17 de junho de 2026

Para Leonardo Boff, Francisco mudou ambiente da Igreja

Sugerido por Gunter Zibell – SP

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Da Deutsche Welle

 
Em entrevista à DW, um dos principais críticos do conservadorismo católico afirma que, em apenas um ano, papa conseguiu reaproximar padres e bispos do povo. Para isso, vivência na América Latina foi fundamental.

Em 13 de março de 2013, Francisco foi eleito papa. E em apenas um ano à frente do Vaticano, colocou em discussão uma série de assuntos antes deixados de lado pela Igreja, dando início a um processo de transformação da instituição e do papel do pontífice.

Em entrevista à DW, Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação e um dos principais críticos do conservadorismo católico, diz que Francisco tornou a Igreja mais viva ao fazer uma reforma do papado.

“Francisco não vestiu o figurino clássico do ‘papa monarca’ com o primado jurídico absoluto e com a supremacia doutrinal e pastoral”, afirma Boff, que em 1992 deixou todos os cargos na Igreja, após ser censurado pelo Vaticano. “Ele mudou o clima. Antes o ambiente era severo e sombrio.”

DW: O que mudou na Igreja Católica no Brasil um ano depois que o papa Francisco foi eleito?

Leonardo Boff: Ele mudou o clima, o que não é pouco. Há alívio porque a Igreja como instituição era vista como um pesadelo. Há alegria, pois antes o ambiente era severo e sombrio. O que se percebe é que muitos padres e bispos se tornaram mais acessíveis ao povo, mais tolerantes, menos doutrinários. O arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, ao ir a Roma para receber o chapéu cardinalício, viajou de classe econômica para seguir o exemplo do cardeal Bergoglio, que sempre viajava assim. Mas talvez seja cedo demais para ter uma impressão mais precisa das modificações nos hábitos dos padres e dos cristãos.

Com o papa, a Teologia da Libertação pode ressurgir das cinzas?

Ela nunca esteve nas cinzas porque a opressão continua e os cristãos conscientes se orientavam pela Teologia da Libertação para dar sentido às suas práticas. Os teólogos continuaram a publicar, apesar da vigilância severa do cardeal Ratzinger, que se fez inimigo da inteligência dos pobres.

Boff: ‘Não pretendo ter nenhuma função na Igreja’

Esse é o peso que ele carregará pela história. Roma tentou por todas as formas liquidar com este tipo de teologia, mas saiu frustrada, pois o teor evangélico da Teologia da Libertação depunha contra Roma, que se mostrava indiferente face ao drama dos pobres. Fala dos pobres, mas nunca quer encontrá-los fisicamente.

Qual foi o papel da Teologia depois que Francisco assumiu o Vaticano?

Com o novo papa ela ganhou centralidade, pois ele colocou a questão da justiça social e da igreja pobre para os pobres no centro das preocupações de seu pontificado. Ele vai ao encontro dos pobres, abraça-os e beija-os porque são, segundo suas palavras, “a carne de Cristo”. Ao receber em audiência no dia 11 de setembro de 2013 Gustavo Guiérrez, um dos fundadores desta teologia, e em seguida o pequeno irmão de Jesus Arturo Paoli, de 102 anos, que trabalhou durante 45 anos na linha da libertação na América Latina, o papa deu sinais claros de que quer prestigiar e até resgatar a Teologia da Libertação.

O papa quer prestigiar e aumentar o poder dos leigos porque a falta de padres no continente é grave. Já há sinais de quais serão esses novos poderes? Eles poderão celebrar a eucaristia ou outros sacramentos?

A categoria central da visão de Igreja que o papa representa é a “Igreja como povo de Deus”. Todos pertencem a este povo, que é constituído principalmente por leigos, homens e mulheres. O papa quer que os leigos, especialmente as mulheres, participem das decisões da Igreja e não apenas participem da vida da Igreja. A forma como o fará não sabemos. Sabemos apenas que ele é surpreendente e que coisas novas poderão ser esperadas, inclusive a nomeação de mulheres como cardeais, já que “cardeal” é na tradição um título, desvinculado do sacramento da Ordem. Não é preciso ser padre ou bispo para ser cardeal. Não creio que ele permitirá que leigos celebrem eucaristias, pois seria um passo demasiadamente ousado. Mas como ocorre nas comunidades eclesiais de base nas quais não está presente um padre, ritualiza-se e dramatiza-se a ceia do Senhor. Eu creio, como teólogo, que tal prática é uma forma de trazer sacramentalmente Cristo para o seio da comunidade.

Qual a contribuição que a Igreja da America Latina poderia dar para as reformas do Vaticano?

A maior contribuição que a América Latina está dando à reforma do Vaticano é a pessoa do papa Francisco. Ele não começou com a reforma da Cúria, mas com a reforma do papado. Ele não vestiu o figurino clássico do “papa monarca” com o primado jurídico absoluto e com a supremacia doutrinal e pastoral. Ele se entende com bispo de Roma e quer presidir na caridade. É importante observar que esse papa cresceu dentro do caldo cultural e eclesial da Igreja latino-americana, cujo rosto é muito diferente da Igreja da velha cristandade europeia. É uma Igreja viva, com comunidades de base, com pastorais sociais fortes, com figuras de bispos proféticos e com mártires da perseguição das ditaduras militares.

Que características o papa Francisco trouxe para o pontificado?

Ele traz ao Vaticano hábitos novos, evangélicos e proféticos. Ele se entende como um homem comum que gosta de estar junto com outros homens comuns, partilhando de suas buscas e perplexidades. Mais que ensinar, ele quer aprender no diálogo e na convivência. Estes traços pastorais são típicos da maioria dos bispos da América Latina. Com isso ele está resgatando o rosto humanitário, misericordioso e afável da severa institucionalidade da Igreja. Penso que ele será o primeiro de muitos papas que virão do terceiro mundo, pois aqui vive a maioria dos católicos.

Na sua opinião, qual seria a reforma mais importante que a Igreja Católica teria de fazer?

Eu creio que haverá uma nova forma de direção da Igreja, não mais monárquica, mas colegial. Quer dizer, o papa não dirigirá a Igreja sozinho, mas com um colégio de cardeais, bispos, leigos e mulheres. Ele insinuou claramente isso dizendo que deve haver mais corpos de decisão na Igreja junto com ele.

O Brasil ou a América Latina poderiam ser pioneiros em alguma delas?

Na América Latina temos acumulado boas experiências de pastoral de conjunto, seja no nível nacional, seja no continental. Quanto ao celibato, já foi dito que não é uma questão fechada como o era no tempo de João Paulo 2º, que proibia sequer levantar tal questão. A meu ver o caminho será mais ou menos este: primeiro convidará os cem mil padres casados do mundo inteiro que possam, e que queiram, para reassumir o ministério.

Este seria o primeiro passo. Em seguida permitiria o celibato opcional. Não haveria mais a lei do celibato obrigatório. Para este papa a Igreja é de todos, especialmente daqueles que foram postos de lado. A Igreja é uma casa aberta para todos. Todos podem entrar sem prévias condições.

O sr. estaria disposto a assumir um cargo de liderança nesse processo de reformas?

Não espero nem pretendo ter nenhuma função na Igreja. Basta-me a palavra livre.

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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4 Comentários
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  1. IV AVATAR

    14 de março de 2014 12:23 pm

    E se o próximo Papa for regressista escravocrata….

    Deveriam ser mudanças da Instituição e não algo que possa ser esquecido pelo próximo Papa.

  2. Dulce (Madame X)

    14 de março de 2014 3:48 pm

    Juro que não aguento

    Juro que não aguento mais…

    “Com todas as vênias das maiiorias formadas” Não aguento mais tanta bajulação e rapapé com o Francisco.

    Foi bom…um papa sulamericano, o que prá mim quer dizer importância ZERO. Mas foi bom…ouvir toda a sua história, foi bom…aguentar toda a JMJ, em paz, foi bom.Todo movimento de paz e amor me encanta.  Mas em um ano…aguentar a sua RETROSPECTIVA…que TODOS FAZEM QUESTÃO DE HOMENAGEAR…eu acho muito pouco tempo para isso…NÃO É BOM. É chato…

    Vou “dormir”…me acordem quando ele for um papa estável…e não UM SUPER STAR CHEIO DE PAPARAZZOS em volta.

    Repito: Todos os meus respeitos aos que pensam o contrário. Mas…morri!

    Escolham bem o tamanho das pedras…senão eu conto prá o Papa Francisco! ;P

    Ironias da vida: Sou fã de São Francisquinho, de Assis.

    Beijos e fuiiiiiiiiiiiii!

  3. jc.pompeu

    14 de março de 2014 3:49 pm

    A igreja é a mesma Ontem, Hoje e Para Sempre

    A igreja é a mesma Ontem, Hoje e Para Sempre

    Para Todos… Amém

    por isso

    Tudo muda para que Nada mude

    ou

    Se quisermos que As Coisas (da Igreja)  continuem como estão, As Coisas (da Igreja) precisam mudar

    Papa Francisco deu uma arejada legal no ambiente da Igreja abrindo janelas para o mundo espetáculo do deus mercado y consumo, mudando sofás e camas de lugar para perto das janelas claustrofóbicas, trocando velhos movéis feitos à mão medieval por descartáveis made in china, enclausurando o “calvinista” papa alemão num monastério sob medida just in time e instituindo no cardápio de todo santo domingo, no lugar da milenar macarronada mama itália, la parrillada mama argentina, no fogo lento slow food no chão de fábrica sagrado do pobre comedor de carne nobre friboi.

  4. Obelix.

    14 de março de 2014 4:18 pm

    A Igreja de Pedro, os negócios de Francisco.

    Para que debater alguém que acredita que um carpinteiro bastardo é filho se si mesmo, e que depois de posar de salvador, acabou morto, e “ressuscitou”?

    Quem acredita em uma tolice destas acredita em qualquer coisa.

    Basta que respeitemos o direito de acreditar deles…nada mais.

    O problema das igrejas, seitas e religiões não é serem um amontoado de inquidades, torturas, abusos, hipocrisias, preconceitos…nada disto.

    Afinal, como entidades humanas, elas carregam nossa humanidade.

    O problema é serem tudo isto e posarem de redentoras dos nossos pecados ou bastiões morais para todos.

    Isto é que não dá para engolir.

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