16 de junho de 2026

Dilema das ideologias num mundo de incertezas, por J. Carlos de Assis

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Dilema das ideologias num mundo de incertezas

por J. Carlos de Assis

No insuperável “A Era da Incerteza”, o genial economista norte-americano John Kenneth Galbraith observou que, antes dos anos 70, todos, seja os da direita, seja os da esquerda, sabiam exatamente quais eram seus lados e para onde queriam ir. Essa “era de certezas” sucumbiu a partir dos anos 70 num turbilhão de crises e indefinições políticas, disseminando tremendas dúvidas ideológicas nas diferentes correntes de pensamento. Grande Galbraith! Soubera ele o que adviria no século XXI e ficaria escandalizado com o grau ainda maior de extremas incertezas que dominam o mundo contemporâneo, sobretudo no Ocidente.

Por exemplo, o que é hoje alguém de direita? Dizia-se de direita quem era um conservador, parado no tempo. Entretanto, os direitistas de hoje se apresentam como reformistas. Querem reformar a Previdência, as leis trabalhistas, o sistema de saúde. É fato que seu objetivo é retirar direitos sociais nessas áreas, mas isso nada tem a ver com conservadorismo de um ponto de vista semântico. Para a direita contemporânea o aparato criado com a economia do bem-estar social, em suas diferentes versões e diferentes escalas, deve ser destruído. Na terminologia deles, deve ser reformado.

Mas o que é alguém de esquerda? Dizia-se do esquerdista que queria reformas sociais. Foi graças às pressões de esquerda que se construiu na Europa o Estado de bem-estar social, produto de pactos sociais que consideraram a necessidade de apaziguar tensões internas com o medo do comunismo no plano externo. Entretanto, a esquerda hoje é essencialmente conservadora. Ela tem como prioridade conservar o que foi conquistado. A luta política que se trava no Brasil hoje, em torno da PEC-55/241, a PEC da Morte, nada mais é que a luta pela manutenção de direitos. Não ceder direitos é a prioridade dos movimentos sociais.

É claro que essa confusão no nível das agendas tem profundas repercussões psicológicas nos movimentos progressistas. As pessoas são obrigadas a raciocinar com condicionalidades. Sou da esquerda, sim, mas minha prioridade não é ter mais direitos, mas segurar os poucos que já tenho – pode perfeitamente justificar-se alguém que, no passado, certamente se classificaria como de esquerda reformista. A confusão ideológica não para aí. O esquerdista do passado não tinha nenhum escrúpulo em considerar-se revolucionário. Caso contrário, seria classificado como pequeno-burguês. Hoje poucos apelariam às armas.

Se essa confusão ocorre no plano ideológico, no nível mais fundamental das propostas econômicas ela vai à exacerbação. A esse respeito, nada mais exemplar que os governos Lula e Dilma. Não há muita gente que, sem muito reflexão, discordaria de que a “esquerda” brasileira chegou ao poder com o PT em 2002. Entretanto, que “esquerda” é essa, do ponto de vista econômico? A área econômica, desde o primeiro governo Lula, foi entregue a neoliberais: Antônio Palocci, na Fazenda, e Henrique Meirelles, no Banco Central. Com a saída escandalosa de Palocci, assumiu Mantega, que manteve, em seu longo mandato, as mesmas linhas neoliberais.

Meirelles continuou no posto chave do BC no segundo mandato como homem mais forte da economia, mantendo a taxa básica de juros em níveis estratosféricos. Dizer que isso é uma política de “esquerda” seria uma metáfora de mau gosto. No primeiro mandato de Lula houve uma tímida tentativa de mudar a política monetária, mas aparentemente sem consenso no governo, levando a um recuo. E, nos primeiros meses do segundo mandato, aconteceu o inacreditável: a nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda, numa capitulação completa e irredutível ao neoliberalismo.

Essas “incertezas” de um governo dito de esquerda que trocava de papel com a direita chegaram ao paroxismo quando a corrente dominante do PT, em desespero ideológico, produziu no início de 2015 um documento fulminando com a política econômica. De certo modo, isso enfraqueceu Dilma e preparou o terreno para sua queda, na medida em que lhe faltou âncora política em sua própria base. Foi uma situação de tragédia grega: o PT fez o que tinha de fazer, por razões ideológicas, e Dilma reagiu da única forma que podia reagir, a saber, declarando que o PT não era governo. Então, de que lado ficaria a “esquerda”?

Vou tentar responder a essa pergunta. Os que se identificam, hoje, com os ideais profundos da Revolução Francesa – liberdade, igualdade, fraternidade – podem atuar politicamente, com eficácia, sem se colocar na perspectiva da velha topologia das assembleias de Paris. Em lugar de uma dicotomia que perdeu o sentido, seria mais oportuno abraçar com simplicidade os ideais de promoção da justiça social, tão valorizados pelo Papa. Em economia, isso significa um Estado forte, um sistema tributário progressivo, e uma política clara de promoção do bem-estar social. Querem um bom modelo? A China progressista, para a economia; e a Índia democrática, para o sistema político.

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12 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    21 de novembro de 2016 12:36 pm

    Direita anti-reformista e esquerda anti-revolucionária?

    “A burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção, portanto as relações sociais todas. A conservação inalterada do antigo modo de produção era, pelo contrário, a condição primeira de existência de todas as anteriores classes industriais. O permanente revolucionamento da produção, o ininterrupto abalo de todas as condições sociais, A INCERTEZA e o movimento eternos distinguem a época da burguesia de todas as outras. Todas as relações fixas e enferrujadas, com o seu cortejo de vetustas representações e intuições, são dissolvidas, todas as recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e os homens são por fim obrigados a encarar com olhos prosaicos a sua posição na vida, as suas ligações recíprocas.” – Marx e Engels

    “As revoluções burguesas, como as do século XVIII, avançam rapidamente de sucesso em sucesso; seus efeitos dramáticos excedem uns aos outros; os homens e as coisas se destacam como gemas fulgurantes; o êxtase é o estado permanente da sociedade; mas estas revoluções têm vida curta; logo atingem o auge, e UMA LONGA MODORRA SE APODERA DA SOCIEDADE antes que esta tenha aprendido a assimilar serenamente os resultados de seu período de lutas e embates.” Marx

    Quer dizer que antes a direita não era reformista nem a esquerda era revolucionária, hoje é que a direita se tornou reformista e a esquerda conservadora?

  2. Wilton Cardoso Moreira

    21 de novembro de 2016 12:48 pm

    Direita e esquerda visam a manutenção do capitalismo

     A esquerda social-democrata e a direita (neo)liberal é uma oposição dentro do capitalismo.  A esquerda soft não quer outro sistema, mas tenta ingênua ou cinicamente humanizá-lo, enquanto a direita é o sistema nu e cru sem máscara alguma.

    Em momentos de alta econômica a esquerda luta por mais direitos (que se resumem em distribução de capital). Em momentos de baixa ela se torna defensiva ou simplesmente governo de administraçaõ de crises. É melhor dar esta administração a quem tem relações com as chamadas “bases sociais”, coisa que as as nossas elites, em sua cegueira ideológica, não entendem, senão bancariam Lula novamente, que seria um ótimo governo de administração de crise, ao estilo Obama.

    Em relação à direita, seu mote é um só: represntar a lógica do capital. Por isso ela sempre defende acabar com todas as amarras que impeçam o capital de circular e se multiplicar. Mesmo que estas amarras sejam pessoas – se atrapalham, que sejam postas de lados.

    Mas tanto disreita quanto esquerda trabalham dentro e para o sistema capitalista, adoram o trabalho, o consumo e a ideia de que os homens devem sacrificar sua vida para o capital.

    Mais perspicazes que muitos intelectuais alguns artistas intuíram que tanto esquerda quanto direita são muito parecidas, quando se trata de moer carne humana para alimentar o capital:

    [video:https://youtu.be/C_Z92ee_rEw%5D

    1. Veri

      21 de novembro de 2016 2:01 pm

      Distribuição de capital ou distribuição de renda?

      Caro Wilton,

      Eu acho que, ao afirmar que ‘em momentos de alta econômica a esquerda luta por mais direitos (que se resumem em distribução de capital)’, você se engana, pois na verdade a esquerda lulopetista não tentou distribuir capital na acepção de meios de produção, ela se limitou a distribuir renda, a atirar aos deserdados as migalhas do banquete burguês.

      Mas a crise de acumulação do capital está tão profunda que a elite não pode se dar mais ao luxo de abrir mão nem mesmo das migalhas do seu banquete. É por isso que eles voltaram a roer o osso.

    2. rdmaestri

      21 de novembro de 2016 2:04 pm

      Wilton, vamos direto para o final.

      Quem não quer a mudança é direita, direita moderada ou retrógrada, o resto a bobagem.

      1. Athos

        21 de novembro de 2016 4:42 pm

        Bobagem
        É ficar com papo retrógrado sobre elites, que é a forma para introduzir a guerra de classes para enfim chegar a a revolução.

        Isso, quando dito por um idiota, é apenas uma idiotice. Mas quando este tipo de política é feita por inteligentes, que sabem que nunca vai acontecer (sem capital), é sabotagem!

        E é sobre isso que ele está falando. Os líderes de esquerda sabem que o que pregam é inexequível.
        Então, o que pretendem mesmo é se perpetuar no lugar(poder), para no fim, perder.

        Precisamos de uma ruptura na dicotomia entre esquerda e direita. De um plano para o Brasil, sem a dicotomia dentro.
        Mas…
        Isso só pode ser feito tendo algum princípio como base. Se não é ideológico, se não vem da dicotomia, virá de onde?
        Isso é uma oportunidade que está no ar para ambos os lados ideológicos.

        É o momento para o Nacionalismo juntamente com valores da Igreja!
        Porque não existe em TODO O UNIVERSO CONHECIDO outras fontes de valores que possamos utilizar.

        Esse é o vento que leva o mundo no momento e vai chegar por aqui.

        A alternativa a Lula à esquerda é completamente fora dos debates que deveriam estar sendo feitos.

        O único debate que acontece no mundo hoje é sobre os limites aos poderes das empresas que hoje se contrapõe a Governos.
        E….a identificação destas forças.

        E a esquerda não participa deste debate….porque está presa em um momento anterior da discussão, parou num ponto ultrapassado.

        Não há esperança nas esquerdas!
        Precisamos de um MILITAR para concorrer a Eleição por um partido de esquerda não radical!
        O Brasil precisa, não os políticos de esquerda!

        A bandeira está lá e é de quem pegar primeiro!

        1. Rui Ribeiro

          21 de novembro de 2016 8:16 pm

          Athos que prender raposas e galinhas no mesmo galinheiro

          Então, Athos, você acha que prender galinhas e raposas no mesmo galinheiro, sem qualquer ruptura, é a alma do negócio, né?

          O lobo sempre tentará convencer o cordeiro de que seus interesses são complementares e não contraditórios.

          Viva a luta de classes!

          1. Athos

            22 de novembro de 2016 3:05 pm

            Vc
            Está a serviço do Capital!

            Tendo consciência disto ou não….

            O que vc deveria estar se perguntando é….quem financiou os bolcheviques.

            E porque o judaísmo não é uma das 55 religiões permitidas na China.

            E porque todo o Governo anterior da China está PRESO.

            ….um dia vc concluí. Mas tem que estudar a história do mundo…..sem isso….vai continuar a serviço do Capital…como todos de esquerda!
            Sabe porque? Porque estamos no século xxi…e tem gente que se deu o trabalho para IDENTIFICAR quem são o que as esquerdas chamam de as ELITES do mundo.
            É uma força que não tem nacionalidade mas que já foi identificada! São indivíduos!

            E…. são eles que financiam a luta de classes.
            A luta de classes foi CRIADA já tendonum vencedor! O vencedor é aquele que controla as armas! É e sempre foi assim!

            Entendeu??, vc é financiado por aqueles que pensa combater!

            É por isso que aquele cara novo de esquerda sempre é o radical que não quer conversar….

            Falta vc concluir, como Hitler concluiu, que não há revolução sem armas! E que se vc tentar,… normalmente quem tem o monopólio das armas vence. Só por isso ele disputou E venceu uma eleição. Porque não tinha o monopólio das armas!

            Vcs tentaram as urnas e…. Voltou ao mesmo ponto.
            Porque não conseguiram as armas….

            Então, voltando ao assunto de COMO as esquerdas PODEM conquistar ARMAS….

            O Nacionalismo é o único caminho!

            Se…..se….vc ousar pensar…..vai concluir que é isso mesmo.

            Como já disse antes, a bandeira está la para quem quiser pegar…..
            E tá cheio de carecas por aí….Se a esquerda não quer…. alguém vai pegar.

            Lembre se que a opção foi das esquerdas!

    3. Athos

      21 de novembro de 2016 4:17 pm

      Exatamente
      Essa é a maior verdade que a ESQUERDA combate a ferro e fogo!

      A verdade é que a ESQUERDA é vendida!

      Meu método de identificação é simples: falou sobre elites, é a favor do status quo.

      Precisamos de um plano para o Brasil!

  3. Silvano Jose da Silva

    21 de novembro de 2016 4:30 pm

    cacoetes de economistas

    Leia direito:

    Norberto Bobbio – Direita e esquerda

    Pegue para ler:

    Simon Rodriguez – Inventamos o erramos

    Dary Ribeiro – O processo civilizatório

    Veja om atenção o filme em cartaz:

    As Marias

    Você vai se arrepender do que escreveu, principalmente no último parágrafo.

    Os povos da América não têm pátria. Não têm pai.

    O colonizador chegou para estuprar. O nascido tem vergonha da mãe e ódio do pai, este desconhecido.

    Virou escravo de ganho, bandeirante, capitão do mato, Antônio das Mortes – se entreeeega Corisco!………..

    Já houve quem quisesse abolir a história. Corre solta a vontade de abolir a política.

    Agora vejo a vontade de acabar om a geografia. Norte e Sul vão acabar também?

    Desorientação geral?

    Lo siento, pero abajo del Ecuador, no hay salida: o inventamos o erramos!!!!

    Estamos en el Sur. Somos el Sur. El norte es la dereha. El sul, la isquierda!

    Los modelos están falidos.

    Muchos saludos compañero!

  4. Veri

    21 de novembro de 2016 6:16 pm

    O esquerdista se define pelos seus atos, não por suas palavras

    Se o cara é esquerdista, ele deve ser favorável à luta de classes e deve lutar pela expropriação dos expropriadores e socialização dos meios de produção. O que define o esquerdista não são suas palavras, mas seus atos.

  5. Assis Ribeiro

    21 de novembro de 2016 10:31 pm

    J Carlos, como pode não haver
    J Carlos, como pode não haver dicotomia, se:

    ” Em lugar de uma dicotomia que perdeu o sentido, seria mais oportuno abraçar com simplicidade os ideais de promoção da justiça social

    Em economia, isso significa um Estado forte, um sistema tributário progressivo, e uma política clara de promoção do bem-estar social. ”

    e, como vc tb afirmou:

    “os direitistas de hoje se apresentam como reformistas. Querem reformar a Previdência, as leis trabalhistas, o sistema de saúde. É fato que seu objetivo é retirar direitos sociais ”

    1. Athos

      22 de novembro de 2016 3:12 pm

      “os direitistas de hoje “….
      Exatamente o meu ponto.

      Os direitistas de hoje….

      Mas os de ONTEM queriam e chegaram até a pegar em armas por um ESTADO FORTE.
      E a esquerda de HOJE, não quer papo com a direita de ONTEM.

      Sabe porque? Aquelas merdas de sempre….o massacre de armênios.
      Os massacres dos oficiais poloneses….

      O mesmo papinho de sempre. Isso é propaganda!

      Não pode existir preconceito IDEOLÓGICO ou RACIAL para pensar o futuro.

      A esquerda precisa se reciclar urgentemente porque já não representa NINGUÉM com armas ou Capital!

      Ou seja, precisa de um mínimo de INTELIGÊNCIA! E humildade para saber que não vai chegar lá!

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