22 de junho de 2026

Aperto fiscal combina com elevação de juros?, por Antonio Corrêa de Lacerda

 
 
A coerência das medidas econômicas é um dos aspectos mais relevantes das discussões sobre alternativas da política econômica ou da economia política. Como não há decisões econômicas neutras, nem tampouco indolores, a questão é sempre levar em conta a relação custo­benefício de cada escolha. No curto prazo, entre nós, chama a atenção o descompasso entre o objetivo de ajuste fiscal e a contínua elevação dos juros. O ajuste de qualidade a ser realizado, ao contrário do que está sendo praticado, seria cortar gastos correntes, preservando os investimentos e os programas sociais, pois, além de mais justos, geram efeito multiplicador sobre a economia.
 
É importante gerar um superávit primário, e a meta para o ano é de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas a questão fundamental é quando se considera o resultado consolidado no âmbito nominal, isto é, incluindo o pagamento de juros sobre a dívida pública. Isso porque o Brasil é de longe o país que mais paga encargos sobre a sua dívida. No ano passado foram R$ 311 bilhões (6,1% do PIB), valor que deve subir para cerca de R$ 400 bilhões este ano. Não, você não entendeu errado, caro leitor. Vamos pagar R$ 89 bilhões adicionais de uma conta já salgada de encargos sobre a dívida pública!
 
Ou seja, todo o esforço fiscal a ser obtido no âmbito das contas públicas primárias, com aumento de impostos e corte de gastos e de investimentos, será insuficiente para arcar com o acréscimo do pagamento de juros. Para financiar a diferença, o Tesouro Nacional emite novos títulos, aumentando a dívida.
 
Nesse contexto, a prática dos juros mais elevados do mundo e em elevação representa uma grande incongruência em face do ajuste fiscal pretendido, basicamente por duas razões. Primeira, porque, além de inócua para reduzir a inflação, como apontamos em artigo recente (*), a elevação de juros provoca um encarecimento do crédito, do financiamento, o que faz com que haja diminuição no nível de atividades da economia. As empresas, faturando menos, recolhem menos impostos, fazendo com que haja queda na receita do governo, prejudicando o resultado primário. Vamos amargar este ano uma retração do PIB da ordem de 2%!
 
Segunda, e mais grave, ainda no âmbito nominal das contas públicas, a elevação da Selic representa aumento de custo “na veia”, em razão do perfil e da característica da nossa dívida pública, que remunera a taxas de juros reais elevadíssimas os títulos públicos, independentemente do prazo de resgate.
 
Este é o verdadeiro “negócio do Brasil” e que resiste há décadas no País. Somos o único país no mundo que remunera seus credores, que praticamente têm risco zero, e por qualquer prazo e juros reais (acima da inflação) de 6% ao ano. Isso diante de um quadro internacional em que a imensa maioria dos países pratica juros reais negativos, como nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e em outros países que, mesmo diante de indicadores piores que os nossos, como inflação, déficit e dívida pública, adotam taxas de juros menores.
 
No nosso caso, trata­se de uma transferência significativa de recursos públicos ­ portanto oriundos dos impostos que pagamos ­ para os credores da dívida pública, basicamente o setor financeiro e todos que realizamos aplicações financeiras. O fato é que nos tornamos uma sociedade viciada em juros elevados e adepta do rentismo, em contraponto à produção e ao investimento produtivo.
 
Ou seja, o verdadeiro ajuste a ser feito é de âmbito financeiro, atrelado ao perfil do nosso endividamento. Não é cortando investimentos e gastos sociais e gerando recessão que vamos conseguir o ajuste intertemporal das contas públicas ­ lembrando que controlá­las não é um fim em si mesmo, mas um meio. Enquanto não enfrentarmos essa questão crucial, permaneceremos reféns de ajustes de curto prazo, limitando o crescimento econômico e, portanto, adiando o desenvolvimento.
 
 
(*) LACERDA, A.C e CAMPEDELLI, A.L. Uma crítica pós­keynesiana ao Regime de Metas de Inflação no Brasil. Pesquisa & Debate,  Revista do Programa de Pós­graduação em Economia Política da PUC­SP, v.25, n.2(46), 2014. Disponível em http://revistas.pucsp.br/index.php/rpe/article/view/21493
*Antonio Corrêa de Lacerda é professor­doutor e coordenador do Programa de Estudos Pós­graduados em Economia Política da PUCSP. Site: WWW.ACLACERDA.COM
 

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  1. gabi_lisboa

    7 de junho de 2015 7:08 pm

    Levy, o cínico, mete ajuste no nosso lombo por longo prazo

    Na coluna do Jânio de Freitas na Folha:

    Na segunda, Joaquim Levy disse, em seminário do FMI, que o Brasil viverá em 2015 sua “mais grave recessão” nas últimas duas décadas e a “recuperação será lenta”, porque “a nossa [lá deles, neoliberais] estratégia é para o longo prazo”.

    Saído dali, Levy disse aos jornais e TV brasileiros que “temos bastante chance de ver uma segunda metade do ano favorável”. Se alguém falar em facilidade de mentir, em cinismo e em desrespeito à população, será tido como grosseiro. A mentira, o cinismo e o desrespeito, não.

     

    1. Andre Araujo

      7 de junho de 2015 9:55 pm

      O Presidente dos Estados

      O Presidente dos Estados Unidos dentro de cujo mandato ocorreu a crise de 1929, Herbert Hoover dizia a mesma coisa e que o jeito era ter paciencia e esperar pela recuperação a longo prazo. Perdeu a eleição, veio Roosevelt e disse que era preciso dae emprego já, não havia mais tempo para esperar, criou o Civilian Coservation Corps e empregou 6 milhões.

      Disse que mandar esses homens desempregados levar pedras de um lado para o outro era mais inteligente do que deixa-los em casa parados.

      Passados mais de 80 anos os engenheiros-economistas (Hoover era um deles) não aprenderam nada. É facil ter paciencia sendo executivo de alto escalão do Bradesco, o dele está garantido. O desempregado não tem tempo para ter paciencia.

  2. Andre Araujo

    7 de junho de 2015 7:49 pm

    Antonio Correia de Lacerda é

    Antonio Correia de Lacerda é um dos melhores economistas brasileiros, eclético, sabe combinar ortodoxia com visão desenvolvimentista, esse mix é o segredo dos grandes economistas modernos, é a grande lição que Keynes legou para a posteridade. Em 2006, quando Aldo Rebelo era Presidente da Camara, organizei na Camara um seminario de politica economica e Correia de Lacerda foi um dos convidados junto com Luis Nassif, naquela época Lacerda era diretor da Siemens. Já era notado pelo seu viés flexivel e cuidadoso com a visão de desenvolvimento e emprego.

    Lacerda seria um excelente Ministro da Fazenda porque conhece academia e empresa, não é um burocrata como Levy

    que não convive com industria e problemas da economia real ou Barbosa, que tamebm vê a economia do gabinete.

    Os grandes operadores da economia precisam ter um pé no galpão, na oficina, no almoxarifado, no balcão,  economistas

    da burocracia e da planilha não vivenciam o dia a dia real, Delfim tambem cohecia a industria, trabalhou na Gessy Lever,

    hoje toda a equipe economica do governo é de burocratas puros que nunca precisaram ganhar a vida vendendo sabonete.

  3. Alexandre Weber - Santos -SP

    7 de junho de 2015 8:13 pm

    Tá na hora do calote

    Os juros são altos pelo alto risco de calote, penso que 12 de junho de 2015 é uma ótima data para dá-lo.

    Acorda, Dilma!

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