5 de junho de 2026

Falta uma agenda intelectual ao país, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Comentário ao post “Falta visão estratégica ao país

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Falta uma agenda intelectual ao país. “Intelectual” não no sentido da profissão intelectual, mas no sentido do que já se chamou de “pensamento social”. Os últimos a rascunharem isso de uma forma grotescamente caricatural foram os militares da ditadura e seu projeto de Brasil-grande, de modernização excludente e de recusa à cidadania.

O projeto neoliberal era um antiprojeto por excelência: desmantelar tudo e deixar que as “forças inatas” da competição selvagem se assenhoreassem da regulação social. Se o projjeto dos militares era nacional e antipopular, o projeto neoliberal de Collor e FHC era antipopular e antinacional.

Com isso, o único precedente honroso que nos resta é o dos desenvolvimentistas dos anos 50, que ainda ousavam falar de uma “civilização brasileira”.

Isso tudo se perdeu porque um pensamento possível sobre a nação fugiu do horizonte dos debates públicos. E creio que isso se deve tão simplesmente ao fato de que há décadas conspira-se sistematicamente pelo desmantelamento do espaço público. Desde as políticas neoliberais de desmonte do público, em favor do imediatamente privado, até as políticas de conversão do público ao critério semi-economicista do consumo, operada pelos governos federais do PT.

Não, as políticas sociais não são armadas sobre bases conceituais sólidas. Simplesmente porque tais “bases” não são objeto do debate público, e menos ainda dos setotes que produzem conhecimento. Se assim o fosse, coisas como a política indigenista brasileira teriam rumos bem distintos da submissão errática às conveniências da política menor, a política armada entre gabinetes.

Em um artigo que publiquei há dois meses e meio atrás (http://www.academia.edu/3851077/El_incendio_politico_en_Brasil), eu comparava o ambiente da eclosão das manifestações de junho no Brasil à asfixia da “democracia pactada” dos anos liberais na Bolívia, que acabou na queda do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada. O estreitamento do espaço público, como espaço da dialogia política, parece diretamente proporcional à estreiteza das visões estratégicas.

Considerar os institutos militares como locus de produção de conhecimento só pode ser uma concessão poética do Nassif, porque fui oficial, analiso também militares e sei exaustivamente bem que a mediocridade e o esquematismo são a norma no que diz respeito ao debates de idéias nesse ambiente. Não, a ESG não produziu nada além dessa escolástica de apostilas. O tal “pensamento militar” não era mais que uma fantasmagoria decalcada da agenda autoritária da tutela, ladeada por arremedos tecnocráticos que buscavam tão apenas a reiteração, em termos tecnicamente mais eficientes, da velha ordem senhorial.

Do que o Brasil precisa?… talvez seja isso que devemos começar a discutir. A derrubada de Sánchez de Lozada na Bolívia instituiu politicamente naquele país a “agenda de outubro”, que levou Evo Morales ao poder, à elaboração de uma nova Constituição e a um redesenho quase completo da institucionalidade do país. Infelizmente as forças progressistas no Brasil se omitiram (ainda, pelo menos) da ousadia de propor uma “agenda de junho” (ironicamente, um dos poucos ousam insinuar isso é a figura política arquetípica da sonegação do debate público em nome da conciliação paleativa: Lulinha Paz & Amor). O ambiente intelectual no país é em boa medida asfixiante e mistificador, movido por embates corporativos e particularistas por trás dos quais se encontram grandes forças institucionais, como a Fundação Ford e o Instituto Milenium.

Sim, falta fôlego, mas as tensões são grandes, e um diagnóstico acurado e ousado delas ainda não foi feito.

Não basta reclamar salvacionismos tecnocráticos e elencar pontualidades avulsas. É preciso construir uma mirada distanciada que pense grande, articulada e atrevidamente o significado dos contextos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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3 Comentários
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  1. paulo rousseff lula da silva

    26 de setembro de 2013 3:20 am

    Quem poderia fazer um debate

    Quem poderia fazer um debate na sociedade, a grande mídia brasileira, está comprometida com outras coisas. A agenda do país é feita ainda pela grande mídia, a qual se importa pouco com qualquer coisa associada ao termo intelectual. Os partidos e os políticos, com minúsculas exceções estão comprometidos com a midia, ou estão com medo do que venha a ser manchete no dia seguinte.Não só os políticos. A classe artística brasileira é de uma burrice que dá dó ( e  muitos , de uma malandragem só). sinceramente, eu acho com sinceridade que o maior exercício intelectual da contemporaneidade brasileira está nos blogs sujos. Então essa agenda intelectual poderia começar com o estímulo aos blogs sujos ou o estímulo à criação de mais blogs sujos. Seria um ótimo começo. Abs

  2. Assis Ribeiro

    26 de setembro de 2013 8:29 am

    Excelente

    A matéria aponta que visão estratégica é ato político, ideológico.

  3. Calvin

    26 de setembro de 2013 3:08 pm

    Ainda bem que a sociedade

    Ainda bem que a sociedade brasileira se “omitiu” de implantar o bolivarianismo aqui.

    Quanto aos neo-liberais…

    “quando [os investimentos] são feitos exclusivamente pelo setor privado, são mais ágeis, mais eficientes e de menor custo”  

    Dilma Roussef, no encerramento do evento Oportunidades em Infraestrutura no Brasil, organizado pelo banco americano Goldman Sachs

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