Do Portal LN
Meira, Dona Elza e Baden Powell (Acervo IMS)
Freqüentadora assídua do excelente Blog do Instituto Moreira Salles (IMS) eis que dou de cara com fotos históricas e um texto fantástico, carregado de emoção, do violonista Mauricio Carrilho enfocando a gênese do moderno violão brasileiro representado por Jayme Florence e Baden Powell.
Do blog do IMS
Baden e Meira, o encontro do moderno violão brasileiro – por Mauricio Carrilho
por Mauricio Carrilho*
A fotografia impressiona. Meira parece um totem. Dona Elza, seu anjo da guarda. E o Baden menino se eleva como uma estátua em homenagem ao violão. Meira e Baden foram os principais artífices do moderno violão brasileiro. Não falo de melodia e harmonia ao me referir a essa modernidade, nem acho que fizeram o trabalho sozinhos. Falo do que buscaram em suas ancestralidades para fazer, com o violão, o que ninguém tinha feito em nenhum lugar do mundo. Eu me refiro aos tambores e chocalhos de índios, negros, caboclos e cafuzos, que os dois encantaram e fizeram caber nas seis cordas de seus violões. A rítmica dos violões de Meira e Baden divide as águas do nosso violão.
Eu ainda não tinha nascido quando essa foto foi tirada. Deve ser de 1946. Meira com 36 anos, Dona Elza com 26 e Baden com 9. Provavelmente foi o ano em que Baden ganhou seu primeiro prêmio, num programa de calouros chamado Papel Carbono, solando o “Magoado” de Dilermando Reis.
Não conheci essa casa da foto. Quando fui estudar violão com Meira, vinte e cinco anos depois, ele já morava na casa-monumento-em-homenagem-à-música, com pentagramas e claves de sol trabalhadas em ferro em todas as portas e janelas. (Ali outro menino chegaria, dez anos depois, também para estudar com Meira: Rafael Rabello). Mas reconheço perfeitamente essa atmosfera. O olhar distante do Mestre, que parecia enxergar muito além, o carinho e a doçura de Dona Elza, paciente e dedicada companheira do professor que me recebia em casa como a um membro da família.
Meira gostava de contar histórias do Baden, como a do dia em que ele chegou querendo tocar o “Voo do besouro” no violão. Tinha 9 anos. Meira ria quando se lembrava da abençoada falta de limites do menino Baden. Várias vezes, em shows e entrevistas, vi o Baden rasgar elogios e palavras de reconhecimento ao Mestre.
Uma vez fui a uma master class do Baden. Foi no Festival de Música de Curitiba, onde eu tinha ido trabalhar como professor de violão. Levei meus alunos. Baden não estava bem. Abatido, com um fio de voz tentava conduzir um papo que se arrastava monótono, quase constrangedor. Eu sabia que aquele não era o Baden, meus alunos não. Resolvi intervir e perguntei:
– Baden, qual foi a importância que o Meira teve pra você?
Ele se transformou, como se tivesse recebido uma carga de energia. A voz mudou, começou a tocar o “Samba da benção” fazendo mil levadas diferentes, os tambores chegaram, Baden convidou meus alunos a tocarem com ele e o que se viu foi essa luz, que ilumina o Meira na foto, clareando o ambiente sombrio do Teatro Paiol. A simples lembrança do Mestre operou o milagre.
As aulas do Meira e os discos do Baden me deram o norte. Tento passar aos violonistas mais jovens esse caminho.
Dona Elza, pequena, bonita, animada, poucos meses depois da morte do Meira estava preenchendo um volante da loteria esportiva quando seu coração parou. A saúde era ótima, o que teria acontecido? Dizem que foi enfarte. Eu sei que foi saudade. Quem olhar bem para essa fotografia vai concordar.
Meira e Mauricio Carrilho
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* Mauricio Carrilho é violonista.
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Mauricio Carrilho além de violonista é arranjador, produtor e pesquisador de MPB. Estudou violão com Meira, Dino 7 Cordas e também, violão clássico, com João Pedro Borges. (Tive a oportunidade de interagir com o violonista João Pedro Borges por ocasião do I FENAVIPI (Festival Nacional de Violão do Piauí), em 2004. Um aprendizado para a vida toda.
Segundo o livro “Violão Ibérico”, Meira, antes de aceitar um aluno, submetia-o a um teste de ouvido e ritmo. “A Mauricio Carrilho, deu-o como aprovado quando tinha 12 anos. A aula ficou marcada para os sábados, às 7 da manhã. Meira as dava em sua casa (…). Carrilho lembra que saia com ele para comprar umas cervejas e que o mestre lhe dava uns goles no copo. E conta uma história de Meira com Garoto:
– Ô Meira, vamos alugar um apartamento aqui no centro?
– O que isso? Sou um cara muito bem casado. Você vem com esse papo de alugar um apartamento, bagunça com as mulheres
– Não, nada disso, você não está entendendo, é pra gente tocar porque, toda vez que a gente vai tocar, vêm esses caras aí e atrapalham, que não tocam nada, é só pra gente tocar
– Ah, então tá bom.
Mauricio Carrilho (2000) em parceria com o bandolinista Pedro Aragão e a cavaquinista Luciana Rabello,fundaram a Escola Portátil de Música (EPM), para o ensino de choro, fomentando novos grupos e novos instrumentistas no gênero.
Neste mesmo ano, em parceria com Luciana Rabello, criou a gravadora Acari Records, a primeira gravadora brasileira especializada em choro e pela qual lançaram diversos disco do gênero, entre os quais o disco do flautista Álvaro Carrilho (pai de Maurício Carrilho), a caixa com 15 CDs da coleção “Princípios do Choro” e uma caixa com cinco CDs contendo boa parte da obra do flautista Joaquim Callado.
Encerro com uma ótima notícia que recebi do mestre Hermínio Bello de Carvalho: “Estive com a professora Luciana Rabello, que me levou para conhecer a futura sede da Escola Portátil de Música, ali na Rua da Carioca, quase em frente ao centenário Bar Luiz”.
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Fonte:
– Dicionário Cravo Albin da MPB
– Blog do IMS
– Livro: Violão Ibérico, de Carlos Galilea. Rio de Janeiro: Trem Mineiro Produções Artísticas, 2012.



mcn
1 de outubro de 2013 4:34 pmMeira e João Pernambuco
Segundo li, Meira (e Dilermando Reis) tiveram aulas, ou algo parecido com isso, com João Pernambuco, cujas composições influenciaram Villa Lobos. Ou seja, há uma linha cheia de vida e música que vem, ininterrupta, do início do século XX até os dias de hoje e que fecunda o violão popular e o erudito no Brasil.
Carrilho diz que Meira foi melhor violão de 6 cordas do choro brasileiro, pois sabia como ninguém preencher o vazio entre as baixarias do violão de 7 e os outros intrumentos melódicos típicos dos regionais de choro.
Laura Macedo
2 de outubro de 2013 12:43 amRespondendo
Mcm, como sempre seus comentários acrescentam muito ao post.
Não esqueci a sua sugestão de um post com o Luiz Carlos Vinhas. O meu tempo parece que encolheu e não tenho dado conta das minhas agendas…
Abraços.
mcn
2 de outubro de 2013 2:05 amObrigado pela lembrança, Laura
Obrigado pela lembrança, Laura.
Aprendo muito com vc.
Abraços.
morallis
1 de outubro de 2013 7:01 pmLendo o ” post” me lembrei do
Lendo o ” post” me lembrei do grande Ronoel Simões considerado o grande arquivo do violão brasileiro, fomos
vizinhos uma época embora eu não saiba se o mesmo ainda vive.
Laura Macedo
1 de outubro de 2013 10:37 pmRespondendo
Morallis, infelizmente o Ronoel saiu de cena em 2010 (tenho quase certeza que foi dia 5 de outubro). Seu acervo é de um valor imensurável; tomara que tenha um bom destino. Em 2009 publiquei no PLN um pequeno post: “A invejável coleção de Ronoel Simões”. Deixo o link que lhe levará à um video com uma entrevista dele ao programa Metrópolis. Vale a pena conferir a entrevista.
Morallis, sua paixão pelos discos vem antes de ser vizinho do Ronoel ou do berço? 🙂
Abraços.
morallis
1 de outubro de 2013 11:04 pmVem bem antes!
Mas o Ronoel
Vem bem antes!
Mas o Ronoel era tão fanático por violão e tão curioso sobre autores que “bater papo com ele era uma aventura quase “surreal.Levei um violão “Francisco Munhoz”
certa vez prá ele opinar sobre , o mesmo (bem idoso) ficou no mínimo 10 minutos com ele na mão em silêncio,em seguida mandou essa:” Esse violão é para artistas”.
Laura Macedo
2 de outubro de 2013 12:46 amQue inveja 🙂
Ai que inveja!! Vizinho do Ronoel e privar da sua intimidade….
Laura Macedo
1 de outubro de 2013 11:04 pmO LINK
http://blogln.ning.com/profiles/blogs/a-invejavel-colecao-de-ronoel
mcn
2 de outubro de 2013 2:11 amAcervo do Ronoel
Oi, Laura.
O acervo do Ronoel foi comprado pelo Centro Cultural São Paulo (PMSP), em 2011.
Saiu uma notícia no Estadão: https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/a-colecao-de-discos-de-ronoel-simoes
Parece que o Fábio Zanom estava acompanhando a catalogação.
O acervo, realmente, é único no mundo.
morallis
2 de outubro de 2013 7:28 pmNa verdade o acervo do Ronoel
Na verdade o acervo do Ronoel que era diferenciado é o de “partituras”, quanto aos discos, nada de incomum.
Raphael Coelho
1 de outubro de 2013 7:10 pmmestres
Mauricio escreve esse texto como o Baden falou e tocou na referida aula. Como meninos admiradores do mestre. Porém, assim como Baden, Mauricio há tempos é mestre. Existem muitos violonistas excelentes no país mas essa linguagem aí quase perdida tem em mestres como Caçula e Maurício uns dos poucos representante. Maurício era considerado aluno exemplar por Meira e isso já diz tudo. Já não bastasse seu violão e registros históricos nas caias mencionadas da Acari, Mauricio através da EPM fez uma legião de garotos novos conhecerem, se encantarem e estudarem essa linguagem que ia se perdendo. Talvez uma das suas maiores contribuições à música seja esta. O Mestre vive na obra de Mauricio Carrilho que está muito orglhoso disso.
Laura Macedo
1 de outubro de 2013 10:58 pmAssino embaixo
Raphafel, assino embaixo do seu ótimo comentário. O efeito multiplicador que o Mauricio Carrilho vem realizando com sua práxis violonística nos dá a certeza da continuidade dos ensinamentos dos pioneiros de todos os tempos. Abraços.
Laura Macedo
1 de outubro de 2013 10:51 pmHomenagem ao Meira
Amigos, hoje, se vivo, o Meira estaria completando 104 anos. Para homenageá-lo fiz um post, e era esse post que gostaria que tivesse sido destacado aqui no LNO (incluvide ele tem um link para o excelente texto do Maruricio Carrilho), Geralmente os que faço no PNL é mais difícil de subir para o LNO. Portanto deixo o link. Sou supeita, mas acho que vocês irão gostar 🙂 Abraços a todos.
Gregório Macedo
2 de outubro de 2013 4:43 amO melhor desses relatos
Sensacional o lance em que Baden se transforma em face da alusão ao mestre Meira. É se se presenciasse a cena, tal a pungência de quem relatou o episódio. Tudo gira em torno do violão, essa coisa fascinante, como você diz. Meira, Baden, Carriho, os alunos de Carrilho, todos levados pela magia do violão.
Certa vez deparei com uma expressão: “paraíso portátil”. Taí, cairia bem para o violão!
Beijos.
Gregório Macedo
2 de outubro de 2013 4:46 am“É como se se presenciasse…”
Está feito o reparo.
Laura Macedo
2 de outubro de 2013 1:05 pmAssino embaixo
Gregório, assino embaixo da feliz expressão – “paraíso portátil”. Você é testemunha que eu tentei fazer parte desse paraíso, mas o resultado foi outro tipo de paraíso. o “fixo”, ou seja, “arranhar” o sublime violão entre quatro paredes rsrsrrs.
Beijos.