Como em anos anteriores, a minha sugestão para o Fora de Pauta de hoje, é a celebração do Armistício da Primeira Guerra Mundial. Há 94 anos, às 11h00 do dia 11.11.1918, cessaram as hostilidades da primeira grande guerra da era industrial.
No Reino Unido, o Remembrance Day também é conhecido como Poppy Day. Se alguém viu algum programa da BBC esta semana, deve ter reparado que muitos usam uma pequena papoula vermelha presa à camisa ou casaco. É para homenagear os mortos nas guerras.
Às 9h00, façamos um minuto de silêncio por aqueles que perderam a vida em guerras. Façamos um minuto de silêncio também por aqueles que perderam entes queridos na mais cruel das atividades humanas.
Eis aqui dois dos poemas mais famosos da Primeira Guerra (1914-1918), seguidos das respectivas traduções. São de minha lavra e estão fora de métrica e de rima, servindo apenas para ajudar a quem não fala inglês:
In Flanders Fields – John McCrae, MD (1872-1918)
In Flanders Fields the poppies blow
Between the crosses row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.
We are the Dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie
In Flanders fields.
Take up our quarrel with the foe:
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.
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NOS CAMPOS DE FLANDRES
Nos campos de Flandres, as papoulas florescem
Entre as cruzes, fileira após fileira,
Que marcam o nosso lugar; e, no céu,
As cotovias, ainda cantando bravamente, voam
Pouco ouvidas entre os canhões abaixo.
Somos os Mortos. Há poucos dias,
Vivíamos, sentíamos o amanhecer, víamos o rubor do pôr do sol,
Amávamos e éramos amados, e agora jazemos,
Nos campos de Flandres.
Continue a nossa luta com o inimigo:
Com as mãos débeis, jogamos a tocha
Para você; seja sua para erguê-la bem alto.
Se você não cumprir a promessa feita para nós que morremos,
Não descansaremos, embora papoulas cresçam
Nos campos de Flandres.
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Mas o meu preferido é um do poeta inglês Wilfred Owen (1893 – 1918):
DULCE ET DECORUM EST (8/10/1917 – 3/1918)
Bent double, like old beggars under sacks,
Knock-kneed, coughing like hags, we cursed through sludge,
Till on the haunting flares we turned our backs
And towards our distant rest began to trudge.
Men marched asleep. Many had lost their boots
But limped on, blood-shod. All went lame; all blind;
Drunk with fatigue; deaf even to the hoots
Of tired, outstripped Five-Nines that dropped behind.
Gas! Gas! Quick, boys! – An ecstasy of fumbling,
Fitting the clumsy helmets just in time;
But someone still was yelling out and stumbling,
And flound’ring like a man in fire or lime…
Dim, through the misty panes and thick green light,
As under a green sea, I saw him drowning.
In all my dreams, before my helpless sight,
He plunges at me, guttering,11 choking, drowning.
If in some smothering dreams you too could pace
Behind the wagon that we flung him in,
And watch the white eyes writhing in his face,
His hanging face, like a devil’s sick of sin;
If you could hear, at every jolt, the blood
Come gargling from the froth-corrupted lungs,
Obscene as cancer, bitter as the cud
Of vile, incurable sores on innocent tongues,
My friend, you would not tell with such high zest
To children ardent for some desperate glory,
The old Lie; Dulce et Decorum est
Pro patria mori.
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É BELO E NOBRE
Recurvados, como velhos mendigos sob sacos,
Cambaios, tossindo feito velhas corocas, praguejamos no meio do lodaçal,
Até que, à luz melancólica dos sinalizadores, viramos as costas
E começamos a longa caminhada rumo ao repouso.
Homens marchavam dormindo. Muitos haviam perdido suas botas
Mas, sangrando, prosseguiam. Todos começaram a mancar; todos cegos;
Bêbados de cansaço; surdos mesmo ao som
Dos obuses cansados e ultrapassados que caíam atrás deles.
Gás! Gás! Rápido, rapazes! – O êxtase de procurar e
De ajeitar, bem a tempo, as máscaras mal feitas;
Mas alguém ainda estava gritando e tropeçando,
E se debatendo como um homem em chamas ou coberto de cal viva…
Opaco, através das lentes embaçadas e da luz verde e espessa,
Como sob um mar verde, eu o vi se afogar.
Em todos os meus sonhos, ante a minha vista débil,
Ele se lança sobre mim, sufocando, engasgando, afogando.
Se, em alguns sonhos sufocantes, você também pudesse passar
Atrás do vagão onde o atiramos,
E olhar os olhos sem luz contorcendo-se em seu rosto,
Seu rosto sem vida, qual um demônio enjoado de tanto pecar;
Se você pudesse ouvir, a cada solavanco, o sangue
Subir gargarejando dos pulmões cheios de espuma,
Obsceno como o câncer, amargo como a bile
De feridas incuráveis e vis em línguas inocentes,
Meu amigo, você não diria com tamanho entusiasmo,
Para crianças ansiosas por uma glória desvairada,
A velha Mentira: É belo e nobre
Morrer pela pátria.
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