9 de agosto de 2026

Estudo mostra que o mundo não caminha nem para a democracia liberal nem para o autoritarismo, mas para a estagnação

Índice de Berggruen analisa governança em 145 países entre 2000 e 2023 e identifica quatro "mundos" que raramente mudam de categoria
A study reveals that both intent and accuracy are important in assessing whether something is a lie.

Análise do Berggruen Governance Index 2026 mostra quatro grupos estáveis de governança global entre 2000 e 2023.
Hungria rejeitou autoritarismo em 2023; EUA e China mostram retrocessos e avanços distintos em governança e democracia.
Brasil recupera indicadores democráticos após 2023; futuro da governança depende de reformas graduais e fortalecimento institucional.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Um artigo assinado pelos pesquisadores Helmut K. Anheier, Edward L. Knudsen e Joseph C. Saraceno, publicado no Project Syndicate, questiona duas narrativas comuns sobre o rumo da política global: a de que o mundo estaria convergindo para a democracia liberal e a de que estaria sendo tomado por uma onda autoritária. Segundo os autores, nenhuma das duas se sustenta diante dos dados do Berggruen Governance Index (BGI) 2026, que avalia a governança de 145 países entre 2000 e 2023.

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Os pesquisadores citam dois episódios recentes como símbolos dessa tensão: em abril, os húngaros derrotaram nas urnas o projeto autoritário de 16 anos do então premiê Viktor Orbán, dando vitória esmagadora ao partido Tisza, de Péter Magyar. Um mês depois, porém, a cúpula entre o presidente americano Donald Trump e o chinês Xi Jinping, marcada por um discurso de “cooperação estratégica” entre as duas potências — reacendeu temores sobre uma nova era autoritária, agora protagonizada não por Estados marginais, mas pelas duas maiores potências do mundo.

Triângulo da Governança

O BGI organiza sua análise em torno de três dimensões, capacidade estatal, qualidade democrática (accountability) e qualidade de vida, formando o que os autores chamam de “Triângulo da Governança”. A partir desses critérios, os países se agrupam em quatro categorias que se mostraram extremamente estáveis ao longo do período: mais de 80% deles permaneceram no mesmo grupo entre 2000 e 2023, mesmo diante de choques como a crise financeira de 2008, a pandemia de Covid-19 e diversos conflitos armados.

Os quatro grupos identificados são:

  • Democracias consolidadas (39 países): pontuam bem nas três dimensões. Inclui a maior parte da Europa Ocidental, além de Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Uruguai e Costa Rica.
  • Estados de capacidade limitada (45 países): têm accountability democrática razoável, mas dificuldade em entregar qualidade de vida. Casos como Índia, Indonésia, Filipinas, Brasil e boa parte da América Latina se encaixam aqui.
  • Estados autoritários e híbridos (29 países): qualidade de vida comparável à do grupo anterior, mas com pouquíssima accountability democrática. Inclui China, Rússia, países do Golfo, Belarus e Vietnã.
  • Estados em desenvolvimento de baixa capacidade (32 países): piores índices em todas as dimensões, caso de Haiti, Paquistão, Papua-Nova Guiné e boa parte da África Subsaariana.

Segundo os autores, essas categorias tendem a se distanciar cada vez mais entre si na capacidade de enfrentar crises futuras, as democracias consolidadas, em tese, estariam mais preparadas para lidar com mudanças climáticas, pandemias e turbulências econômicas do que os demais grupos.

Autoritarismo

O estudo mostra que ingressar no grupo das democracias consolidadas é extremamente raro: apenas a Jamaica conseguiu isso nas últimas duas décadas, enquanto cinco países — Argentina, Botsuana, Hungria, Polônia e Hong Kong — deixaram esse grupo no mesmo período. Já entre os países autoritários e híbridos, a tendência é inversa: uma vez nesse grupo, dificilmente um país consegue sair dele.

Os autores detalham o retrocesso húngaro: o índice de accountability democrática do país caiu de 85 pontos em 2000 para 60 em 2023, reflexo do desmonte sistemático de controles institucionais promovido por Orbán. Ainda assim, a qualidade de vida da população se manteve relativamente estável, sustentada por gastos públicos financiados por dívida e subsídios da União Europeia, o que, segundo os autores, ilustra que bens públicos de qualidade não dependem necessariamente de boa governança democrática. A vitória eleitoral de Magyar em abril, ainda não capturada pelos dados do índice (que vão até 2023), sugere, no entanto, que o retrocesso democrático não é irreversível.

Já a China teve seu índice de accountability democrática reduzido de 29 para apenas 17 pontos entre 2000 e 2023, com aumento das restrições à sociedade civil. Apesar disso, o país elevou sua pontuação em bens públicos de 61 para 77, impulsionada por investimentos massivos em infraestrutura. Para os autores, esse crescimento foi viabilizado justamente pela ausência de controles institucionais, como tribunais independentes e imprensa livre, que costumam funcionar como freios, mas também como mecanismos de correção de erros ao longo do tempo. Os pesquisadores alertam que a estabilidade chinesa, assim como a russa antes de 2022, depende do crescimento econômico contínuo: caso ele desacelere, o regime tende a recorrer cada vez mais à repressão.

EUA

O artigo dedica atenção especial à trajetória americana. A pontuação de accountability democrática dos EUA, que chegou a 96 em 2013, caiu para 85 até 2020 durante o primeiro mandato de Trump, teve recuperação modesta sob Joe Biden (89) e deve retroceder ainda mais no segundo mandato trumpista, segundo os autores, citando decisões recentes da Suprema Corte que enfraquecem a Lei do Direito ao Voto e ampliam os poderes presidenciais.

A capacidade estatal do país também caiu de 80, em 2000, para 67 em 2019, com leve recuperação para 74 em 2023, ainda abaixo de várias democracias da Europa Ocidental. Os autores apontam que esse declínio se acentuou no atual governo, citando cortes promovidos pelo então “Departamento de Eficiência Governamental” (DOGE), liderado inicialmente por Elon Musk, em áreas como saúde pública e pesquisa científica, além do desmonte de mecanismos de controle sobre o Executivo. Já o índice de bens públicos se manteve relativamente resiliente (de 87 para 90), sustentado em parte pelo papel do setor privado na saúde e na educação, resiliência financiada, segundo o texto, por uma dívida pública equivalente a cerca de 120% do PIB.

Brasil

O Brasil aparece como exemplo de país que, mesmo permanecendo no grupo de “capacidade limitada”, demonstrou capacidade de autocorreção democrática. Após o escândalo da Operação Lava Jato abalar a confiança pública e impulsionar a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, o índice de accountability democrática do país caiu de 92 para 77 pontos até 2019, período em que também houve retrocessos em padrões ambientais. Com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência em 2023, esses indicadores voltaram a subir, a accountability democrática recuperou-se para 84 pontos, e o índice ambiental atingiu novos patamares.

Os autores identificam dois caminhos possíveis para melhorias duradouras na governança: o “grande pacto”, uma ruptura política em que elites ameaçadas cedem parte do poder em troca de um lugar na nova ordem, como ocorreu na Revolução de Veludo armênia de 2018, e o incrementalismo, marcado por reformas graduais, como nos casos da Jamaica e da Moldávia.

Para os pesquisadores, o futuro da governança global dificilmente será definido por uma onda democrática, um triunfo autoritário ou um marco geopolítico único, nos moldes da queda do Muro de Berlim. Os quatro “mundos de governança” identificados pelo índice têm se mostrado extremamente duradouros, e as distâncias entre eles tendem a aumentar diante dos desafios do século 21. Ainda assim, concluem os autores, os casos do Brasil e da Hungria mostram que o declínio institucional não é necessariamente permanente, e que as disputas políticas decisivas das próximas décadas serão vencidas ou perdidas não por grandes reviravoltas geopolíticas, mas pelo trabalho gradual e pouco glamouroso de fortalecer instituições e mecanismos de responsabilização democrática.

*Com informações do Project Syndicate.

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