19 de junho de 2026

O grande acordo das elites, por Luiz Carlos Bresser-Pereira

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da Folha

Luiz Carlos Bresser-Pereira

O Brasil precisa de um acordo nacional que tire a economia do país da armadilha do “grande acordo” das elites, que inviabiliza o crescimento

O Brasil precisa dramaticamente de um acordo nacional que recoloque os preços básicos (macroeconômicos) no lugar certo e faça o Brasil retomar o desenvolvimento.

É necessário que a taxa de juros básica volte a ser civilizada; que a taxa de câmbio volte a ser competitiva; que a taxa de lucro esperada se torne satisfatória para os empresários e que eles voltem a investir; que os salários cresçam de acordo com a produtividade; e que a taxa de inflação se mantenha em nível aceitável.

O país precisa de um acordo nacional que tire a economia da armadilha de juros altos, do câmbio apreciado (baixo) e da taxa de lucro esperada insatisfatória que inviabiliza o crescimento.

Esse acordo não vai unir a todos. Ou será um acordo desenvolvimentista, que reunirá empresários, trabalhadores e a burocracia pública em torno das ideias de nação e desenvolvimento, ou será um acordo liberal, reunindo rentistas, financistas e interesses estrangeiros e atenderá apenas aos interesses dos ricos. Ou continuaremos a nos defrontar com um vazio político, como temos visto nesta campanha, na qual os candidatos não têm uma proposta.

Não existe um acordo nacional, mas existe um “grande acordo” que pode ser enunciado de maneira bem simples: aos rentistas, juros altos; às grandes empresas, taxa de juros subsidiada do BNDES; aos pobres, despesas sociais elevadas; e para todos, câmbio apreciado.

Desse acordo perverso só uma proposição coincide com o bem público: as despesas sociais elevadas. Elas constituem um salário indireto eficiente e mais justo porque proporcionam a elevação do padrão de vida de forma mais igual e a um custo menor do que o que haveria se ele se expressasse em salários diretos.

Um nível de taxa de juros real elevado é a demanda dos capitalistas rentistas, que vivem de juros, aluguéis e dividendos, e dos financistas, que administram a riqueza dos primeiros. É a demanda da coalizão de classes neoliberal, que perdeu grande parte do seu poder nos países ricos desde que suas políticas causaram a crise de 2008, mas que ainda continua poderosa no Brasil.

Eu falo em “nível” da taxa de juros porque o Banco Central precisa conservar seu poder de conduzir a política monetária. Em vez de fazer que ela varie em torno de 5% reais, ela deve variar em torno de, no máximo, 2% reais.

Os juros subsidiados do BNDES (a TJLP, Taxa de Juros de Longo Prazo) é a demanda das grandes empresas que condicionam seus investimentos a uma taxa de juros moderada. Como o poder rentista impede a diminuição do nível da taxa de juros, a solução necessária é a TJLP. Mas como ficam, então, as pequenas e médias empresas? Poucas têm acesso ao BNDES. E como ficam todos os que pagam impostos?

Finalmente, uma taxa de câmbio sobreapreciada no longo prazo aumenta artificialmente os rendimentos de todos, sejam eles trabalhadores, empresários ou rentistas. E permite que todos consumam mais do que a economia permite, ao mesmo tempo em que inviabiliza os investimentos na indústria e condena o país ao baixo crescimento.

O que tinham os candidatos a dizer a respeito? Muito pouco. Ou porque não se davam conta do problema e pensavam que basta fazer ajustamento fiscal para que o equilíbrio macroeconômico seja recuperado (Aécio e Marina), ou porque sabiam que o problema existe, mas, como foi o caso de Dilma que, como não teve poder para resolvê-lo, calou-se.

A presidente bem que tentou baixar os juros e depreciar o câmbio, mas parou na metade do caminho e teve que recuar, pois não fez ao mesmo tempo o ajuste fiscal necessário e porque não teve o apoio das elites brasileiras, que estão acomodadas com seu “grande acordo”.

E porque nem as elites, nem o povo está disposto a incorrer nos custos de um acordo nacional: preferem o consumo imediato que o câmbio apreciado proporciona.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, 80, é professor emérito de economia, teoria política e teoria social da Fundação Getulio Vargas. Foi ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado e da Ciência e Tecnologia (governo FHC)

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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16 Comentários
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  1. Manoel Teixeira

    6 de outubro de 2014 11:18 am

    Muito Bom!

     

     O PT deveria levar esta bandeira de forma clara para o segundo turno.

    1. Flics

      6 de outubro de 2014 12:55 pm

      aliança de classes?
      Só seria possível se existisse uma burguesia com interesse nacional. .. algo que ha muito, muito tempo não existe no Brasil.

  2. Jorge Luis

    6 de outubro de 2014 11:21 am

    Alguma ideia de como fazer

    Alguma ideia de como fazer esse acordo?

    Eu só vejo uma, e não é bonita: dar uma amostra do que é um governo neoliberal para “refrescar a memória” da população, e assim reiniciar um novo ciclo, como aconteceu em 2002.

    1. Theophilo

      6 de outubro de 2014 12:42 pm

      Pois é Jorge, se sabe q eu

      Pois é Jorge, se sabe q eu andei pensando nisso tb? Eu vivi estes anos trabalhando e nao tenho um pingo de saudades, mas pelo que vi neste eleição muitos q viveram e muitos q nao viveram estao chamando esta praga de volta. E o remedio melhor pra quem é curioso ou burro é deixar fazer o que pede….o duro disto é que seriamos arrastados tb pra esta zona e o Lula está velho, nao sei se estaria em condições de representar como em 2002 a volta do desenvolvimento. Fora os riscos de privatizações…

    2. Jossimar

      6 de outubro de 2014 12:55 pm

      Tendo a concordar com você.

      Tendo a concordar com você.

  3. Fábio de Oliveira Ribeiro

    6 de outubro de 2014 12:03 pm

    Taxas de juros civilizadas

    Taxas de juros civilizadas são impossíveis, pois uma banqueira fez campanha presidencial e exigiu abertamente o controle total do Banco Central. Além disto, esta bosta que é São Paulo mandou para o Senado um ladrão ligado aos banqueiros que deveria estar trancado na Papuda. 

    1. Rodrigo Negrão

      6 de outubro de 2014 2:16 pm

      Qual ladão no senado

      Qual ladão no senado ?

      Antonio Carlos Rodrigues, parceiro do mensaleiro Valdemar da Costa Neto e suplente da Marta ?

       

       

  4. Jossimar

    6 de outubro de 2014 12:54 pm

    “A presidente bem que tentou

    “A presidente bem que tentou baixar os juros e depreciar o câmbio, mas parou na metade do caminho e teve que recuar, pois não fez ao mesmo tempo o ajuste fiscal necessário e porque não teve o apoio das elites brasileiras, que estão acomodadas com seu “grande acordo”.”

    Aqui o país foi derrotado por um colar de tomates. Este fato é para entristecer todos os brasileiros.

    Acho que grande parte do ajuste fiscal seria feito com a economia no pagamento de juros. Mas, nossos bravos empresários – que preferem ganhar juros em vez de lucro, afinal, sem investimento e risco, não há lucro – em aliança com esta mídia inimiga do país venceu a batalha naquela ocasião.

    Vencerá a guerra agora, caso consiga eleger o Aécio.

  5. Ferruccio Gobbo

    6 de outubro de 2014 12:56 pm

    Síntese dos problemas brasileiros

    O Bresser-Pereira fez a melhor síntese dos desafios que o país precisa vencer para viabilizar o crescimento.

  6. lenita

    6 de outubro de 2014 1:59 pm

    Nas micros eleições é que

    Nas micros eleições é que podemos perceber os “grandes acordos” feitos pelos donos de alguns feudos , e o mal que fazem a estas regiões, que dizem amar, mas que na realidade só interessam pelo que dão de poder. Aqui em Poços de Caldas aconteceu justamente isto. Foram tantas as candidaturas à deputado Federal e Estadual, que conseguiram deixar a cidade sem nenhum representante. E perdemos um excelente deputado federal. E viva o PSDB e seus rabujos, que tal como em SP, não permitem a permanência de outros em seu feudo.

  7. Luiz Campos

    6 de outubro de 2014 2:09 pm

    Tema recorrente, mas notem o detalhe…..

    ‘E porque nem as elites, nem o povo está disposto a incorrer nos custos de um acordo nacional: preferem o consumo imediato que o câmbio apreciado proporciona.’

    Eu diria ao professor Bresser…não mesmo!!!

    Em todos os acordos desse tipo as nossas elites sempre acabam dando ‘um tombo’ no povo.

     

     

     

  8. Lucinei

    6 de outubro de 2014 3:19 pm

    Não vejo possibilidade de

    Não vejo possibilidade de acordo com essa elite e midia venezuelanas. Sem “quebrar a espinha” do poder dessa gente atrasada, que é a concentração da comunicação, nada feito; o nível das provocações será cada vez mais e mais baixo quanto mais se avançar para um acordo.

  9. Gilson S Raslan

    6 de outubro de 2014 5:38 pm

    Os votos de Dilma e de Aécio

    Os votos de Dilma e de Aécio estão consolidados, o que equivale dizer que eles serão repetidos no segundo turno. No primeiro turno Dilma saiu com nove milhões de votos à frente de Aécio. Dilma ainda conta com mais de dois milhões de votos dos candidatos nanicos da esquerda. Os marinistas de esquerda vão carrear votos para Dilma. Por outro lado, alguns candidatos do PSB, a exemplo de Brasília, vão precisar do apoio do PT para disputar o segundo turno. Assim, a margem de manobra de Aécio fica muito estreita para tirar os votos de que precisa para se chegar a uma vitória. CONCLUSÃO: é Dilma no segundo turno, com certeza.

  10. Vagalume do Brejo

    6 de outubro de 2014 6:35 pm

    A crise que tanto se fala é a

    A crise que tanto se fala é a baixa na lucratividade dos capitalistas apatriados de nossa nação, que não se importam com seus semelhantes com tanto que garantam o percentual do lucro médio!!!!

     

  11. altamiro souza

    6 de outubro de 2014 8:05 pm

    o bresser pôs o dedo na

    o bresser pôs o dedo na ferida,

    mas duro é cicatrizá-la.

    os remédios são muitos.

    os remédios neonliberais do aécio

    são muito venenosos e matarão os pacientes.

    os do governo trabalhista a a elite reluta em tomá-los

    – vide a propaganda 24 horas por dia da

    grande mídia analisabndo os resultados das eleições,

    smpre beneficiando o lado neonliberal do aécio….

    a provocação do pig e seus bucaneiros mequetrefes

    é tão descarada que isso acabaá levando o país

    a um comnfronto verdadeiramente de classes,

    já que os trabalhadores evidentemente

    não aceitarão assim sem mais nem menos o arrocho an(e)ciano.

    ai ainda vão culkpar o pt de bolivarianismo!

    e o que o pt fará já ferido com a sua mochila de feridas históricas?!

     

     

     

  12. racs

    6 de outubro de 2014 8:11 pm

    Infelizmente Sr. Bresser

    Infelizmente Sr. Bresser Pereira, o único acordo que a elite braZileira está acostumada é que ela fica com a grana e o povo fica com o resto.

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