29 de junho de 2026

Da série fotos malditas: Jânio Quadros e Che Guevara

Foi demais para a direita a ousadia do ex-presidente, sobre a foto que derrubou Jânio Quadros

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Jânio e Che: A gota d´agua, por Palavra Acesa

Entre os muitos episódios que marcaram a vida de Che Guevara, seu encontro com o presidente Jânio Quadros é, talvez, um dos menos conhecidos ou documentados.
 
Os relatos de seus biógrafos são coincidentes em sua brevidadeescassez de detalhes.
 
Ainda assim, sua visita-relâmpago ao Brasil, foi considerada por muitos polemistas da época e jornalistas sensacionalistas de plantão, como, possivelmente, a gota d’água para a renúncia de Jânio, dali a seis dias.
 
O então Ministro das Indústrias de Cuba acabava de partir doUruguai, após vários dias de acalorados debates na reunião do CIES (Conselho Interamericano Econômico e Social, um órgão da OEA), em Punta del Este, onde cumprira uma agenda cheia (naquele balneário e em Montevidéu) de discursos, reuniões políticas, coquetéis e entrevistas para a imprensa estrangeira.
 
Guevara estava exausto, mas antes de retornar a Havana, ainda tinha dois compromissos importantes: encontrar-se secretamente com o presidente Frondizi, na Argentina e em seguida, partir para o Brasil, onde seria recebido pelo primeiro mandatário do país, Jânio Quadros.
 
O turbo-hélice quadrimotor Bristol Britannia, da Cubana de Aviación pousou na Base Aérea de Brasília às 23:30 horas, do dia 18 de agosto de 1961.
 
Destacado para receber o revolucionário argentino, o então deputado federal José Sarney acabou não permanecendo no local para a sua chegada, por causa dos sucessivos atrasos no vôo da delegação da ilha caribenha.
 
Assim, a tarefa ficou a cargo do diplomata Carlos Alberto Leite Barbosa, que recepcionou o ilustre convidado e o levou imediatamente, junto com sua comitiva de quarenta e cinco pessoas (vinte das quais eram seguranças), para oBrasília Palace Hotel, onde ocupariam um andar inteiro.
 
Che demonstrava cansaço, especialmente porque no dia anterior sofrera um forte ataque de asma em Montevidéu.
 
Passou parte da noite conversando em sua suíte com o então fotojornalista do jornal O Estado de São PauloRaymond Frajmund, e um grupo de amigos, e depois foi descansar.
 
Às seis horas da manhã do dia seguinte teria de levantar e seguir diretamente para a Praça dos Três Poderes, onde saudaria a bandeira e passaria em revista às tropas.
 
Enquanto isso, vários oficiais da Guarda Presidencial, indignados com a presença do dirigente comunista, se rebelavam.
 
Não queriam participar do evento programado.
 
O clima era de tensão.
 
Após grande esforço dos oficiais mais graduados, por toda a madrugada, a situação foi resolvida a tempo, e tudo transcorreu como planejado.
 
Eram sete horas da manhã do dia 19 de agosto de 1961, há exatos 50 anos, quando Che Guevara, em seu tradicional uniforme verde-oliva, era recebido com honras militares.
 
Mesmo aparentando certo desconforto com a cerimônia, ouviu os hinos nacionais dos dois países e bateu continência à bandeira, diante dos soldados enfileirados (os oficiais responsáveis pela tropa, por sua vez, se recusaram a se perfilar diante do Che).
 
Dezoito minutos depois, já estava no Salão Verde do Palácio do Planalto, onde foi acolhido com entusiasmo por Jânio.
 
Aquela não era a primeira vez que os dois se encontravam.
 
Jânio havia visitado Cuba no final de março e início de abril de1960, a convite de Fidel Castro, quando ainda era candidato à presidência.
 
Enquanto Fidel, cauteloso, se esquivava de algumas perguntas, respondendo com evasivas, Guevara fez questão de declarar a Jânio, com todas as letras, que ele era marxista-leninista, uma franqueza que impressionou bastante o visitante.
 
Agora era a vez de Che visitar seu colega em Brasília.
 
A viagem de Guevara à capital brasileira fora decidida pouco tempo antes e era basicamente de cortesia, com caráter protocolar.
 
Quando Che ia à reunião da OEA, no Uruguai, fez breve escala no aeroporto do Rio de Janeiro, onde recebeu o convite deJoão Dantas, em nome de Jânio (há quem diga que o convite teria partido do então ministro Clemente Mariani).
 
O encontro serviria, supostamente, para estreitar os laços de amizade entre os dois países.
 
E também para discutir a situação e o destino de cento e sessenta e oito exilados cubanos, que se encontravam na residência da Embaixada Brasileira em Havana.
 
O ato mais importante e simbólico da visita, contudo, seria acondecoração de Che com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a mais alta comenda do governo.
 
Na verdade, a decisão de condecorar Guevara foi abrupta.
 
Como o Itamaraty (e sua divisão de cerimonial) na época ainda ficava no Rio (em Brasília só havia um escalão avançado, com o gabinete do chanceler), foi necessário mandar buscar, às pressas, a medalha na antiga capital.
 
O chefe do cerimonial, Câmara Canto (mais tarde embaixador do Brasil no Chile, durante o golpe de Pinochet), providenciou para que fosse levada a tempo a Brasília, num Caravelle daCruzeiro do Sul.
 
Numa cerimônia com poucas pessoas, Jânio colocou a insígnia no comandante e seguiu então para uma conversa reservada com ele em seu gabinete.
 
O gesto, aparentemente singelo, foi considerado imperdoávelpara alguns setores das Forças Armadas.
 
É verdade que outros dignitários cubanos já haviam recebido aquela comenda, anos antes, como Osvaldo Dorticós e Raúl Roa.
 
Até mesmo o cosmonauta soviético Yuri Gagarin ganhara uma condecoração, a Ordem do Mérito Aeronáutico, apenas dezesseis dias antes.
 
Mas agora, as coisas eram diferentes.
 
A situação, desta vez, não permitia tamanha ousadia.
 
Os Militares não perdoariam Jânio por isso.
 
Alguns deles até ameaçaram devolver suas própriascondecorações em protesto.
 
clima esquentara também com o Governador da GuanabaraCarlos Lacerda.
 
Algumas horas antes da chegada de Che a BrasíliaLacerda se encontrara com Jânio e ficara extremamente irritado ao saber da condecoração.
 
Ele iria entregar as chaves do Rio de Janeiro, logo depois, ao contra-revolucionário anticastrista cubano Manuel Varona.
 
Após uma reunião fechada com JânioGuevara conversou com jornalistas e, junto com o encarregado de negócios deCuba e alguns membros de sua delegação, foi para um almoço com o Prefeito do Distrito FederalPaulo de Tarso, na residência oficial do Riacho Fundo.
 
Em seguida, deu uma volta de helicóptero sobre a capital e seguiu para a Base Aérea.
 
Seu avião decolou às 15 horas com destino a Havana.
 
A visita de Che durou menos de dezesseis horas, mas passou como um furacão.
 
condecoração de Guevara foi a última solenidade de Jâniono Palácio do Planalto.
 
Seis dias depois, ele renunciava.
 
Os Militares, por sua vez, depois do Golpe de 1964, em outro gesto simbólico, iriam retirar aquela comenda do famosorevolucionário.
 
 
 
A Renúncia:
 
 
 
 
“Ao Congresso Nacional.
 
Nesta data, e por este instrumento.
 
Deixando com o Ministro da Justiça.
 
As razões de meu ato.
 
Renuncio ao mandato de Presidente da República.
 
Brasília25.8.61.”
 

 

Fui vencido pela reação e assim deixo o governo.
 
Nestes sete meses cumpri o meu dever.
 
Tenho-o cumprido dia e noite, trabalhando infatigavelmente, sem prevenções, nem rancores.
 
Mas baldaram-se os meus esforços para conduzir esta nação, que pelo caminho de sua verdadeira libertação política eeconômica, a única que possibilitaria o progresso efetivo e ajustiça social, a que tem direito o seu generoso povo.
 
Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou deindivíduos, inclusive do exterior.
 
Sinto-me, porém, esmagado.
 
Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ouinfamam, até com a desculpa de colaboração.
 
Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranquilidade, ora quebradas, indispensáveis ao exercício da minhaautoridade.
 
Creio mesmo que não manteria a própria paz pública.
 
Encerro, assim, com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes, para os operários, para a grandefamília do Brasil, esta página da minha vida e da vida nacional.
 
A mim não falta a coragem da renúncia.
 
Saio com um agradecimento e um apelo.
 
agradecimento é aos companheiros que comigo lutaram e me sustentaram dentro e fora do governo e, de forma especial, às Forças Armadas, cuja conduta exemplar, em todos os instantes, proclamo nesta oportunidade.
 
apelo é no sentido da ordem, do congraçamento, do respeitoe da estima de cada um dos meus patríciospara todos e de todos para cada um.
 
Somente assim seremos dignos deste país e do mundo.
 
Somente assim seremos dignos de nossa herança e da nossapredestinação cristã.
 
Retorno agora ao meu trabalho de advogado e professor.
 
Trabalharemos todos.
 
Há muitas formas de servir nossa pátria.
 
 
 
Brasília25 de agosto de 1961.
 
Jânio Quadros.
 

Redação

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