
O que os economistas de mercado chamam, pejorativamente, de “criatividade fiscal”, com o propósito explícito de expor ao mundo a “falta de transparência e de credibilidade” do Governo, não tem o menor efeito ou a menor importância macroeconômica. Ao contrário, é apenas a expressão ideológica da corrente central do neoliberalismo para a qual a economia é um conjunto de relações individuais dominadas, não por interesses reais, mas por “expectativas racionais” num mercado de acesso igualitário a informações.
Vejamos por partes. A crítica da “criatividade” diz respeito à intenção do Governo de esconder a queda do chamado superávit primário – o que a imprensa chama de “economia” para pagar o serviço da dívida pública. Para que serve esse superávit primário do ponto de vista ideológico? Serve, dizem eles, para conquistar a confiança do mercado no pagamento da dívida pública e controlar a inflação. Não havendo superávit, teríamos que concluir, não há garantia de pagamento dos títulos da dívida do Governo.
É claro que isso é uma grande bobagem. Se não houver superávit – na verdade, mesmo quando há um déficit – o Governo paga a dívida velha, e o fluxo dos juros, lançando no mercado dívida nova sem necessidade de superávit primário, que é o resultado de uma receita tributária inferior à despesa corrente. Como essa dívida nova, uma vez lançada, é como dinheiro vivo nas mãos do seu tomador, porque pode ser trocado no BC a qualquer momento por moeda pelo tomador dos papéis, não há possibilidade de calote.
Déficit primário gera inflação, retornam eles. Outra bobagem. Inflação é um fenômeno do ciclo econômico: se a economia está em baixa, o déficit não só é permitido pela boa macroeconomia como é benéfico por estimular a demanda agregada. A ideia de que todo déficit, em qualquer circunstância, e independentemente do ciclo econômico gera inflação é uma tese recorrente dos neoliberais ortodoxos, produto exclusivo de ideologia, já que um aumento de déficit significa mais poder econômico em mãos do Estado.
Quando a economia está aquecida, aí sim, o déficit primário gera inflação. Não é o nosso caso neste momento. Quando o Governo retira das contas primárias o investimento no PAC, como acaba de fazer, ele está apresentando uma relação fiscal legítima do ponto de vista macroeconômico. O que se investe aí tem uma correspondência direta com a criação de ativos econômicos e sociais. Não é gasto solto no espaço. Financia o crescimento, e portanto reduz o déficit como porcentagem do PIB, como normalmente ele é medido.
Também a desoneração fiscal pode ser entendida conceitualmente, pelo menos parcialmente, como um investimento na economia que concorre para o aumento do PIB. No meu entender, teria sido preferível que o Governo mantivesse o nível dos impostos para aplicar os recursos correspondentes no investimento ou no gasto público, de forma direta. Haveria mais certeza na expansão do investimento. De qualquer modo, tomar a desoneração como investimento, como ele fez, não é de todo absurdo.
Dadas essas observações, o que se deve criticar não é a “criatividade” fiscal, mas a postura do Governo em não assumir diretamente a redução do superávit primário ou mesmo o déficit. A economia está em recessão, e vai continuar assim por algum tempo até que alguma iniciativa heroica externa ou interna nos leve a um novo ciclo de produção e consumo. Acho que o Governo não assume de vez uma política anticíclica de tipo keynesiano por um motivo muito simples: teme as notas baixas das agências de risco alimentadas por nossos economistas de mercado, e determinadas a dobrar de joelhos nossa política econômica em nome de interesses especulativos globais.
J. Carlos de Assis – Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.
Lionel Rupaud
12 de novembro de 2014 12:26 pmAté concordo com o Assis a nível teórico, mas
nos últimos 4 anos a comunicação do governo nos assuntos econômicos (mas não só) foi terrível, e a “contabilidade criativa” nas contas públicas foi de uma tal estupidez sem equivalente.
E me dá calafrios ouvir o nome do Meirelles na Fazenda. Aí o Assis vai ter ataques de apoplexia!
Leandrotg
12 de novembro de 2014 12:30 pmO erro do autor do texto erra
O erro do autor do texto erra porque desconsidera que quando o governo perde credibilidade no mercado não consegue rolar a dívida nem mesmo em moeda local, como ocorreu no segundo mandato do FHC.
Nesse caso o que ele chama de “bobagem” se torna realidade.
Lúzio
12 de novembro de 2014 12:39 pmJá temos um novo Ministro da
Já temos um novo Ministro da Economia: J. Carlos Assis. Ele tem a fórumula para o crescimento econômico, com controle da inflação e com déficit público. Quero ver ele fazer tudo isso. Falar sem responsabilidade política de administrar é fácil.
Ozzy
12 de novembro de 2014 12:43 pmMundo mágico
Sinceramente, esse professor vive em outro mundo.
Então podemos incorrer em déficits eternos que basta emitir nova dívida para cobrir a anterior e os juros? A capacidade de endividamento do Estado Brasileiro é infinita? O aumento do endividamento não pressiona a taxa de juros? Ok, ok…
A melhor parte é quando ele defende excluir os gastos do PAC da conta porque eles levariam ao crescimento do PIB e à redução da relação dívida x PIB. Só esqueceu de combinar com os fatos, pois o PAC não faz o PIB crescer e a dívida só aumenta…
Athos
12 de novembro de 2014 1:05 pmAssis o governo tem sido
Assis o governo tem sido acusado de ser “criativo ” não por um motivo, são vários os casos de criatividade.
O superavit é o motivo da criatividade mas vc parece usar o motivo como argumento.
No mais…OK.
armandolo
12 de novembro de 2014 1:25 pmComeço a suspeitar que o
Começo a suspeitar que o autor, J.C. de Assis seja agente dos especuladores rentistas. Sim, porque o caminho apontado pelo mesmo em todos os seus comentarios nos levará aos tempos da inflação descontrolada. O que seria ótimo para especuladores em geral.
Desarmandolo
12 de novembro de 2014 8:22 pmComassim cara-pálida?
O operário apedeuta pegou uma inflação de FHC 2 vezes maior e segurou a bichinha diletra.
E a míRdia e seus neoliberttes não falavam nadica.
Por que agora, estável há anos, variando em +- 2%, ficaria “descontrolada”?
Só porque vc e a míRdia querem?
Ze Guimarães
12 de novembro de 2014 9:01 pmHá uma pequena diferença
Há uma pequena diferença entre 2003 quando Lula assumiu, e 2014 no Governo Dilma:
Em 2003 o preço de nossas comodities de exportação estava hiper valorizado, portanto o que o Brasil exportava valia ouro. Sem contar que estamos com um período de baixo crescimento economico mundial, e crise economica mundial, e nossas comodities estão subvalorizadas.
Lula assumiu o Governo com o dólar valendo R$ 3,50 , e o principal, Lula abaixou os juros da Selic ao máximo, chegando posteriormente a 7,5%, coisa que Dilma realmente não dá mostras de querer fazer.
Jorge Rebolla
12 de novembro de 2014 1:32 pmBasta o Congresso negar a revisão…
…do pedido de revisão da LDO! Deixará de ser bobagem ideológica e se transformará em gigantesca crise política.
O Congresso impedindo o pedido de revisão da lei orçamentária pedida pelo executivo abrirá o caminho para o impedimento: CRIME DE RESPONSABILIDADE COMETIDO PELA DILMA! A presidente terá descumprido a lei orçamentária.
Lei 1079
Art. 4º São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentarem contra a Constituição Federal, e, especialmente, contra:
VI – A lei orçamentária;
A cavalar incompetência da área econômica entregará um mandato presidencial quase completo ao PMDB se este assim o desejar. A Dilma não chegará ao carnaval no exercício das suas funções se não curvar-se a todas as exigências da base comprada…
Vinicius Mello
12 de novembro de 2014 1:48 pmUma crise peculiar
Em geral se espera “crescimento” sem contar a relação dívida PIB [1], que tem sido decrescente. Basicamente se quer crescer fazendo dívida.
Mas enfim, o Brasil está em uma “crise” com emprego [2]. com criação de empresas [3], com crédito [4] com renda per-capita crescente [5] e com reservas em dólar [6] etc. Hoje que o país é a sétima (7) economia do mundo, o desespero é maior do que quando era a décima segunda (12). Enfim, é uma “crise” peculiar.
[1] http://brasilfatosedados.wordpress.com/2014/08/19/divida-liquida-total-interna-externa-governo-em-do-pib-brasil-evolucao-1991-2014-recebida-e-entregue-governos-1991-2014/
[2] http://brasilfatosedados.wordpress.com/2014/10/14/emprego-e-desemprego-02-indice-de-desemprego-medio-indice-wb-brasil-x-uniao-europeia-eu-28-brasil-x-paises-ocde-brasil-x-estados-unidos-usa-evolucao-2004-2014/
[3] http://noticias.serasaexperian.com.br/numero-de-novas-empresas-no-brasil-bate-recorde-no-primeiro-semestre-do-ano-revela-serasa-experian/
[4] http://brasilfatosedados.wordpress.com/2014/08/22/credito-x-pib-percentagem-brasil-evolucao-1998-2014-credito-bancario-em-valores-nominais-r-bilhoes-brasil-evolucao-2000-2014/
[5] http://brasilfatosedados.wordpress.com/2014/10/09/renda-02-evolucao-do-pib-per-capita-em-dolar-u-brasil-1990-2014-ganho-ou-perda-por-governo/
[6] http://brasilfatosedados.wordpress.com/2014/08/22/divida-externa-total-reservas-creditos-internacionais-em-valores-nominais-u-bilhoes-brasil-evolucao-1995-2013-devedor-internacional/
altamiro souza
12 de novembro de 2014 2:08 pmesse post mostra como é
esse post mostra como é importante esaa discussão para um melhor
entendimento da nossa economia.
José Almeida de Souza Jr.
12 de novembro de 2014 4:06 pmTeoria da “Finança Funcional”
O professor J Carlos de Assis está coberto de razão, adepto que é da Teoria da “Finança Funcional”. http://www.ppge.ufrgs.br/akb/encontros/2009/45.pdf
Zanchetta
12 de novembro de 2014 6:21 pmAgora querem legalizar o
Agora querem legalizar o GOLPE DO ORÇAMENTO CRIATIVO…
Êita vida marvada!!!
Ze Guimarães
12 de novembro de 2014 9:10 pmAinda que isto seja verdade,
Ainda que isto seja verdade, se estas “bobagens” não forem levadas a sério, o risco Brasil subiria nas alturas, a credibilidade do Governo junto a orgãos financeiros o impediria de “rolar” suas dívidas (a não ser claro a juros altíssimos).
Por último o autor parece sugerir que o Governo poderia imprimir papel moeda sem lastro para honrar suas dívidas, mas isto já foi feito na era Sarney, e tinhamos inflação anual de 3 dígitos (mais de 1000% ao ano). Sem aumentar a produção, sem crescimento econômico, o papel moeda é só papel pintado sem valor. E para aumentar a produção e o PIB, precisariamos de uma política economica que incentivasse o crescimento, não um aumento da Selic com ocorreu agora.
maria rodrigues
13 de novembro de 2014 10:55 amO que aconteceu com este
O que aconteceu com este blog? Parou? Por que parou?
odila braga
22 de novembro de 2014 1:28 pmCredito ao governo Dilma, o Congresso dará?
O estranho é que nos 4 anos do governo da Dilma, todos os principais indicadores ficaram dentro das metas mais exigentes, e isto não gera motivo de credibilidade ao governo….de fato, não é estranha a proposta feita ao Congresso por um governo legitimo que cumpriu a metas economicas mais dificeis. Estranha é a persistencia da oposição em aceitar que esta politica economica, que sempre foi responsavel, prossiga seu trabalho e seu projeto que ganhou nas urnas.