
Faz parte do jogo do poder noticiar os corrompidos, não os corruptores. Dois exemplos: 1º) Veja o escândalo do ISS no município de São Paulo: a mídia mostra os fiscais corruptos, quase nunca nós, os corruptores. Esse é um dos mais eficientes truques do exercício do poder; 2º) Todos ouviram dizer que Eduardo Cunha teria recebido 5 milhões de dólares de propina. Você sabe quem teria pago essa propina? Pouca gente sabe. Os delatores dizem que foi a Samsung e a Mitsui. As coisas estão mudando no Brasil em nosso desfavor. Sempre há cretinos que querem mudar as regras do jogo que sempre nos foram muito favoráveis. A instituição da impunidade tem tradição e merece respeito.
Se existe um campo em que nossa organização neofeudal vem conseguindo uma eficaz comunicação (doutrinação) com a população, esse é o da grande mídia, nossa fiel aliada na arte das manipulações. A regra de ouro é a seguinte: não é preciso propagar mentiras, basta não contar toda a verdade. O assunto corrupção é, como todos podem imaginar, um dos mais sensíveis para nós, porque pode implicar alguma vulnerabilidade para nossa estrutura (que os maldosos apregoam ser mafiosa). Vemos nisso uma calúnia e um exagero. Mas é inegável que neste campo da cleptocracia contamos com uma forte e triunfante tradição.
São mais de 500 anos de prática contínua, sendo Pero Borges, o primeiro corregedor-ouvidor-geral da Justiça, nomeado pelo rei em 17/12/1548, juntamente com Tomé de Souza, o Governador-Geral, um dos nossos baluartes inesquecíveis: foi nomeado para ca depois de ter surrupiado grande soma de dinheiro na construção de um aqueduto, em Elvas (no Alemtejo) (veja E. Bueno, em História do Brasil para ocupados, organizado por L. Figueiredo, p. 259). Para o cidadão comum e os neovassalos (neoservos ou neoescravos), que contam com 7,2 anos de escolaridade em média, no entanto, sempre é bom recordar: a História explica, mas não escusa. Dos deveres éticos e morais somente nós, os senhores neofeudais invisíveis, estamos dispensados.
Por meio da corrupção já alcançamos alguns trilhões de dólares ao longo desses cinco séculos de neofeudalismo. A corrupção, ao lado do parasitismo (extrativismo e exploração de tudo e de todos – veja Manoel Bomfim, A América Latina), são dois dos grandes esteios de sustentação dos nossos prósperos negócios. O Brasil não seria jamais oligarquicamente rico (com serviçõs públicos deploráveis) se não existissem tais fontes. A corrupção, no entanto, deve sempre ser noticiada como coisa do funcionário público, do Estado, das empresas estatais, dos políticos.
Quando se divulga que mais da metade dos parlamentares eleitos em 2014 tem problemas com a Justiça (clique aqui para ver a lista dos políticos e suas implicações policiais ou judiciais), isso reforça nosso discurso: oferecemos a prova de que eles é que são os exclusivos corruptos (não nós). Trata-se de uma propagação massiva do discurso da antipolítica (somente os políticos não valem nada: essa é a mensagem diária). Dizemos que a corrupção está indissoluvelmente (e exclusivamente) ligada aos políticos. Nós, os senhores neofeudais corruptores, continuamos na sombra. O poder é exercido dessa maneira.
Eis uma amostra do nosso discurso (O Globo 26/7/15: 18): “Grande peso do Estado na economia explica a corrupção: a Polícia Federal, desde 2002, faz mais operações contra os criminosos do colarinho branco porque a corrupção aumentou muito no Brasil. E por que a corrupção aumentou? Basta ver os dois maiores escândalos dos últimos tempos: mensalão e petrolão. Em ambos o epicentro reside nas empresas estatais. A corrupção é imensa no Brasil em razão da grande participação do Estado na economia, sendo as estatais eficazes gazuas de arrombamento de cofres públicos; essas empresas oferecem múltiplas oportunidades de falcatruas; o petrolão lulopetista é a prova concreta de que há uma relação direta entre estatização e corrupção; nestes 13 anos de poder lulopetista um grupo político voraz encontrou nessas empresas amplas oportunidades de financiar, com caixa dois, seu projeto político e eleitoral; sem essa grande participação do Estado em setores que movimentam muito dinheiro, não haveria como o PT e aliados se financiarem com propinas”.
Não precisam falar mentiras, bastam as meias verdades. Não se joga a culpa em nós, os corruptores, sim, nos corrompidos. Não se fala de dezenas de países estatalistas (como os escandinavos) onde tudo funciona bem, com baixíssima corrupção. Isso acontece em virtude do capitalismo distributivo (que é uma palavra impronunciável aqui). A lógica é controlar a patuleia (as massas rebeladas) com informações rasas. Jamais botar o dedo na estrutura do poder. O buraco é mais em cima. Mas Ícaro sabe que não pode se aproximar do Sol.
Luiz Flávio Gomes é jurista e professor. Fundador da Rede de Ensino LFG. Diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Foi Promotor de Justiça (1980 a 1983), Juiz de Direito (1983 a 1998) e Advogado (1999 a 2001).
JB Costa
30 de julho de 2015 5:36 pmO belo artigo escrito por
O belo artigo escrito por esse jurista vem exatamente ao encontro dos argumentos levantados por alguns de que por trás dessa sanha moralista só pode haver o que moralismo produz: muita hipocrisia.
Nessa Operação Lava a Jato, por exemplo, o maior destaque, o foco, foi sempre a Petrobras, seus executivos e funcionários, e a classe política. Essa fixação por ânimo ideológico é tanta que é possível até se ler nas entrelinhas do que sai pela mídia ideologizada uma certa “pena”, “compaixão, condescendência dos corruptores, ao ponto de podermos até entendê-los como “vítimas” do Leviatã.
Claro que fica fora disso eventuais abusos cometidos pelos órgãos de repressão contra quem quer que seja. O fulcro do texto não é esse.
Ataíde Coutinho
30 de julho de 2015 5:55 pmexcessao !
O caso do cartel dos trens em SP em que a justiça recebeu copia das declaraçoes dos corruptores com nome , posiçao e valor pago foi um ponto fora da curva ?
Hcc
30 de julho de 2015 6:32 pmPor favor, esqueçamos que o
Por favor, esqueçamos que o dono da notícia, a globo, nasceu e properou com a corrupção e antidemocracia patrocinando o pior do golpe de 68; esqueçamos que ela sempre foi contra qualquer governo do povo, tipo brizola; esqueçamos que ela mentiu, forjou chantagens, senpre que quiz, sem problemas; esqueçamos que ela deu conselhos firmes e obdecidos até a autoridades supremas; esqueçamos sua campanha feroz contra o Lula a Dima e o pt.
Com nada esta dando certo e eles estão morrendo, chegou a hora, por desespero diante do fracasso, de negar o próprio país. Nem mais “apesar de” vai ter. Agora é só reace total e definitivo de tudo o que é ruim para a destruição do país. O jornaleco capacho do pig, o estado de minas, em fase de coma pré-morte, destaca hoje que o país vai descer a 13a. posição no ranking mundial. Vai dar tudo errado e vamos à miséria.
Vocês ainda vão ter saudade de quando ela era só contra o povo e o pt.
João de Paiva
30 de julho de 2015 6:42 pmO jurista escreveu bem. Os
O jurista escreveu bem. Os leitores deste blog sabem que os corruptores são protegidos pela mídia comercial (ela mesma corruptora) e que não são objeto de reportagens denunciadoras. O jurista deveria também elencar a contribuição do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Fedral e outros como agentes, eles mesmos também, corruptores e corruptos. Os corruptores privados são empresários, industriais, grandes fazendeiros, donos de veículos de comunicação, etc. Num próximo artigo espero que o jurista não se esqueça de citar os diretores da trama que visa o desmonte do Estado Brasileiro e dos setores estratégicos, como o da energia nuclear e do petróleo. Os diretores falam inglês e a bandeira dles não é verde-amarela, mas branca, vermelha e azul
OBS
30 de julho de 2015 8:18 pmEle esquece de falar que
Ele esquece de falar que alguns acusados como “corrompidos” podem ser inocentes. Não assino nada embaixo do que fala o Gomes. Vejo sua atuação no jornal da tv cultura.
Lucinei
30 de julho de 2015 10:03 pmPois é: queriam que o PT
Pois é: queriam que o PT estivesse até hoje fazendo campanha de megafone nas portas das fábricas. Aí a “democracia” estaria nos conformes… Com o dnheiro de campanha só pra eles, pra dizerem que são muito inteligentes e “competentes”… Que vão nos salvar do “comunismo internacional”, da “cubanização” e do “boliarianismo”; ou de algum sinistro “projeto de poder” dos comedores de criancinhas…
… Gente vulgar….