também ressaltou que a redução é positiva, mas insuficiente para gerar estímulo significativo à economia.
Segundo ele, a manutenção da Selic em 14% representa uma política monetária ainda restritiva, voltada a reduzir a atividade econômica para aproximar a inflação da meta.
Indústria cobra queda mais forte dos juros
Enquanto o mercado financeiro debate o ritmo dos próximos cortes, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou que o nível atual da Selic continua prejudicando o setor produtivo e as famílias.
A entidade considerou acertada a decisão do Copom, mas avaliou que a redução foi insuficiente para aliviar os efeitos dos juros elevados. “Não há justificativa compreensível para a manutenção da taxa de juros em um nível tão alto”, afirmou Ricardo Alban, presidente da CNI.
Segundo a entidade, a inflação corrente apresenta sinais de desaceleração e as expectativas para os próximos anos permanecem dentro do intervalo de tolerância da meta. A CNI também argumenta que a taxa real de juros continua elevada e limita investimentos e consumo.
Levantamento citado pela confederação aponta que 53% das empresas industriais esperam aumento da necessidade de financiamento para contas a pagar nos próximos três meses. Além disso, cerca de 39% projetam ampliação do endividamento bancário e 58% antecipam redução das margens líquidas.
Para a CNI, os juros elevados funcionam como um “imposto invisível” sobre a atividade produtiva, pressionando custos e reduzindo a capacidade de investimento.
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