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A midiatização do processo penal como elemento-chave da crise política

Do blog Desenvolvimentistas

A midiatização do processo penal como elemento-chave da crise política: Entrevista com Benedito Tadeu César

Aproxima-se o retorno das atividades do Congresso Nacional e atrelado a isto temos a temperatura política voltando a subir. Com o processo de impedimento deflagrado, certamente o recesso serviu para amplas movimentações de organização das diversas forças políticas, muitas delas baseadas tão somente no fisiologismo característico do presidencialismo de coalizão.

Se é verdade que a ala conspiracionista ligada ao vice-presidente Michel Temer sofreu considerável desidratação, também procede a tese de que o governo continua sem enfrentar apropriadamente a apatia e hesitação de que padeceu durante todo o perdido ano de 2015.

Para analisar este cenário e fazer projeções que o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou Benedito Tadeu César, doutor em ciências sociais pela Unicamp e professor aposentado da UFRGS. Considera ele que a calmaria observada neste início de ano findará “tão logo se reiniciem os trabalhos legislativos”, que Eduardo Cunha não descansará nem abdicará de seus métodos pouco convencionais de fazer política, e que como resposta o Planalto “manterá a postura de inabilidade que o caracteriza”, sem, contudo, se materializarem as condições requeridas para a consumação do impeachment.

A análise mais extensa do professor, porém, se deteve no Judiciário. Tadeu César enxerga um “decisionismo” e “ativismo judiciais aliados a uma midiatização cada vez mais acentuada do processo penal” inaugurados pelo julgamento da Ação Penal 470, conhecida como Mensalão. Postula ainda que “os vazamentos e as prisões por tempo indeterminado e sem a culpabilidade comprovada dos réus tem criado um clima de instabilidade e, diria, até mesmo de terror”.

Confira a íntegra desta rica análise:

Como se inicia 2016 no campo da política? Qual a perspectiva de evolução da crise?

BTC: Até o reinício das atividades do Congresso Nacional o clima político continuará estável. Apenas as grandes corporações de mídia e segmentos do Ministério Público, da Polícia Federal e do Judiciário, notadamente alguns juízes de primeira instância, insistirão em manter o clima de conflagração com o governo federal e a caçada aos petistas e ao ex-presidente Lula da Silva. O governo Dilma Rousseff, por sua vez, manterá a postura de inabilidade que o caracteriza, criando novas frentes desnecessárias de conflito, como a recém instalada com a nova proposta de reforma da Previdência Social, que cria inimigos e alimenta desconfianças entre seus próprios aliados. O governo, ao que parece, desperdiçará o tempo da trégua não declarada com a Câmara Federal e não conseguirá consolidar novos e necessários apoios para enfrentar a carga pesada que se abaterá sobre ele tão logo se reiniciem os trabalhos legislativos.

O impeachment arrefeceu? Quais as chances do impedimento de Dilma se consumar?

BTC: Entendo que o impeachment, com as decisões do STF, perdeu força na Câmara Federal, mas isto não implica que, findo o recesso parlamentar, não sejam restabelecidas as práticas de chantagem e de confronto com o Poder Executivo. Eduardo Cunha, enquanto não for destituído e não tiver seu mandato de deputado federal cassado ou suspenso, continuará a utilizar seus aliados para criar embaraços ao governo Dilma Rousseff. Sem revelar a sua face, o PSDB continuará alimentando as posturas de Cunha e de sua trupe. Com a base parlamentar que detém, o governo Dilma continuará refém e submetido às práticas de chantagem. Sua única chance de romper este círculo de terror será conseguir reverter o quadro de estagnação econômica. Sem isto, o impeachment não virá, mas também não virá a paz tão necessária ao exercício do bom governo.

Quanto ao TSE. Você crê que a oposição partirá para a cassação da chapa caso não prospere o impeachment? Como a sociedade em geral enxerga essas movimentações?

Benedito Tadeu César. Foto: Grupo Sinos

BTC: O maior risco de destituição do governo Dilma Rousseff encontra-se hoje no TSE. Gilmar Mendes e Dias Toffoli, este agora encantado com a presidência do tribunal, formam uma dupla capaz de arrolar argumentos jurídicos suficientes para justificar quaisquer atos que considerem oportunos. A decisão da manutenção da democracia ou da deflagração de um golpe judiciário estará colocada nas mãos dos demais ministros do TSE. Espero que eles se comportem com a mesma dignidade assumida pelos ministros do STF no julgamento dos questionamentos apresentados pelo PC do B frente ao ritual do impeachment criado por Eduardo Cunha. O grande risco é o de que os ministros do TSE se deixem contaminar pelo processo de judicialização da política em curso no país e exerçam, também neste episódio, práticas decisionistas do quilate das que vêm sendo adotadas pelas altas cortes brasileiras desde o julgamento da Ação Penal 470.

A opinião pública, em sua grande maioria fortemente influenciada pelas grandes corporações de mídia brasileiras, não oporá resistência a uma decisão do TSE que leve à cassação da chapa Dilma Rousseff/Michel Temer. No entanto, acredito que mesmo os ministros do TSE mais propensos a assumir posturas decisionistas se sentirão constrangidos de enfrentar as críticas que partirão dos juristas e das mídias independentes, bem como dos setores sindicais e populares próximos do PT e favoráveis ao governo Dilma Rousseff. O argumento de que foram utilizados recursos ilícitos na campanha de Dilma/Temer e desconhecer que as mesmas empresas que financiaram sua campanha financiaram as campanhas de todos os demais candidatos soa falso até para os mais ferrenhos defensores de Aécio Neves ou de Marina Silva.

Não se pode esquecer, além disso, que o próprio Poder Judiciário, como instituição, está sofrendo um forte desgaste junto à opinião pública advindo das práticas corporativas que tem adotado sem nenhum mascaramento nos últimos meses, como as relativas ao pagamento dos auxílios-moradia, alimentação, educação e até creche/babá aos seus integrantes. Ainda que regiamente remunerados, muitos integrantes do Judiciário e do Ministério Público têm se revelado nus perante parte expressiva e crescente da opinião pública brasileira.

De que maneira se incidirão os efeitos da crise política e econômica nas eleições municipais deste ano?

BTC: As eleições municipais têm dinâmica própria, em grande parte independente das conjunturas política e econômica estaduais e nacionais. Os eleitores dos municípios votam com os olhos, o coração e a mente voltados para os problemas locais: a sua rua, as enchentes ou a seca, a coleta de lixo, a corrupção municipal, a amizade/proximidade com os candidatos.

Não há dúvida que os acontecimentos nacionais e estaduais têm influência, mas eles não são decisivos. Em um cenário de crise, a tendência, sempre, é a de que a situação seja prejudicada e, consequentemente, as oposições sejam beneficiadas, mas sempre serão a conjuntura local e as posturas dos candidatos locais que definirão o resultado eleitoral em cada localidade. Além disso, exceto o PSDB – que tem sido poupado pelas grandes corporações de mídia e pelas denúncias do MP, todos os demais partidos políticos brasileiros têm sido afetados pelas denúncias de corrupção, o que fará com que o peso do descrédito se dilua e se distribua entre todos os partidos e seus respectivos candidatos. Não acredito, entretanto, pelas razões expostas acima, nem que o PSDB tenha um desempenho muito superior ao que obteve nas eleições municipais anteriores, nem o PT, o mais atingido pelas críticas midiáticas e pelas denúncias, tenha um desempenho muito abaixo daquele que tem obtido historicamente.

Além da crise temos ainda a proibição do financiamento empresarial de campanhas já em vigor. O que esperar desta mudança tão representativa? Como fazer para inibir o caixa-dois?

BTC: A inibição do caixa-dois só será obtida por meio de rigorosa fiscalização por parte dos órgão competentes. Correm informações nos bastidores que empresários, políticos e dirigentes partidários, assessorados por profissionais do direito, têm realizado reuniões sigilosas para discutir fórmulas de burla da legislação anti-financiamento empresarial. Acredito, no entanto, que a fiscalização não será difícil de ser exercida, bastando que o Ministério Público eleitoral fique atento aos “sinais exteriores de riqueza” das campanhas. Campanhas com muita publicidade e/ou muita estrutura (carros, cabos-eleitorais etc.) serão potencialmente campanhas regadas por caixas-dois. Bastará vontade de fiscalizar e, claro, a alocação de recursos para a atuação dos agentes fiscalizadores, recursos que, no âmbito do Poder Judiciário são fartos e imune às crises.

A proibição do financiamento eleitoral de campanhas é um passo importante para a moralização dos pleitos, com a inibição das compras de mandatos parlamentares e executivos por parte de empresários e empresas que vinham ocorrendo com intensidade crescente nos últimos anos no país. Este é um primeiro e importante passo, mas é apenas o início de uma longa caminhada de reformulação de nossa legislação política e eleitoral. Veja-se que, ao lado da proibição do financiamento eleitoral por parte de empresas, ocorreu também a diminuição do prazo de campanha. Se a primeira medida contribui para a moralização das eleições, a segunda reforça a possibilidade de que os atuais detentores de mandato se reelejam, pois um prazo menor de campanha dificulta a eleição de candidatos novos e, consequentemente, menos conhecidos que os já detentores de mandatos, que têm a sua disposição os recursos das casas legislativas e do controle das máquinas administrativas e, além disso, o acesso, durante todo o período de seus mandatos, às rádios e tvs públicas, sejam as culturas e educativas, sejam as da Câmara ou do Senado.

É possível sair da instabilidade em meio a delações, vazamentos e investigações continuadas? Como os políticos têm reagido a este cenário de protagonismo do judiciário?

BTC: Mais do que o “protagonismo do judiciário”, o que estamos assistindo é a exacerbação do decisionismo e do ativismo judiciais aliados a uma midiatização cada vez mais acentuada do processo penal. As normas do direito têm sido utilizadas, muitas vezes, de acordo com as convicções dos magistrados e demais agentes estatais do direito (promotores, delegados etc.) sem que estejam suficientemente embasadas nos princípios constitucionais ou na jurisprudência brasileira. A aplicação da tese do “domínio do fato”, no julgamento da Ação Penal 470, abriu as portas do voluntarismo jurídico. A Operação Lava-Jato, no combate necessário à corrupção mais do que secular e disseminada entre os principais partidos políticos e instâncias de poder no Brasil, tem se exercido, no entanto, de forma seletiva, elegendo alvos preferenciais e desprezando outros ao seu bel-prazer e de forma não transparente. O denuncismo, os vazamentos e as prisões por tempo indeterminado e sem a culpabilidade comprovada dos réus tem criado um clima de instabilidade e, diria, até mesmo de terror. Sob a ação das grandes corporações de mídia, de alguns magistrados e de alguns integrantes do Ministério Público todos os políticos não amigos são declarados culpados e corruptos, mesmo que haja provas em contrário. Os amigos, entretanto, mesmo quando alvo de denúncias, são poupados e, muitas vezes, previamente inocentados.

Acredito que cabe ao próprio Poder Judiciário e ao Ministério Público, por meio de seus agentes não contaminados pelo que está sendo caracterizado por alguns analistas como sendo o exercício de um “jacobinismo judiciário” agir de modo célere para recompor a normalidade jurídica no prazo mais curto possível. O combate à corrupção é bem-vindo, mas precisa ser realizado nos marcos estritos da lei e atingir de igual modo a todos os envolvidos nestas práticas nefastas. Cabe à sociedade civil organizada, por meio de suas agências, como a OAB, a CNBB, a UNE, as centrais sindicais e empresariais, os sindicatos, associações e às entidades estudantis e de juventude se manifestarem neste sentido.

É urgente, além disso, criar e fortalecer veículos alternativos de informação, tanto para que seja possível se promover contraposições às deturpações informativas realizadas pelas grandes corporações de mídia quanto, e igualmente importante, se acelerar a construção de um movimento de opinião pública favorável à regulação democrática da mídia, seja do seu exercício seja de sua propriedade. Regulação que, afirme-se e reafirme-se, existe em todos os países de democracia avançada no mundo, incluindo-se os EUA, a Inglaterra, a França e a Alemanha, entre outros.

Diante deste cenário, quais são as perspectivas de saída da crise? Que desfechos são possíveis?

BTC: Ainda que dificilmente o governo Dilma Rousseff seja interrompido antes do término do seu mandato, parece-me igualmente difícil que ele consiga se estabilizar a ponto de que os três anos de mandato que lhe restam transcorram sob relativa calmaria. As turbulências periódicas serão a marca característica deste mandato presidencial. Isto se deverá tanto à ação conjunta das oposições associadas, mesmo que informalmente, às grandes corporações de mídia e aos chamados “jacobinos judiciais” quanto também à inabilidade política-administrativa de Dilma Rousseff e de sua equipe de governo.

 

Como, entretanto, as oposições não detêm quadros e lideranças aptas para empolgar as grandes massas eleitorais e nem deram mostras, até aqui, de estarem habilitadas para formular propostas de governo capazes de promover a retomada do desenvolvimento do país, caso o governo Dilma consiga superar o quadro de estagnação econômica atual e dar início a um processo de retomada, mesmo que tímido do crescimento econômico, ele terá chance de se recompor frente a opinião pública e, quem sabe, tornar possível ao seu partido apresentar um candidato com chance de vitória na campanha eleitoral de 2018. Mais do que Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin, Marina Silva ou Michel Temer, os grandes adversários de 2018 serão as grandes corporações de mídia e os “jacobinos judiciais”.

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Trata-se de midiotização, não

Trata-se de midiotização, não há paralelo no mundo

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já recomendei uma vez...

estudem o amontoado e descubram quantos crimes podem ser inventados com esta linha de produção de notícias

uma que salta aos olhos:

delatores estão se precavendo com declarações tipo...é impossível que fulano não soubesse...

e na transcrição consta que sabia

algo pior ainda: em muitas passagens, se fulano tomasse conhecimento, pela função que tinha teria impedido

perceberam?

em certas passagens reconhecem e declaram que foram impedidos pelo mesmo fulano

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MARCOS F.L.

Esse juiz deveria tomar

Esse juiz deveria tomar vergonha na cara e devolver o que ele recebe mensalmente que ultrapassa o teto constitucional, mas como é endeusado pela Globo e CIA duvido que isso aconteça.

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MARCOS F.L.

Criaram uma redoma de vidro

Criaram uma redoma de vidro em torno do MP e eles podem atropear as leis e até a própria constituição que nada acontece com eles.Devem ser submetidos ao mesmo código disciplinar da magistratura, eles não são deuses.

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MARCOS F.L.

É só Lula se ganhar em 2018

É só Lula se ganhar em 2018 dar reajuste a essa moçada 2,3 três vezes acima da inflação e o impoluto Moro ganha 58 mil líquidos mensais untrapassando e muito o teto constitucional e quer ser o corregedor geral da república.Procurador da república e juiz não pode e não devem ser intocavéis, prenderam até uma mulher numa solitária obrigando-a a defecar numa pia e dizem que é só poderá ser podta em liberde e o esposo delatar.

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Antonio C.

Comentário.

Não posso nem afirmar que a democracia está sob ameaça pois nunca estive em uma.

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O empresário e o juiz

"Se sujar minha toalha de linho ou pedir Marmitex... vou pirar. Saudações Sindicais? Não mereço".

Este teria sido o comentário de Isabela Odebrecht, esposa de Marcelo Odebrecht, ironizando o convite feito à sindicalista Juvandia Moreira, líder dos bancários em SP, para que ela participasse de um jantar em sua casa em torno do ex-presidente Lula.

Desse mesmo jantar participaram vários empresários, entre os quais Jorge Gerdau e João Roberto Marinho, dono da Rede Globo.

Poderia tranquilamente dizer que é lamentável esse tipo de comentário e que na verdade refletiria a pobreza de espírito da senhora Odebrecht e que é típico dos membros que constituem a comunidade dos talheres de prata.

Tenho pontos de vista bem definidos sobre determinados segmentos da sociedade, mas não pretendo cair no que pode ser uma armadilha da hipocrisia ao analisar a frase sem inseri-la no devido contexto.

Fugindo dessa armadilha, ocorre-me a sensação de que me dirijo sem freios para outra.

O que você imagina ser o mundo empresarial?

Como imagina que funciona o universo das grandes empresas do mundo?

Como imagina ser um conglomerado que fatura cerca de R$ 100 bilhões por ano, atua em 23 países, inclusive Estados Unidos e países da Europa, e emprega 200 mil pessoas, segundo o Estadão de 20 de julho de 2014?

Só mesmo a ignorância ou razões escusas ou até mesmo ambas poderiam permitir uma visão simplista, boba e romântica sobre essa realidade. Ignorar as particularidades, magnitude e complexidade desse universo beira o retardo mental.

A essa altura da vida não posso me permitir observa-lo com o moralismo que reina no país nesse momento.

Rejeito a visão maniqueísta e tola do bem e do mal.

Imaginar Marcelo Odebrecht simplesmente como um corrupto ou corruptor abre um leque inimaginável de possibilidades.

Qualquer tentativa de se julgar alguém envolvido na Lava Jato exigiria que se deixasse de lado justamente o que mais se vê nos dias atuais:

A hipocrisia.

Uma vez que o empresário atua num universo de enormes possibilidades, como se dão verdadeiramente essas relações?

Quem, das relações do Sr. Odebrecht, estaria livre das mesmas acusações que lhe são feitas?

Estariam alguns livres e outros não?

Se assim é, por que?

Marcelo Odebrecht é um puro sangue da elite brasileira.

As relações da sua empresa, como todos sabemos, se deram com todos os governos brasileiros.

Por que em algumas ele foi pecador e em outras santo?

Além disso, quem goza da sua relação pessoal?

Certamente não são pessoas que oferecem o risco de "sujar a toalha de linho ou pedir Marmitex..."

Em quem vota o eleitor Marcelo Odebrecht?

Em quem votou para presidente da república em 2014?

Alguém ainda tem dúvidas mesmo ele já tendo declarado o seu voto?

Você já ouviu falar em hipocrisia? Tem certeza de que sabe o que significa?

Por outro lado e sob perspectiva bem diferente, se alguém se dispuser a analisar a conduta do Juiz Sérgio Moro à frente da Lava Jato, terá que fazê-lo no mínimo com o mesmo rigor com que se tem julgado o senhor Odebrecht. Afinal, o mundo jurídico não permite, ou não deveria, a flexibilização de certos padrões que apontam para limites mais bem definidos, deixando claro que os homens da lei não deveriam ir além do que lhes permitem os rigores das normas jurídicas.

Vou me reportar somente ao juiz Moro por razões que me parecem óbvias, além do fato de considerar inexpressivos os seus pares, meras peças para a composição de um jogo.

Há quem diga que aos homens da lei cabe atuar estritamente dentro dela, com toda discrição, sobriedade, serenidade e certa reclusão em determinados momentos.

Diz-se também que alguma distância dos senhores da lei com determinados setores da sociedade deveria ser mantida e que ela deveria dar o tom nessas relações.

Não foi, entretanto, que assim se comportou o ex-ministro Joaquim Barbosa, que não mostrou nenhum constrangimento, muito pelo contrário, quando permitiu evidenciarem-se muito fortemente as características mais marcantes da sua personalidade e que dariam o tom da sua passagem pelo Supremo, particularmente quando esteve à frente da presidência; vaidade fora de controle, destempero emocional e belicosidade.

Por sua vez, como justificar o ministro Ayres Britto ser autor do prefácio do livro de Merval Pereira, cujo título é “Mensalão”, quando o episódio em questão estava sob julgamento e ele era o presidente do STF? Um verdadeiro escândalo que certamente não permite colocar Ayres Britto como exemplo de nada que exija o mínimo de dignidade e bom senso.

Ao mesmo tempo, ter Gilmar Mendes como uma das estrelas do lançamento do referido livro é também algo que agride frontalmente a dignidade e o bom senso, para dizer o mínimo, de qualquer cidadão que disponha de neurônios em atividade.

E, finalmente, por ser o protagonista dos episódios mais recentes nessa triste caminhada do poder judiciário brasileiro, o Juiz Moro dispensa esforço maior da memória para relembrar os feitos que o põem muito longe de ser modelo de qualquer coisa. Ainda que parcela significante da sociedade não consiga ver as evidências que apontam para um juiz que se perdeu naquilo que representa os mais elementares deveres de um guardião da Constituição.

Aceitar prêmios e homenagens de órgãos de imprensa que claramente assumiram papel de oposição partidária ao governo federal não deveria recomendar nenhum juiz numa Democracia séria e consolidada.

Diante de eventual dificuldade de compreensão do que digo acima, relembro a famosa frase dita em 2010 pela Sra. Maria Judith Brito, então presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ):

“Obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada”.

Um juiz que faz palestras em eventos patrocinados por revistas que francamente assumiram papel de oposição ao governo, como recentemente em evento da ANER (Associação Nacional de Editores de Revista), controlada pela Editora Abril, cuja campanha sistemática contra o governo é por demais conhecida, também não deve constituir um modelo a seguir.

Da mesma forma que o faz em eventos patrocinados por empresas de políticos em campanha eleitoral, como foi o caso do almoço-debate no Lide, de João Dória Jr., pré-candidato à prefeitura de São Paulo pelo PSDB de São Paulo.

Certamente o recato deixou de ser uma característica do judiciário brasileiro.

Diante disso, uma pergunta se faz inevitável.

Será que ainda corremos o risco de ver mais algum membro do poder judiciário brasileiro ser “homenageado” pela Globo em 2016?

Se isso acontecer novamente, não será acintoso demais?

Como ficarão essas instituições e como exercerão o seu poder na sociedade?

Como ficará a sociedade diante desses poderes?

Qual é o alcance do conceito de corrupção?

Só existe corrupção quando estão envolvidos valores financeiros ou também se corrompem sentimentos e valores e princípios da dignidade?

Quando a sociedade perceberá que a disfuncionalidade das instituições pode ter a sua origem num ato de corrupção que não necessariamente envolve valores financeiros?

Ao mesmo tempo, reza a Constituição Brasileira que o salário dos servidores públicos, onde se incluem juízes e desembargadores, obedece aos limites impostos como teto aos ministros do Supremo tribunal Federal, R$ 33,763,00.

No entanto, já foi amplamente divulgado que o juiz Moro recebe bem acima desse teto, numa média de R$ 77.423,66, como se pode ver no site jurídico do Conjur e também em depoimento do deputado Wadih Damous, ex-presidente da OAB Rio de Janeiro, no vídeo abaixo.

Não parece razoável que um guardião da Constituição seja um infrator dessa mesma Constituição. Se os órgãos de comunicação, ávidos por bem informar ao povo brasileiro, vazassem essa informação para a sociedade, como seria visto o juiz?

Se os valores relativos aos honorários do Dr. Moro tivessem a dimensão dos valores tratados em grandes obras entre empreiteiras e governos e essas informações vazassem para órgãos de comunicação e estes abrissem manchetes escandalosas sobre o fato de que um juiz estaria recebendo o dobro do que deveria receber, que tipo de impacto causaria na sociedade?

Que tratamento seria dispensado a um empresário que em negociações com o governo recebe deste o dobro do que deveria ser legalmente pago?

Como o juiz Sérgio Moro da Lava Jato julgaria o juiz Sérgio Moro que percebe um salário mais que o dobro acima do que determina a Constituição?

Por fim, o que dizer quando vem à tona que o delator Paulo Roberto Costa afirma que Marcelo Odebrecht não está envolvido nos episódios sob investigação da Lava Jato e esta parte do seu depoimento gravado foi retirada e alterada na transcrição para os autos, como denuncia Janio de Freitas?

Para não nos alongarmos em demasia com detalhes que, mesmo interessantes, talvez se tornassem cansativos, o recente manifesto de 103 advogados, juristas e professores de Direito chama a atenção para as arbitrariedades do juiz Moro, na condução da operação Lava Jato, algo que, segundo eles, não foi visto nem no período da ditadura.

A imprensa, mais uma vez, tentou blindar o juiz e dar ao seu público a interpretação de que o manifesto não tinha validade porque expressava tão somente as queixas de advogados que, por serem defensores dos réus da Lava Jato, teriam os seus interesses contrariados pelo juiz.

A imprensa só não diz que dos 103 signatários, apenas 39 representam os réus da Lava Jato.

Insisto, não pretendo colocar Marcelo Odebrecht ou a sua empresa entre os mais inocentes e puros. Essa discussão é muito mais complexa do que querem fazer crer, mas a hipocrisia é inegável.

Não é preciso ser advogado, jurista ou professor de Direito para saber que direitos constitucionais elementares foram e estão sendo negados, o que talvez represente grande risco para a operação.

É possível que o juiz Moro esteja correndo um risco que não foi devidamente calculado.

É possível que todo esse imbróglio, cujos fatos e transparência têm sido insistentemente negados ao povo brasileiro, venha a ter um desfecho que não entrou nas previsões do juiz.

Ainda existe dignidade nessa história?

Se existe, de que lado estaria ela?

Não sei.

Mas não consigo vê-la do lado do juiz. 

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Ronaldo

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Roberto Monteiro

Esse procurador do biquinho de â...

parece aquele cantor do início dos anos 2000 que chamavam de anjo, o Robinson Monteiro.

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altamiro souza

novos termos para compor a

novos termos para compor a arqueologia desse famigerado conluio midiático et cateva...

as palavras terror e a expressão jacobinos judiciais,

todos da era do terror da revoiluçlão francesa...,

robespierre e marat começaram a degola e o primeiro foi

degolado  e o segundo morto lem seguida...

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Dois apartes

Primeiro: Se a oposição das grandes corporações de mídia tivessem alguma real importância no jogo político, nem o Lula e nem a  Dilma teriam sidos eleitos e reeleitos.

Segundo: A Lava-Jato cresceu tanto que virou paisagem e o eleitor de tanto olhar para para ela, cansou, passa direto sem prestar mais atenção.

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