
Enviado por Alfeu
do Conexão Jornalismo
Demissão em massa de jornalistas, silêncio dos governos e Comunicação em frangalhos
Por Fábio Lau
O jornalismo já esteve na UTI. Hoje, recebe a extrema unção. Há quem diga por aí que a atividade está se renovando, reinventando. É possível. Mas o que se inventa e reinventa, na prática, está muito distante do jornalismo castiço ao qual os jornalistas de hoje, aqueles que têm mais de 35 anos, entendem como atividade profissional capaz de sustentar uma família.
Projetos na internet, como blogs, sites e outras ferramentas agrupadas em rádio e vídeo, eventualmente conseguem sobreviver com seus próprios recursos. Patrocínios, publicidade do Google, assinaturas e outros serviços. Mas não são muitos. Aliás, bem poucos.
O mercado tradicional do jornalismo encolhe e já vê o padre diante de si a ministrar o ritual voltado aos que estão à beira do desencarne. Globo, Estadão, Folha e Editora Abril, carros-chefes deste negócio chamado Comunicação há décadas, demitiram quase mil profissionais só este ano. E não se sabe se a redução da folha salarial foi o suficiente. Se de fato as dispensas atenderam a uma necessidade de reorganização orçamentária… jamais saberemos. Mas, na prática, os jornalistas foram dispensados. E o mercado à sua volta é assustador.
Se há um meio possível de se criar modelo de Comunicação capaz de absorver a mão de obra altamente qualificada jogada às ruas, este modelo tem que passar necessariamente pelos poderes legislativo e executivo – em todos os âmbitos (federal, estaduais e municipais). A publicidade governamental voltada para a velha mídia, nos últimos dez anos, bateu R$ 5 bilhões, segundo estudos recentes. Só a Rede Globo recebe em média R$ 500 milhões/ano. São cinco grandes grupos, e mais uma dezena de empresas, a abiscoitar o bolo. E a enxugar a máquina.
Não é errado imaginar que a folha salarial das empresas, somadas, com todos os custos e onerações trabalhistas, não representem 2% deste volume (R$ 100 milhões). Então, pelo que podemos compreender, as empresas que recebem verba oficial para publicidade, aumentando assim seus recursos, usam a verba para ampliar seu negócio, enriquecer os patrões e diretores com premiações e, num último momento, demitir e indenizar. A tônica é não deixar ocorrer a redução do lucro – o que, nesta contabilidade, representaria “prejuízo”.
Qualquer atividade profissional produtiva, quando ameaçada na sua sobrevivência, causa clamor público e reação social – motivada, claro, pelos veículos de Comunicação. Professores, arquitetos, produtores e até cobradores de ônibus. No caso dos jornalistas, afora a divulgação por redes sociais ou sites independentes, as demissões são mantidas em segredo. É o lado vergonhoso que os empresários não querem ver divulgado por receio de que o enxugamento revele incompetência ou sovinice.
Entretanto, para espanto de quem assiste de perto o fim de uma atividade profissional como a do Jornalista, não há mobilização nem mesmo da própria categoria para tentar reagir e sobreviver. Ao contrário: os que nela permanecem seguem para o abatedouro de forma reverente, educada e silenciosa, de modo que se cumpra o destino… Sem escândalo.
Recentemente, o Sindicato do Rio, ao convocar os profissionais para uma reação e ação de preservação do emprego, foi solenemente ignorado. E muitos que deixaram de atender à convocação se viram lá para cumprir o rito da demissão. Preferiram o sindicato no percurso do apocalipse pessoal.
Quando jornalistas morrem, e têm morrido a uma velocidade surpreendente nos últimos anos, há uma legítima comoção a tomar redes sociais e cerimônias de sepultamento. Mas, na prática e subjetivamente, a morte do jornalista se dá muito antes da parada cardíaca ou morte cerebral. Ao ser banido da sua atividade, e em geral isso ocorre quando ainda vive seu pleno vigor físico e intelectual, o jornalista experimenta o princípio de morte.
Seus textos, antes elogiados, já não são curtidos, lidos ou compartilhados. Seu celular se torna objeto obsoleto e os amigos se afastam porque, afinal, o desgarrado não sabe das últimas das redações. O quadro, trágico e nostálgico, é dito e repetido por “coleguinhas” que convivem com este missiva. E, o que é mais cruel, não tarda e meus confidentes recebem a companhia dos que há pouco lhe abandonaram. É a roldana do “moinho de gastar gente”, de Darcy Ribeiro.
Leia aqui: Dilma avisa que não fará democratização da mídia
O sacode a poeira depende de quem está fora, de quem já superou a ausência do mercado, mas principalmente de quem ainda está dentro dele. Ao prestigiar iniciativas independentes, o jornalista estará dando um recado aos futuros algozes e também patrões de que há vida após a morte imaginada. A estes patrões e chefes que os veem como potencialmente dispensável.
Mas enquanto ele duvidar da capacidade de sobrevivência e inventividade da própria categoria, não conseguir se imaginar fora do mercado tradicional, boicotar e se mostrar indiferente às novas iniciativas, o jornalista estará se postando ao lado dos lobos. Dos lobos do homem.
Roque
16 de abril de 2015 12:22 pmextrema unção
Viva o jornalismo e abaixo a ditadura dos grandes órgãos de imprensa que manipulam, caluniam, distorcem, deseducam a população. É só olhar a estapafúrdia crença da elite que se manifestou já por duas vezes este ano, segundo pequisas efetuadas. Quero que morra esse jornalismo e, de prefeência, sem “extrema unção”….
eu
16 de abril de 2015 12:22 pmSerá que agora os que estão
Será que agora os que estão na rua perceberão que são apenas trabalhadores?
E que quando atendem aos seu patrões na guerra iniciada os unicos que perdem são os trabalhadores…
Maria Rita
16 de abril de 2015 1:29 pmConheço bem essa história,
Conheço bem essa história, Mesmo sendo uma profissão com certo glamour, o século XX, aquele que garantiu as rápidas mudanças tecnológicas também foi o cenário onde os chamados RPs mudaram seus perfis e passaram as ser os administradores e gestores a garantir a cara do mercado às suas empresas. Nos anos de 1970 era possível ver alguns bons jornalistas que não acompanhavam a modernização do tal mercado, serem encostados até não resistirem e apelar para a demissão. Os patrões não suportavam pagar a dispensa conforme a lei e perder um dinheiro que sempre viram como seu. Já havia aqueles cursos internos, alguns muito bons, onde jornalistas eram selecionados pelas próprias empresas e era fácil a substituição de um profissional. E tinha muita gente que gozava a profissão dizendo que o sujeito que não deu para nada acabou no jornalismo. O filme Os Paqueras, o personagem de Reginaldo Farias ao ser perguntado o quê ele fazia, dizia que era excedente do curso de medicina, então foi parar no jornalismo. Quantos passaralhos passaram pelas redações, gerando até uma peça de teatro. O emprego nunca foi seguro. Nos anos pós Diretas Já, aí sim, teve oficialmente o início do começo do fim. Outro indicativo da corda bamba que há muito rondava a carreira, eram as discussões intermináveis sobre o fim ou não do diploma de jornalista. Também é possível analisar os reflexos da queda de prestígio e de direitos do jornalista nos modismos implantados nos cursos de jornalismo das universidades. Qual terá sido o currículo que mais se manteve fiel à profissão, alguma coisa mais próxima do que uma maioria julgaria digno de exercer sem perder o senso crítico? Incluindo os patrões, que até um certo ponto, exigiam uma boa formação e um mínimo de talento. A maioria desqualificava as universidades. No entanto, acredito que alma de jornalista é como alma de artista, resiste enquanto viver.
edson 2
16 de abril de 2015 2:01 pmÉ o fim do jornalismo tradicional
Sr. Fábio, sem entrar no mérito de vosso texto, gostaria de deixar minha humilde opnião: ” Infelizmente o profissional jornalista autêntico, deixou de existir na mídia bandida brasileira já faz uns 15 anos, o que temos hoje na mídia são pseudos jornalistas ( sem opinião própria apenas a repetir o que lhe é ordenado, tornou-se um papagaio de pirata, uma pena amestrada…. triste fim para os policarpos quaresma). Que me perdoe se usei indevidamente o termo “policarpo quaresma”.
Um abraço!
joão adalberto
16 de abril de 2015 2:25 pmSanta hipocrisia
Vocês queriam que o PIG seja extinto sem desemprego? A nova mídia de “esquerda” ataca a imprensa tradicional numa escalada sem trégua , deixando bem claro que a sua derrocada total é a única solução para a cura de seus males. Esqueceram que, como numa avalanche, os primeiros que caem são os barracos,isto é, os empregados.
Ivan Arruda
16 de abril de 2015 6:06 pmPodemos viver sem jornais,
Podemos viver sem jornais, mas não sem jornalistas. Se temos jornalistas que levaram ao descrédito seus jornais e veículos, temos jornalistas que não perderam – até aumentaram – suas credibilidades. Num mundo onde as sacanagens e manipulações se acentuam, precisamos de quem as desmascarem e nos mostrem os equívocos e possíveis rumos.
CB
16 de abril de 2015 7:38 pmhttp://www.brasil247.com/pt/2
http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/177508/Crise-da-mídia-impressa-chega-à-Veja-40-demissões.htm
Eduardo Cunha
28 de abril de 2015 1:02 pmFim do Jornalismo
Na verdade o que está acabando é o modelo de jornalismo, que se processava como verdade absoluta e so mostrava pontos de vista “retilinios”. Hoje com os diversos meios de comunicação e informação e desinformação, não resta mais espaço para “Jornalistas”, pois cada cidadão ou não cidadão pode mostrar sua reportagem e sua verdade. É muito fácil hoje ficar escrevendo e fornecendo informações e ponto de vista, principalmente críticas tendendiosas com segundas intensões em uma poltrona confortável no ar condicionado.
Está falatando comprometimento com os fatos e com os envolvidos. É muito fácil fazer criticas a que se está fazedno algo ou tentando mudar algo enragaido nos hábitos. Recomendo aos jornalistas lerem o livro ‘”Quem comeu meu queijo” e cair na real. Não queremos mais saber quem está “reinventando a roda”, mais sim quem está tentando criar um novo “modelo de tranporte”.
Não se faz um omelete sem quebrar a casca, não se pode acerta todas, mas tem que ser feito. Acordem ‘”Jornalistas”, estamos necessitando de algo novo, corajoso, verdadeiro, mais Tin Lopes, mais realidade.
Chega de papagaios que fica atirando pedra em arvores que dão fruto, pois todos sabem que nem todos os frutos são bons, mais alguns fazem valer a pena do esforço. Se é para ficar criticando quem faz, é melhor ficar calado ou procurar outra profissão.
Chega de pontos de vistas e opiniões desitimulantes que alimentam o modelo que aí está.
Acorda companheiro, o mundo está mudando, chega de mesmimos, queremos verdades, apoio e críticas construtivas para a mudança. Se não tem nada de positivo que sirva de retroalimentação para fortalecer o Sistema de renovação, fiquem calados ou vão se informais mais sobre o tema e as diversas maneiras de se conseguir resultados positivos para manter a “maquina funcionando”. Ninguem é Deus, muito menos os Jornalistas “comedores de rosquinhas”.