22 de junho de 2026

Pirâmide da Riqueza e Rendimentos Isentos de IR, por Fernando Nogueira da Costa

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Pirâmide da Riqueza e Rendimentos Isentos de Imposto de Renda

Fernando Nogueira da Costa

Segundo o Informe sobre Riqueza Global 2015 do Credit Suisse, 34 milhões de pessoas, equivalendo a 0,7% do total da população economicamente ativa mundial, possuem mais de 1 milhão de dólares ou 45,2% dessa riqueza. Entre US$ 100.000 e US$ 1 milhão são 349 milhões de pessoas ou 7,4% da população com 39,4% da riqueza; entre US$ 10.000 e US$ 100 mil, um bilhão de pessoas ou 21% da população e 12,5% da riqueza; finalmente, com menos de US$ 10 mil, 3,386 bilhões (71%) só com 3% da riqueza!

A fortuna das 85 pessoas mais ricas equivale às posses dos 50% mais pobres do mundo. A Oxfam informa que 20% da população mundial vive com menos de US$ 1 por dia e 40% com renda inferior a US$ 2 por dia.

A concentração de patrimônio nos Estados Unidos atingiu seu pico em 1913 com 25% da riqueza em posse do 0,1% de famílias mais ricas. Após I Guerra Mundial, retomou a esse nível até o crash da Bolsa de Valores em 1929, e daí diminuiu até meados dos anos 70, atingindo 8%. A partir de então, aumentou mais 15 pontos percentuais até 2013. Na Era Neoliberal de permissividade com a autorregulação do mercado está voltando ao pico a concentração da riqueza norte-americana.

Lá, nos Estados Unidos, em 2014, ¾ do total da riqueza estava na posse dos 10% mais ricos. É menos do que na Rússia pós-soviética (85%), mas mais do que nos outros países do BRIC: a Índia (74%), o Brasil (73%) e a China (64%). Em todos os Estados de Bem-Estar Social – a Alemanha (62%), o Canadá (57%), o Reino Unido (54%) e o Japão (49%) – os 10% mais ricos tinham fatia menor.

Discute-se a possibilidade de um Imposto sobre Herança e/ou um Imposto sobre Doação ser um paliativo que serviria para atenuar o mal-estar social ou protelar uma revolta política provocada pela imensa desigualdade. No entanto, nos Estados Unidos esses tributos já existem com alíquota média de 29% e máxima de 40%. Na Alemanha, são respectivamente 28,5% e 50%, percentuais similares aos do Japão. Na Inglaterra, é unicamente 40%. Na França, sobre herança, o tributo médio é 32,5% e o máximo, 50%; sobre doação, 25% e 45%.

E no Brasil? O ITCMD é um tributo estadual que varia da média de 3,23% até o máximo de 8%. Porém, os outros países do BRIC não os adotam, com a exceção da Índia que cobra Imposto sobre Doação com médio de 15% e máximo de 45%.

Quanto ao Imposto sobre Grande Fortuna (IGF), o “efeito Depardieu” (fuga de capital) é mais provável, na medida em que pouquíssimos países o cobram. Na França, a alíquota máxima é de 1,5%, sendo aplicável apenas a indivíduos com fortuna líquida superior a € 1,3 milhão de euros ou R$ 5,566 milhões. No Brasil há 57.505 indivíduos com mais de R$ 3 milhões em riqueza financeira, no total de R$ 694 bilhões, e média per capita de R$ 12 milhões. Com mais de R$ 10 milhões há 8.842 e com mais de R$ 20 milhões,  3.902. Há 54 bilionários globais.

Na Índia, a alíquota máxima do IGF é de 1%, aplicável a indivíduos com fortuna líquida superior a 3 milhões de rúpias indianas. Na Noruega, é 1,1%. Na Suíça é 1,5%, mas os valores variam de acordo com os cantões. Na Alemanha foi abolido em 1997, no Luxemburgo em 2006 e na Suécia em 2007.

Na verdade, a Carga Tributária Bruta (CTB) no Brasil é similar à média dos 34 países da OCDE: 34,5% contra 34,1% do PIB entre 2008 e 2012. Esta CTB média no período na Rússia é um pouco maior: 36,7%. Mas China e Índia têm CTB média bem menor, em torno de 19-22% do PIB. Todos os países do BRIC adotam um Capitalismo de Estado, para tirar o atraso histórico em desenvolvimento socioeconômico, em vez do Capitalismo Liberal da OCDE.

Mas o que, de fato, diferencia o Brasil da média dos 34 países da OCDE é a estrutura tributária, isto é, a participação percentual de cada base de incidência na CTB. Aqui, a Tributação sobre Bens e Serviços (ICMS, ISS), que é regressiva, atinge 49,7%; lá, 32,9%. A Tributação sobre Renda e Lucros, progressiva, aqui é 17,8%; lá, 33,5%. Quanto aos demais tributos, sobre Segurança Social e Folha Salarial (INSS, FGTS, PIS-PASEP), suas participações são próximas: 26,5% contra 27,3%; sobre Propriedade (IPTU, IPVA, ITBI) também: 3,9% contra 5,4%. Outros tributos aqui somam 2,1%; lá, 0,9%.

Recentemente, com a divulgação dos Grandes Números da Declaração de Imposto de Renda (IR) de 2014 – AC 2013, tornou-se público que os “super-ricos” no Brasil representam só 0,3% do total de contribuintes do IR. Os 71.440 indivíduos que receberam no mínimo 160 salários mínimos (R$ 126.080,00) ao mês ou R$ 1,5 milhão no ano, obtiveram renda anual média, no ano-base de 2013, de R$ 4,170 milhões. Sem abater as dívidas, a média per capita de Bens e Direitos desta faixa mais rica atingiu R$ 17,7 milhões. O patrimônio líquido (contendo imóveis registrados em valores históricos) desse reduzido grupo equivalia a 22,7% de toda a riqueza em bens e direitos no DIRPF 2014/13. No entanto, o imposto de renda pago por essa faixa de rendimento acima de 160 salários mínimos equivale apenas a 6,51% de sua renda total.

Investigando mais um pouco essa DIRPF, os recebedores de lucros e dividendos, somados aos que recebiam rendimentos de sócios e titulares de microempresas (“CPF disfarçado de CNPJ”), totalizavam 2.100.823 declarantes. Entre aqueles “super-ricos”, havia 51.419 indivíduos com rendimentos isentos no valor total de R$ 161 bilhões (43% do total isento). Como os presidentes e diretores de empresas industriais, comerciais ou de prestação de serviços tinham R$ 178,5 bilhões isentos, provavelmente, são eles os pertencentes a aquela “casta de comerciantes-financistas”. Essa categoria profissional composta de dirigentes com 688.924 declarantes (32,8% do total desses isentos) era, disparadamente, a que tinha maior isenção do IR. Os 129.350 médicos (entre os 241.510 existentes, em 2010, 29% deles estavam no 1% mais rico da sociedade brasileira) situam-se em segundo lugar (R$ 24,6 bilhões isentos fora os “sem recibos”) e os 79.918 engenheiros, arquitetos e afins (R$ 19,3 bilhões isentos) em seguida.

Proprietário de empresa ou firma individual ou empregador-titular tinha 28% de rendimento tributável, 12% de tributável exclusivamente na fonte e o maior grau de rendimentos isentos (60%) por natureza de ocupação.

Um breve exercício: se elevasse de 6,51% de IR que os recebedores de mais de 160 salários mínimos pagam em relação à sua renda para 11,96%, que é o máximo pago em outra faixa (a de 20 a 40 salários mínimos), o fisco taxaria 5,45% sobre os R$ 161 bilhões isentos, o que daria R$ 8,8 bilhões. Mais 3,79% (11,96% – 8,17%) dos R$ 50,8 bilhões dos rendimentos isentos dos que recebem entre 80 e 160 salários mínimos aumentaria a arrecadação em R$ 1,9 bilhão. Esta contribuição de R$ 10,7 bilhões seria socialmente mais igualitária – e ajudaria o ajuste fiscal.


Fernando Nogueira da Costa é Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor do livro “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012). http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/  E-mail: [email protected].  

 

Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. Tulio

    26 de outubro de 2015 8:28 pm

    Aí eu pergunto, cadê a tal

    Aí eu pergunto, cadê a tal distribuição de renda? Só se for renda do trabalho pois renda de juros, lucros e dividendos nunca foi tão concentrada no país. Os coxinhas  da classe média tão de mal com o governo, já os magnatas tão rindo de orelha a orelha. E os bananas das bolsas militontos (os chamados mortadelas) ainda se estressam pra defender esse governo de “esquerda”.

  2. Tulio

    26 de outubro de 2015 8:37 pm

    Aí eu pergunto, cadê a tal

    Aí eu pergunto, cadê a tal distribuição de renda? Só se for renda do trabalho pois renda de juros, lucros e dividendos nunca foi tão concentrada no país. Os coxinhas  da classe média tão de mal com o governo, já os magnatas tão rindo de orelha a orelha. E os bananas das bolsas militontos (os chamados mortadelas) ainda se estressam pra defender esse governo de “esquerda”.

    1. gentilhomme

      26 de outubro de 2015 11:54 pm

      o estranho novo fenômeno do vira-latismo de esquerda

       

      https://www.youtube.com/watch?v=GlFRPizuOCg

  3. Vitor Lara

    26 de outubro de 2015 10:14 pm

    Acho que tudo depende da
    Acho que tudo depende da correlação de forças. Conseguir passar esse tipo de medida tem o seu valor simbólico e de todo modo pode aumentar o custeio da máquina pública. Pra podermos aprovar ou isso ou mesmo medidas mais avançadas precisamos enfraquecer primeiro o PiG.

  4. Tramontina

    27 de outubro de 2015 5:13 pm

    Texto pesado

    O artigo é oportuno, mas contem demasiados números, é pouco claro na argumentação e professoral demais. Uns graficos poderiam ajudar ao melhor entendimento.

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