22 de junho de 2026

Os riscos reais no setor elétrico

Especialista aponta os fatores conjunturais e estruturais que colocam sistema em estado de alerta  
 
 
Jornal GGN – O aumento da conta de luz para o consumidor, o baixo crescimento econômico e a diversificação das fontes que produzem energia no país tornam o cenário de hoje um pouco melhor do que o de 2001, quando o país foi obrigado a realizar uma forte campanha de racionamento para evitar uma maior frequência dos apagões elétricos que ocorreram naquela ano, é o que defende o professor do Departamento de Energia da Unesp e especialista em distribuição e comercialização de energia elétrica, Guilhermo Filippo.
 
Recentemente, o Operador Nacional do Sistema (ONS) solicitou às companhias que atendem 11 estados e o Distrito Federal que desligassem a energia por cerca de uma hora, no período da tarde. O evento foi o suficiente para lançar preocupação quanto ao atendimento da demanda ao longo do ano. O risco de apagão não é descartado pelo professor Filippo, que aponta como principal motivo a pior seca já enfrentada nas regiões Sudeste e Nordeste, nos últimos 80 e 60 anos, respectivamente. O baixo volume de águas nos reservatórios das usinas, nessas duas regiões, é que tem prejudicado a produção elétrica. Em São Paulo, as usinas de Ilha Solteira e Paraibuna, por exemplo, não estão sendo mais ligadas por total falta de água. 
 
O segundo motivo que põe em risco, hoje, a ampliação da oferta de energia no país são os resquícios do impacto da Medida Provisória 579, transformada na Lei nº 12.783/2013, para adiantar a renovação dos contratos de concessão de companhias de energia elétrica. A MP também reduziu, na época, a cobrança de energia elétrica em cerca de 20%. “Quando você reduz a tarifa faz uma sinalização errada para o consumidor de que ele pode gastar mais. Por isso o governo tinha que ter feito isso prevendo o aumento da demanda mais à frente”, explicou o especialista. 
 
Outro problema decorrente da MP foi a recusa de três grandes distribuidoras de renovar a concessão: Cemig (MG), Cesp (SP) e Copel (PR). Juntas, elas somavam 40% dos contratos de geração por vencer. As companhias repassaram os equipamentos para a União que, na visão de Filippo, não fez leilões a tempo para determinar os novos responsáveis que dariam andamento a cobertura dos serviços. 
 
O terceiro motivo que põe em risco o atendimento à demanda são os atrasos das obras de novas usinas, por diferentes motivos. “Todos esses fatores levaram o sistema a trabalhar hoje no limite. Agora, para atravessar o ano de 2015, dependemos, mais do que nunca, da chuva para recompor os reservatórios e não ficar em uma situação difícil”, completa Filippo. 
 
Os dados do Operador Nacional do Sistema, de segunda-feira, dia 2 de março, mostravam que os reservatórios de hidrelétricas que atendem as regiões Sudeste e Centro-Oeste estavam com 20,81% de sua capacidade. Na região Nordeste as hidrelétricas trabalhavam com 18,58% da capacidade, já no Norte, com 39,81%. A região Sul é a única em situação um pouco mais confortável, com 51,78% da capacidade dos reservatórios ocupados. O período mais intenso de chuvas termina em março e só retornará no final do ano. Hoje a maior parte da energia elétrica, antes produzida pelas hidrelétricas, está sendo compensada pelo uso de termelétricas, usinas movidas, principalmente, à gás natural e carvão. 
 
Fontes mais limpas e renováveis, como eólica, solar e biomassa também ajudam no fornecimento de energia, mas ainda não o suficiente para cobrir a importância das hidrelétricas. O professor Filippo defende, assim como boa parte dos especialistas, o uso de energia solar e eólica para equilibrar o sistema e não para garantir energia em momentos de pico de consumo, pois elas não podem ser armazenadas. 
 
Apesar do cenário e de acreditar nos riscos do setor elétrico, o especialista é cauteloso em afirmar se ao longo de 2015 enfrentaremos mais casos de apagões. “Primeiro temos que passar as águas de março, para ter certeza de como ficarão os reservatórios das hidrelétricas; em segundo lugar estamos às portas de um aumento tarifário que chegará à 70% em São Paulo e Rio de Janeiro e que forçará a redução do consumo; em terceiro lugar a previsão para este ano é de baixo crescimento econômico, especialmente na indústria. Esses três fatores vão exigir menos oferta do sistema elétrico este ano”, pondera. 
 
O papel das fontes intermitentes  
 
Segundo Filippo, o recém lançado Energy Outlook 2035, relatório da Britsh Petroleum, prevê um crescimento de 270% de geração elétrica a partir de fontes renováveis no Brasil nos próximos 25 anos. O professor avalia de forma positiva a política de incentivo à energia eólica no país. Apesar de ter contribuído, em dezembro passado, com apenas 3,0% da geração de energia elétrica, o potencial eólico em terras brasileiras (onshore) é de 175  gigawatts, o equivalente ao potencial instalado de produção elétrica de todas as fontes hoje produzidas no país. 
 
Estima-se que até o final de 2015 o Brasil ultrapassará a Alemanha em relação à capacidade instalada para a produção de energia eólica, saltando dos atuais 4,5 gigawatts para 6 gigawatts. Segundo dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), o investimento nessa energia começou em 2010, e hoje abastece a 4 milhões de residências, o equivalente a uma cidade do tamanho de São Paulo. O professor Filippo ressalta que o aproveitamento dessa fonte poderá ser ainda maior, pois não se contabilizou o potencial de produção eólica nos oito mil quilômetros da costa marítima brasileira. 
 
Durante o sexto leilão de energia de reserva, promovido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em novembro passado, a energia e eólica foi negociada a R$ 142 o megawatt-hora, valor mais competitivo do que o ofertado por grandes hidrelétricas e Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH). Na ocasião, a energia solar também conseguiu atingir competitividade semelhante às hidrelétricas, vendida a R$ 215 o megawatt-hora. 
 
Em relação a energia solar, ou geração fotovoltaica, Filippo defende o incentivo a microgeração, em telhados de residências e comércios. “Hoje temos apenas 300 instalações fotovoltaicas no Brasil em um universo de 75 milhões de unidades consumidoras. O sistema de projeção da Abradee [Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica] supõe que, em 2030, tenhamos 450 mil unidades [residenciais ou comerciais] com instalações fotovoltaicas. E acredito que, se tivermos políticas mais robustas, isso poderá aumentar. O problema hoje são os custos tecnológicos elevados”, conclui.  
 
O professor, que também é especialista em distribuição elétrica urbana, abordará o tema da microgeração no 56º Fórum de Debates Brasilianas.org. O evento, a respeito da exploração das fontes renováveis, sob a perspectiva das novas tecnologias, ocorrerá no dia 10 de março, em São Paulo. Você pode acessar a programação aqui.  
 
Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), em 2014, a participação das fontes renováveis na Matriz Elétrica Brasileira foi de 41,0%. A biomassa contribuiu em 16,1%; a hidráulica com 12,5%; lenha e carvão vegetal com 8,3%; e as demais fontes renováveis, incluindo solar, eólica e lixívia (resíduos agrícolas e da indústria do papel/celulose) com 4,2%. As fontes não renováveis que contribuíram com a produção de eletricidade foram petróleo e derivados (39,3%), gás natural (12,8%), carvão mineral (5,6%) e urânio (1,3%). 
 

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14 Comentários
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  1. ORRAIO

    3 de março de 2015 3:13 pm

    É ridículo pensar que não se

    É ridículo pensar que não se pode diminuir o valor da energia elétrica ao consumidor quando há abundância de recursos (muita água nos reservatórios) ou quando já houve o retorno do investimento físico na produção (energia velha).

    Devemos enxergar a energia elétrica como qualquer produto, que tem seu preço alterado pela sazonalidade.

    Pagamos mais caro pelos tomates quando a produção é baixa, então com a energia tem que ser a mesma coisa.

    O que falta é educar a população para este fato.

    1. Cesário

      5 de março de 2015 4:09 am

      Casuísmo

      Se eu entendi bem, o problema não é o produto energia. A questão é que o governo aumentou quando interessava (antes das eleições), e agora aumenta quando já se passaram as eleições. Coincidência ou casuísmo?

  2. W K

    3 de março de 2015 5:31 pm

    Acho pândego o motivo do aumento da conta de luz:

    “perda de receita”. 

    Eu também quero isso do governo: se fico sem clientes e, como dizia Aureliano Chaves, “por via de consequencia”, quero que o governo cubra minhas despesas.

    A cada ano que passa, essa casta de eletrocratas adora tirar sempre uma nova casquinha de seus clientes . 

    Estariamos muitíssimo melhor servidos, se pudéssemos escolher a distribuidora de energia, de acordo com seus preços, podendo mudar cada vez que há um aumento, tal como se faz na feira com frutas. 

    Afinal, tanto dinheiro como energia elétrica são as mais básicas das commodities. 

    1. sms2000

      3 de março de 2015 5:55 pm

      Você quer escolher sua

      Você quer escolher sua distribuidora? por exemplo, chegando quatro, cinco postes de energia na frente da sua casa?

      1. W K

        3 de março de 2015 6:06 pm

        Quero escolher a operadora,

        se ela tiver que postear a minha rua novamente, é problema exclusivamente dela, não meu. 

        Na Alemanha fizeram um serviço de escolha assim; antes toda a infra-estrutura de distribuição foi alocada numa empresa, e as fornecedoras tiveram que comprar uma licença para o transporte da energia nessa infra-estrutura. 

  3. M.C

    3 de março de 2015 11:02 pm

    Dilminha, a especialista,

    Dilminha, a especialista, armou a zona num período em que já se vislumbrava problemas para ir grantindo a reeleição

    Quem criticou à época, com os mesmos argumentos postos acima, era acusado de jogar contra o país.

    Tá aí, a vida pune!

    Coitada da Dilma, a operação se livra do cadáver a todo vapor no PT…

  4. Carlo Zardinni

    3 de março de 2015 11:48 pm

    Uma questão de precisão, por gentileza

    “Recentemente, o Operador Nacional do Sistema (ONS) solicitou às companhias que atendem 11 estados e o Distrito Federal que desligassem a energia por cerca de uma hora, no período da tarde.”

    Sra. Milena, seria de bom  tom, num ambiente onde os eventos são medidos em ciclos, em nosso caso 16.67ms, que fosse mencionado, dia e hora de início e fim do evento a que a senhora se refere.

    Caso a senhora se refira ao evento de 19.01.2015, por dever de ofício, deveria saber que hoje, dia 03.03.2015, ao meio dia, expirou-se o prazo para envio de comentários pelos Agentes envolvidos sobre a minuta do relatório preliminar de evento, note bem: preliminar.

    De novo, por questão de precisão de texto, a idéia erronea que ele passa é a de que, seguindo-se a uma ação previamente planejada e comunicada pelo ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico caberia às companhias desligarem a energia (sic) por cerca de uma hora e não no transcurso do evento, onde suponho referir-se a articulista ao do dia 19.01.2015, onde desligamentos eletivos, de modo manual e automático, previamente idealizados nas rotinas operacionais deste Operador, foram utilizados no sentido de preservar-se ao máximo o suprimento de energia  aos consumidores, num evento de tal complexidade, que, voz corrente de quem opera o SIN-Sistema Interligado Nacional, ele talvez não mais ocorra nesta geração atual de Operadores.

  5. Almeida

    4 de março de 2015 12:32 am

    Debatendo o Setor Elétrico.

    Entrevista com o professor Célio Bermann:

    https://jornalggn.com.br/fora-pauta/populacao-pagara-pela-desastrosa-gestao-no-setor-eletrico

  6. rdmaestri

    4 de março de 2015 10:52 am

    Deve ter um problema nos dados do ONS.

    No último ano a bacia da barragem de Passo Real recebeu uma chuva bem acima da média mensal exceto em dois meses, nos pluviometros das cidades que cercam esta bacia (o inmet não tem tantas estações na bacia propriamente dita) registraram-se em 2014 segundo dados do Inmet os seguintes valores: Passo Fundo (2238,5mm), Cruz Alta (2486,3mm), Caxias do Sul (2002,2mm), Lagoa Vermelha (2133,6mm) e Santa Maria (2312,8mm).

    Os dois pontos são os mais próximos a barragem da Usina e são valores realmente expressivos. Apesar de toda esta chuva os níveis da Barragem apresentados pelo ONS ainda estão baixos e com chuvas desta ordem ela deveria estar em condições bem melhores, logo acho que está havendo alguma imprecisão em algum ponto, ou nas chuvas ou no nível, pois os dois não fecham.

  7. GODPLAYER

    4 de março de 2015 11:02 am

    Bom artigo

    Esclarecendo um pouco mais:

    – Falta de chuva: fato, um dos piores períodos de seca dos últimos anos, por isso a importância de uma matriz diversificada para não dependermos tanto das águas. Vejam no site do ONS o quadro com o comparativo dos níveis dos reservatórios, as diferenças entre os anos são gritantes;

    – MP 579: feita com base no soco na mesa por Dilma, não deixe de creditar isso a ela Nassif, você sempre esquece. Ao impor uma remuneração de uma hora para outra ao invés de fazer um plano para gradativamente ir baixando, ela simplesmente bagunçou todo setor elétrico, logo ela, a “especialista”;

    – Recusa em renovar: a palavra mais correta não é recusa, passa impressão de má vontade. Houve sim a opção de não renovar, essas empresas apostaram contra a MP579 e a divinhem? Acertaram em cheio;

    – Atrasos em obras por diferentes motivos: uma empresa que faz investimentos de milhões (às vezes até BIlhões) para construção/manutenção vai investir sabendo que as regras podem mudar de novo, com outro soco na mesa? Muitos investimentos foram cortados nos últimos 3 anos e muitos projetos estão travados aguardando autorização para começarem a funcionar – adivinha quem autoriza? 

    1. Athos

      4 de março de 2015 3:36 pm

      A MP foi correta. Fez o que
      A MP foi correta. Fez o que tinha que ser feito e nem há o que se discutir, a nao ser a política.
      As criticas a MP são politicas e não tem qualquer fundamento.

      Um contrato de 30 anos venceu e O Governo OFERECEU renovação Ppor 30 anos. Aceita quem quer. Quem não quer, devolve.
      Qual a polêmica? Qual ponto a discutir? Não há nada a ser discitido!

  8. drigoeira

    4 de março de 2015 11:55 am

    O problema é o baixo consumo no Brasil

    O consumo de energia elétrica no Brasil é ridículo em comparação aos países de primeiro mundo.

    O governo é financista, os gestores públicos são cabeções de planilha, as empresas prestadoras de serviço não entendem de administração, o governo não tem fiscalização.

     

  9. Athos

    4 de março de 2015 3:38 pm

    Artigo sem pe nem cabeça. O
    Artigo sem pe nem cabeça. O autor vai a um especialista e pergunta: Solar e eólicas são a solução?
    Resposta: não!

    Aí o autor apresenta eólicas e solares como solução.

    Coisa de analfabeto funcional!

  10. rdmaestri

    4 de março de 2015 9:59 pm

    A única vantagem dessas formas de energia alternativa!

    Só há uma grande vantagem na geração através de energias alternativas como eólica e solar, a facilidade com que estes projetos recebem o licenciamento ambiental!

    Atualmente se um empreendedor tem vontade ou necessidade de gerar energia ele tem dois caminhos, o caminho da hidroeletricidade ou o caminho de duas formas de geração de energia alternativa, a solar e a eólica.

    Se por acaso ele apostar na geração de energia via hidroeletricidade ele deverá além de ter um quadro de bons engenheiros ter um quadro mais forte de advogados para responder desde ponderações razoáveis até brincadeiras de mal gosto.

    Agora se ele optar pela geração de energia alternativa ele verá o seu caminho pavimentado tanto lobby industrial-acadêmico-conservacionista, ficando livre de provar qualquer coisa. Importante destacar que tanto a energia solar como a energia eólica tem restrições ambientais, porém o comportamento de um empreendedor de uma usina de hidroeletricidade deve ser como de uma pessoa perante um inquérito policial, ele é culpado enquanto não provar a sua inocência, por outro lado ele optar pelas alternativas ele estará como num processo judicial, onde ele é inocente enquanto não se prove ao contrário.

    No caso da energia solar é extremamente evidente que mesmo sem considerar os problemas de intermitência e falta de confiabilidade desses sistemas o valor do seu kWh está muitas vezes acima da hidroeletricidade dentro da tecnologia hoje existente (aguarda-se que um dia tenhamos geradores solares confiáveis e baratos, mas ainda não há nenhuma proposta real).

    Já a energia eólica, que apresenta custos mais favoráveis, ainda não comparáveis aos custos da hidroeletricidade, os empreendimentos estão saindo mais rapidamente, e tanto a anterior forma como esta possibilitarão uma pequena folga ao sistema nacional, porém não me venham os consumidores reclamarem do futuro de suas contas de luz caras pois mesmo em países que não contam com energia hidrelétrica remanescente a migração para os sistemas de energia alternativa estão salgando em muito as suas contas.

    Como uma nota suplementar chamo a atenção que energia alternativa no Brasil é considerada por grande parte das pessoas como energia solar e eólica, e esquecemos a biomassa que foge do álcool de cana. Temos explorações industriais de produção de aves e suínos que geram uma quantidade enorme de resíduos, não há nenhum programa de incentivo a utilização desta biomassa para produção de energia, talvez porque os ambientalistas na sua maioria são vegetarianos ou mesmo veganos e acham um horror um bom lombinho de porco ou uma popular galinha assada, logo nada de subsídios para estes monstros!

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