2 de julho de 2026

Torquato Neto : 70 anos de nascimento e 42 de sua morte

Por Mara L. Baraúna

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Torquato Pereira de Araújo Neto (Teresina, 9 de novembro de 1944 — Rio de Janeiro, 10 de novembro de 1972)

O filho único do defensor público Heli da Rocha Nunes e da professora primária Maria Salomé da Cunha Nunes foi um menino tímido que, desde cedo, ainda nos bancos escolares, já lia os poetas Castro Alves, Olavo Bilac, Fagundes Varela, Gonçalves Dias.

Aos 11 anos pediu de presente ao pai as obras completas de Shakespeare e poucos anos depois ganhou também as obras completas de Machado de Assis. Aos 15 anos de idade foi expulso de um colégio em Teresina, por atividades políticas. 

Em 1959, seguindo os passos de outro poeta piauiense, Mário Faustino, decidiu cursar o científico em Salvador. Não podia imaginar a opulência que o esperava. A Salvador do início dos anos 60 vivia grande agitação cultural. Lina Bo Bardi, Joaquim Koellreutter e Glauber Rocha eram só as figuras mais nobres num cenário em que surgia uma arte agressiva e de vanguarda.

Morando lá por três anos (de 1960 a 1963), já se tornou conhecido, pelas turmas e rodas culturais da cidade, como um bom poeta e grande conhecedor de literatura brasileira. Fez amizade com os jovens que formariam mais tarde o chamado “grupo baiano” (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Bethânia e Gal Costa). Além dos músicos, Torquato se aproximou também de José Carlos Capinam.

Aos 17 anos, ele se transferiu para o Rio. Foi morar com um tio, Jonathan, no suspeitíssimo edifício Rajah, na praia de Botafogo, e estudar numa escola de péssima fama, o Colégio Ruy Barbosa. Fez o vestibular para jornalismo, mas não terminou o curso, e começou a trabalhar nas redações da cidade. 

Com a vinda definitiva de Caetano e Gil para o eixo Rio/São Paulo, em 1966, Torquato, já com quase três anos de residência fixa no Rio e exercendo o jornalismo como profissão, reencontrou os músicos e tornou-se,  em poucos anos, um compositor de talento. No mesmo ano, começou a compor parcerias com Edu Lobo e Geraldo Vandré, além de Gil, Capinam e Caetano. Em 1967, passou a assinar as colunas no Jornal dos Sports.

Na mesa de um bar, o botequim Mau Cheiro, no Arpoador, conheceu sua futura mulher. Em janeiro de 1967, casa-se com a baiana Ana Maria dos Santos e Silva. 

No ano de 1968, o Tropicalismo, chegava a seu auge, com o lançamento do disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circences, que reúne na capa os representantes do movimento: Capinam, Nara Leão, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rogério Duprat, Os Mutantes, Tom Zé, Gal Costa e Torquato Neto. Torquato brilhou como excepcional letrista e sua grande contribuição para o movimento foram as letras da canção-manifesto Geléia Geral, de Marginália 2, de Mamãe Coragem e de Deus vos salve esta casa santa.

As tensões políticas do país, o clima de repressão, as perseguições ao movimento e a seus representantes, levou à fragmentação do grupo. No final de 1968 a final de 1969 foi contemplado com bolsa de estudo para escrever sobre as influências africanas na música popular brasileira e segue, uma semana antes da decretação do Ato Institucional n° 5, para a Europa e Estados Unidos. O casal é acompanhado por Hélio Oiticica, amigo e confidente de Torquato. Em Londres, conversa com Jimi Hendrix (ouvindo “aquele álbum branco dos Beatles”) e concede entrevista à BBC.

Viajou para Nova York, Paris e Londres, onde morou até o ano de 1970, quando retornou ao Brasil, ano do nascimento do filho Thiago.

De volta ao Brasil, incentivou e participou de diversas publicações alternativas: fundou o jornal Flor do Mal, com Tite de Lemos, Rogério Duarte e Luis Carlos Maciel, além de O Sol, Presença e Verbo Encantado. Escreveu para grandes jornais e revistas brasileiros, e manteve, de agosto de 1971 a fevereiro de 1972, a famosa coluna Geléia Geral, no diário Última Hora. Com Wally Salomão planejou e editou uma das publicações mais importantes da década de 70, a revista de número único Navilouca, publicada postumamente em 1974.

O cinema exerce um fascínio terrível sobre o poeta: “As letras dele são, na realidade, roteiros cinematográficos”, afirma o jornalista, escritor e filólogo Paulo José Cunha, primo de Torquato. Foram vários os filmes, em Teresina, no Rio e em Salvador, entre 1961 (roteiro de Barravento) e junho de 1972 (O forasteiro da cidade verde ou só matando).

Além de participar como ator de filmes de Ivan Cardoso, Nosferatu no Brasil e Luiz Otávio Pimentel, Dirce & Helô, Torquato chegou a realizar, em Teresina, um filme em super-8, Terror da Vermelha, pouco antes de morrer.

Scarlet Moon  e Torquato Neto – no filme  Nosferatu no Brasil, de Ivan Cardoso, 1971

Além das letras e do cinema, Torquato integrou as equipes de shows musicais marcantes. Com Capinan e Caetano, roteirizou Pois é, de Maria Bethânia, em 1966; de janeiro a maio de 1967, participou de Ensaio Geral, na TV Excelsior (com Radamés Gnatalli, Tamba Trio, Gil, Caetano, Sérgio Ricardo, Tuca, Sidney Miller, Época de Ouro, Jacob do Bandolim, Ismael Silva, Cyro Monteiro); em julho de 1967, roteirizou, para a TV Record, ao lado de Caetano, o Frente Única – Noite da Música Popular Brasileira.

Apaixonado pelo carnaval, em janeiro de 1971, vai a Teresina e compõe, com Silizinho, o samba-enredo da Brasa-Samba.

Torquato confessava a amigos sentir-se um trapo, um derrotado, um infeliz perpétuo. Internado, mais uma vez, no sanatório do Engenho de Dentro, Rio de Janeiro (em Teresina, várias vezes esteve no Meduna, para desintoxicar-se), escreveu: “(…) Incrível, já não preciso mais (…) liquidar meu nome, formar nova reputação como vinha fazendo sistematicamente como parte do processo autodestrutivo em que embarquei – e do qual, certamente, jamais me safarei por completo(…).

Seu suicídio, um dia depois de seu 28º aniversário, provocou espanto. Torquato voltou de uma festa com a mulher — que foi dormir —, trancou-se no banheiro e ligou o gás, sendo encontrado morto no dia seguinte pela empregada. Deixou um bilhete de despedida que dizia: “Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar”. Thiago era o filho de três anos de idade. 

Em 1973 Waly Salomão e Ana Maria Duarte reuniram algumas de suas poesias, letras e textos editados na coluna do jornal “Última Hora” e lançou o livro Os últimos dias de Paupéria, que veio acompanhado por um compacto simples com duas músicas: Três da madrugada, com Gal Costa e Todo Dia é Dia D, com Gilberto Gil. O livro também trouxe textos de apresentação de Décio Pignatari, Hélio Oiticica, Haroldo e Augusto de Campos e foi editado pela coleção Na Corda Bamba, da Editora Pedra Q Ronca.

No ano de 1982, a Secretaria Estadual de Cultura, Desportos e Turismo do Piauí criou o Projeto Torquato Neto, para incentivo da cultura local, patrocinando shows, eventos, encontros, gravações etc.

Em 1983, a RioArte estabeleceu o Prêmio Torquato Neto para monografias, sendo editado um livro com algumas delas no ano seguinte, entre elas, destaca-se Um poeta não se faz com versos, de André Bueno, sobre a atuação de Torquato Neto na cultura dos anos 60/70 .

Em 1984, pela Editora Max Limonad Ltda, o livro Os últimos dias de Paupéria foi revisto e ampliado, incluído o roteiro Vida, paixão e banana do tropicalismo, escrito por Torquato em parceria com Capinan e que seria encenado com direção de Zé Celso Martinez. O livro passou a chamar Os últimos dias de Paupéria – do lado de dentro e teve como produtores Waly Salomão, Ana Araújo e o poeta Chacal.

Em 1985, a RioArte, em conjunto com Secretaria de Cultura, Desporto e Turismo do Piauí, patrocinou o disco “Torquato Neto – Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia”, com texto e entrevistas de Gilberto Gil, Tárik de Souza entre outros,  além de 12 composições do poeta com vários parceiros.

Em 2005, a Editora Rocco lançou Torquatália – do lado de dentro, versão ampliada de Os últimos dias de Paupéria, na qual adicionou textos inéditos do poeta, inclusive, poemas dedicados ao amigo, também poeta e letrista, Ronaldo Bastos. O livro Torquatália – do lado de dentro é uma coletânea organizada pelo jornalista, editor, crítico musical e de literatura Paulo Roberto Pires e traz dois tomos: Do lado de dentro e Geleia geral, este último com a produção jornalística no Jornal dos Sports, a coluna Música popular do ano de 1967, pelo Correio da Manhã, na coluna Plug, no ano de 1971 e no Jornal Última Hora, com a sua mais famosa coluna Geleia geral, entre agosto de 1971 e março de 1972

Neste mesmo ano de 2005 o jornalista Toninho Vaz lançou Pra mim, chega, biografia não autorizada pela família do poeta.

Em 2006 foi montada a peça Artorquato, sobre a vida e a obra do artista. A peça, com direção do psicanalista Antonio Quinet, foi encenada por Gilberto Gawronski, Cristina Aché e Ronaldo Bottino.

Em 2007 foi lançado, pela Halley Gráfica Editora e Fundação Quixote, o livro Torquato – Cancioneiro Torquateano – A Palavra Cantada – 1965/1972), no qual também foi encartado um CD em mp3 com 70 gravações de suas composições por diversos intérpretes, entre os quais Gilberto Gil,  Maria Bethânia, Daniela Mercury, Ana Miranda, Gal Costa, Elis Regina, Jair Rodrigues, Francis Hime, Nana Caymmi, Caetano Veloso, Nara Leão, Edu Lobo, Leila Pinheiro, Leo Gandelman, Jards Macalé, Joyce, Novvelle Cuisine, Titãs, Edvaldo Nascimento, Só Pra Contrariar, Luiz Melodia, Angela, Paulo Sérgio Valle, Sérgio Britto, Zeca Baleiro, Raimundo Fagner.

No livro também foram incluídas parceria inéditas do poeta com Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Bosco, Carlos Galvão, Toquinho e Luiz Melodia. O livro foi lançado oficialmente no 5º Salão do Livro do Piauí (SALAPI) no Ano Torquato Neto 2007, instituído pela Secretaria de Cultural do Estado do Piauí.

Em sua homenagem a prefeitura da cidade de Teresinha criou a Sala Torquato Neto, para shows e ventos.

Fontes:

Torquato Neto, anjo torto. Longa metragem em finalização

Torquato Neto o anjo torto. Site oficial  

Torquato Neto – o anjo torto, por Elfi Kürten Fenske  

Torquato Neto na Wikipédia 

Torquato Neto no Dicionário Cravo Albin 

Torquato Neto no Tumbir 

Biografia relata a inquieta vida do poeta piauiense Torquato Neto, por Pedro Santiago 

Filho de Torquato Neto visita Teresina e diz como foi escutar o pai pela 1ª vez

A história por trás da música – Cajuína (Caetano Veloso)  

Livros inéditos do poeta Torquato Neto são lançados em Teresina 

As múltiplas faces do Tropicalismo: Torquato Neto – o roteirista, por Valéria Aparecida Alves 

Torquato Neto, a poética do impossível 

Torquato, uma figura em pedaços, por José Castello 

Torquato Neto na geleia geral brasileira, por Marcus Vinícius Câmara Brasileiro 

Torquato Neto, o cara que não andava sendo Feliz por aí, por Gregório Macedo 

Tropicália, um projeto de Ana de Oliveira  

O vidente marginal da Tropicália era um poeta, por Jr. Bellé 

A volta do poeta da geléia geral, por Carlos Ávila 

Videos:  

Solicitou, por várias vezes, que retirassem seu nome da música “Soy loco por ti, América”, alegando a autoria somente para Gilberto Gil e Capinan, pois a editora musical colocou seu nome indevidamente nesta composição, fato que nunca causou mal estar aos dois verdadeiros autores (Gil e Capinan). 

  

Registro de Torquato Neto, em um Sanatório, em Botafogo, Rio de Janeiro

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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  1. Jair Fonseca

    10 de novembro de 2014 1:42 pm

     Divulgo novamente que, justo

     Divulgo novamente que, justo nos 70 anos de Torquato Neto, foi descoberto o único registro de sua voz, através de um radialista gaúcho que o entrevistou em 1968. Desde então, a fita esteve esquecida. Ironia do destino: o autor de algumas das principais canções brasileiras não tinha até então qualquer gravação de sua voz… 

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=yTdCid6sQz0%5D

  2. Jair Fonseca

    10 de novembro de 2014 2:02 pm

    Ótima antologia de canções, Mara.

    Torquato Neto fez papel de vampiro num ótimo curta em super-8 de Ivan Cardoso: Nosferato no Brasil, de 1970, que tem ótima trilha de rock e otras cositas más. “Onde se vê dia, veja-se noite…”

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=DSWynuj1xi4%5D

  3. Erly Ricci

    10 de novembro de 2014 3:29 pm

    Toninho Vaz traz uma nova biografia de Torquato

    O jornalista e escritor Toninho Vaz, que fez a excelente biografia de Paulo Leminski, “o bandido que sabia latin”, está lançando por todo o Brasil a 2ª edição do seu mais novo trabalho,” A biografia de Torquato Neto”, pela Editora Nossa Cultura. A primeira edição foi lançada em 2006 pela Editora Casa Amarela.

    a

  4. Luiz Gonzaga da Silva

    10 de novembro de 2014 4:44 pm

    “… por Valéria Aparecida

    “… por Valéria Aparecida Alves “

    A mesma  autora escreveu interessante trabalho sobre a passagem de TN no Jornal dos Sports.

    http://www.anpuhsp.org.br/sp/downloads/CD%20XX%20Encontro/PDF/Autores%20e%20Artigos/Val%E9ria%20Aparecida%20Alves.pdf

     

  5. Gregório Macedo

    11 de novembro de 2014 4:32 am

    Torquato Neto, o cara que não andava sendo feliz por aí

    Está em vias de publicação a terceira edição de ‘Torquato Neto ou a Carne Seca é Servida’, de Kenard Kruel, cuja segunda edição tive a honra de revisar. Nessa nova edição, o autor resolveu incluir artigo de minha autoria (título acima), publicado em meu blog domacedo.blogspot.com.br em dezembro de 2008 – e que Mara Baraúna indica como uma de suas fontes.

     

     

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