4 de junho de 2026

Como está, de fato, esse novo Brasil?

 

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Houve um tempo em que diziam que o Brasil era a Belíndia, ou seja, uma mistura de Bélgica e India, porque reunia em um único país regiões razoavelmente bem desenvolvidas e regiões de absoluta pobreza e nenhuma infraestrutura básica. Nos últimos anos o Brasil se modificou, porque algumas ações de governo geraram resultados significativamente bons, no entanto, o país não se livrou do estigma de ser, fundamentalmente, um país de profundos contrastes.

O Brasil de hoje ainda exibe uma economia bastante pujante, uma economia, indiscutivelmente, de pleno emprego e na qual se amplia rapidamente uma nova classe média, deixando em todos a sensação clara de que a população brasileira vive um momento de bem estar, porém, ao lado desses aspectos positivos também existem alguns indicadores recentes preocupantes, como é o caso do baixo crescimento e da inflação que se elevou a partir de 2011. Estes indicadores sinalizam com a possibilidade de que haja uma descontinuidade do ciclo de desenvolvimento e até a possibilidade de uma crise num futuro próximo. É possível trazer o Brasil, de volta, aos bons momentos vividos até 2010?

Na década passada o Brasil viveu um ciclo de desenvolvimento econômico que permitia imaginarmos que o país estivesse em um ciclo de crescimento sustentado, como aliás, gostava de afirmar o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O país apresentava uma trajetória favorável na economia e, inclusive, exibiu uma competência e uma pujança admiráveis ao superar rapidamente a crise econômica mundial do período 2008-2009. Passada essa década de euforia o país apresentou um baixo crescimento do PIB em 2011 e ainda mais baixo em 2012, indicando que o período favorável pode ter sido de caráter temporário e, pior ainda, pode ser resultante de fatores externos e cíclicos, esgotados no final da década passada.

Não há como negar que, no período 2004 a 2010 0 Brasil foi beneficiado por uma situação histórica única de bonança, em função da explosão dos preços das commodities que exportamos e de um momento em que conquistamos a credibilidade dos investidores internacionais, provocando uma entrada, em volumes até então inimagináveis, de capitais estrangeiros. Esse alinhamento de fatores favoráveis ao desenvolvimento da economia refletiu no crescimento do PIB, que levou o Brasil à condição de 6ª economia do mundo, e a um nível de absorção de mão de obra sem precedentes históricos, atingindo praticamente uma situação de pleno emprego.

A partir de 2011 esse ciclo começou a dar sinais de enfraquecimento. Os preços das commodities pararam de crescer, a entrada de capital estrangeiro diminuiu, a disponibilidade de mão de obra ociosa se esgotou e o câmbio deixou de ser tão favorável às exportações. Em função desse novo cenário o crescimento do PIB arrefeceu e a inflação se elevou, trazendo os temas antigos de nossa economia, novamente, ao centro das discussões. Esse baixo crescimento acompanhado de uma tendência de alta da inflação são resultado do baixo investimento e da elevada carga tributária. Esses dois fatores acabam tendo como resultante um terceiro fator, muito importante, que é a reduzida participação do comércio exterior na atividade econômica brasileira. O Brasil não apresenta um desempenho compatível, no comercio exterior, com o desempenho dos demais países desenvolvidos. A China é a 3ª economia e a 2ª exportadora, os EUA são a 2ª economia e 3ª exportadora, a União Europeia é a 1ª economia e a 1ª exportadora, enquanto o Brasil é a 6ª economia e a 24ª exportadora.

Essa situação fica ainda mais preocupante quando verificamos que as importações brasileiras em relação ao PIB representam apenas 13%, ou seja, o Brasil exporta muito pouco e importa menos ainda, o que coloca o país como um dos mais “fechados do mundo”, talvez mais até do que a Coréia do Norte, que ostenta os mesmos 13% de seu PIB em importaçoes.

Esse fechamento não é intencional mas fruto da falta de capacitação para uma integração com o resto da comunidade econômica mundial. O Brasil não é competitivo o suficiente para ser integrado a essa comunidade, portanto, esse é o grande desafio que se apresenta para os próximos anos. É preciso formular uma estratégia para vencer o desafio de se integrar às cadeias produtivas globais, porque sem isso não é possível a obtenção de crescimento sustentado em uma economia globalizada. Mas formular estratégia não é a prática usual dos governos brasileiros, desde a década de 1970, quando tivemos os últimos Planos Nacionais de Desenvolvimento.

De fato esse desafio não é tão pequeno e, inclusive, se contrapõe a algumas das políticas atualmente em uso pelo governo brasileiro. Precisamos disponibilizar volumes significativos de recursos para investimentos, sobretudo em bens de capital, para tornar, sobretudo, nossa indústria mais competitiva em termos globais, o que pode se contrapor aos interesses atuais de desenvolvimento de programas sociais de distribuição de renda como o Bolsa Família e o Brasil Carinhoso, ambos voltados para a eliminação da pobreza, muito meritórios, mas consumidores de recursos e, portanto, dependentes de que o país reúna a riqueza necessária para mantê-los. Focado nesse tipo de programas assistencialistas o país tem deixado de investir em produtividade e não tem aproveitado a oportunidade de se afirmar globalmente como uma economia forte e competitiva. Os investimentos acabam indo para assistencialismo, quando deveriam ir para a incremento de competitividade.

Para continuar se destacando no contexto econômico e político global e sendo o destaque dos BRICS, neste lado do mundo, o Brasil precisaria, primeiro, fazer uma antecipação de aumento das importações, o que provocaria uma depreciação da taxa de câmbio. A proteção diferenciada que atualmente se exerce pelas tarifas às importações e outros mecanismos transformar-se-ia numa “proteção cambial” horizontal, beneficiando os setores e atividades com maior vocação exportadora. Segundo, o governo deveria, efetivamente, reduzir a carga tributária sobre as empresas, de forma a dar-lhes melhores condições de competir com os produtos estrangeiros e terceiro, o governo teria que dar às empresas a possibilidade de poderem importar bens de capital e insumos mais baratos e de integrar as indústrias brasileiras às cadeias produtivas globais.

O ciclo virtuoso vivido pela economia brasileira aconteceu por alguns acertos de política governamental e, principalmente, circunstancialmente, a reboque da locomotiva chinesa, porém, sua continuidade exige a formulação de uma estratégia de sustentabilidade, conforme apresentado anteriormente, no entanto, o governo brasileiro não tem sido capaz de formular estratégias, aliás, essa é a grande deficiência dos governos brasileiros já há quase 50 anos, o menosprezo ao planejamento e à gestão estratégica, ignorando que nada é possível nos tempos atuais sem uma boa estratégia e sem a gestão dessa estratégia.

Exatamente agora, portanto, o Brasil vive seu momento de definição. Se ficar aguardando que as coisas aconteçam como ocorreram até agora, ou seja, que voltem as condições internacionais favoráveis, poderá perder, mais uma vez, a grande oportunidade de conquistar uma condição de maior desenvolvimento econômico e social. Se ficar acomodado e acreditar que somente a manutenção dos programas assistenciais, que fortalecem o mercado interno, são suficientes para o desenvolvimento do país, deixaremos escapar a chance de ser a estrela do presente e voltaremos à condição já secular de “país do futuro”, aquela que todos imaginavam que já estivesse superada.

Por Joao D Caetano de Oliveira

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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