4 de junho de 2026

Para Paulo Coelho, “Ulysses” fez mal à literatura

Por Vinicius Carioca

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Paulo Coelho, que lança seu 22º romance, diz que “Ulysses” fez mal à literatura

Rodrigo Levino, Na Folha de S.Paulo – Ilustrada

“Você sabia que eu sou mago?”, pergunta Paulo Coelho, em francês, a um amigo que o visita na Suíça, onde vive. “Mago das letras!”, responde rindo o interlocutor.

“Está vendo? Fora do Brasil ninguém sabe dessa história”, retruca o escritor em entrevista à Folha, por telefone.

É que o autor brasileiro de maior sucesso internacional, agora lançando “Manuscrito Encontrado em Accra” (Sextante), seu 22º romance, se reinventou.

Aos poucos, a aura mística que atribuía a si e o epíteto de mago foram deixados de lado. Hoje ele veste as roupas da modernidade e do pragmatismo.

Consagrado por 140 milhões de livros vendidos em 160 países e traduzido em 73 línguas, Paulo Coelho defende a livre circulação dos seus livros, pirateados ou a preços baixíssimos, e, conectado praticamente o dia inteiro, se tornou um militante digital e suprimiu qualquer tipo de atravessador. É ele quem fala com o seu público.

“O Twitter é o meu bar. Sento no balcão e fico ouvindo as conversas, puxando papo, sentindo o clima”, diz ele, que logo mais deve alcançar 15 milhões de seguidores em redes sociais.

A interlocução facilitada com os leitores o fez se abster de sessões de autógrafos e viagens de divulgação.

“Agora, só aceito ir a lugares curiosos. Semana que vem vou ao Azerbaijão. Chega de hotéis”, se gaba.

Mas não só disso. Segundo ele, ser lido de Nova York a Caruaru (PE) e Ulan Bator, na Mongólia, se deve ao fato de ser um autor moderno, de literatura globalizada, a despeito do que diga a crítica.

“Houve um tempo em que era possível aos críticos destruírem um filme ou um livro e isso tinha reflexo direto no público. Hoje essa relação se horizontalizou, o que vale é o boca a boca”, diz.
Sobre o tal modernismo de sua escrita, Coelho diz não ter a ver com estilo ou experimentações de narrativa.

“Sou moderno porque faço o difícil parecer simples e, assim, me comunico com o mundo inteiro.”

CULPA DE JOYCE

Para ele, escritores caíram em desgraça ao perseguirem o reconhecimento pela forma e não pelo conteúdo.

“Os autores hoje querem impressionar seus pares”, opina. E aponta em seguida o culpado: “Um dos livros que fez esse mal à humanidade foi ‘Ulysses’ [clássico de James Joyce], que é só estilo. Não tem nada ali. Se você disseca ‘Ulysses’, dá um tuíte”, provoca.

A acessibilidade pregada por ele dá o tom também em “Manuscrito”, o primeiro livro que escreveu desde o susto que tomou em 2011, quando ouviu de seu médico que, por causa de um problema cardiológico, teria apenas 30 dias de vida. “Perdi o chão”.

Sobreviveu para contar a história de uma Jerusalém sitiada, prestes a ser tomada por cruzados. Trocando em miúdos, uma reflexão com forte tom religioso sobre a iminência do fim. Sem ligações autobiográficas, garante.

“A única referência que faço no livro ao que passei é quando digo que recebi o manuscrito em questão no dia 30 de novembro, que foi a data da minha cirurgia. De resto, é um livro como qualquer outro meu”, conta ele, que escreve um desses a cada dois anos e sempre de uma vez só.

Entre uma coisa e outra, diz que se dá “ao luxo de ter tempo”. Tempo para se informar a respeito de tudo. Do julgamento do mensalão às intrigas sobre os autores brasileiros selecionados pela revista “Granta” (Alfaguara).

Lista sobre a qual ele diz não ter interesse. “Não faz parte do meu mundo. Gosto de autores como Eduardo Spohr [autor de ‘A Batalha do Apocalipse’]”.

Spohr é uma das estrelas da “Geração Subzero” (Record), coletânea de autores que se julgam negligenciados pela crítica, contraponto à “Granta”. É nesse oposto que Coelho se sente à vontade e para quem pretende continuar escrevendo até morrer. “Depois disso, nada meu será publicado.” Tem medo de que haja disputa por direitos autorais entre herdeiros ou, pior, publiquem obras sem a sua autorização. “Aconteceu com Nabokov. Isso é um horror.”

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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