5 de junho de 2026

Húngaro conta como foi registrar guerra no Afeganistão


Mulheres esperam a ração no programa de distribuição de alimentos do campo de refugiados de Charahi Qambar, em fevereiro de 2011
Foto: Balazs Gardi / basetrack.org / Divulgação

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Húngaro conta como foi registrar guerra no Afeganistão com câmeras de iPhone

De passagem pelo Brasil, o fotógrafo Balazs Gardi, do coletivo Basetrack, fala nesta terça-feira no Instituto Moreira Salles

RIO – Uma mulher posta no Facebook um pedido: quer a última foto que viu de seu marido, um soldado americano enviado ao Afeganistão em 2010. O apelo é feito a um coletivo de fotógrafos, o Basetrack, que, por seis meses, teve autorização do exército para acompanhar um de seus batalhões. Com iPhones, o coletivo registrou o cotidiano de cerca de mil soldados e postou centenas de fotos no Facebook. Criou, assim, uma espécie de novo estilo de fotografia de guerra — e também um canal de comunicação entre soldados e suas famílias. Um dos fundadores do grupo, o fotógrafo húngaro Balazs Gardi, de 37 anos, conta a experiência hoje, às 20h, no Instituto Moreira Salles do Rio, e, na quinta-feira, em São Paulo.

O convite foi feito pela revista “zum”, que publica em seu segundo número, com lançamento hoje, um ensaio feito pelo Basetrack no Afeganistão. Nas imagens, cedidas ao GLOBO, há de mulheres afegãs de burca que esperam alimentos num campo de refugiados em Cabul a um soldado americano carregando um peru abatido durante uma das operações do batalhão. Em comum, as fotos têm algo da saturação de cores típica de imagens feitas com iPhone (e trabalhadas com seus incontáveis filtros).

A escolha pela câmera do celular (no caso, o iPhone 4) se deve a algumas razões, apenas uma mais técnica: por estar dentro de um sistema completamente vedado, a câmera do iPhone é a única que resiste à poeira fina do Afeganistão, segundo o húngaro Gardi e o nova-iorquino Teru Kuwayama. Fundadores do Basetrack, em 2010, os dois já haviam coberto diferentes operações no Afeganistão desde 2001 e, lá, já tinha trabalhado com diferentes câmeras, das mais tradicionais a modelos clássicos dos anos 1960 e ainda as de brinquedo, feitas na China e vendidas a US$ 10.

— Por anos carreguei câmeras em meus ombros, e aqui estou, focando numa câmera de celular que está sempre funcionando. E eu realmente gosto dela — diz Gardi em entrevista por telefone ao GLOBO, de Dallas, onde fez uma pausa antes de embarcar para o Brasil (ele mora em Dubai). — A foto de iPhone certamente cria um estilo muito próprio e diferente, mas não acredito que seja uma nova linguagem. Estilos fotográficos vão e vêm. Dou mais atenção à qualidade da imagem que ao estilo. O que importa é a fotografia e o que ela comunica.

Experimento baseado na frustração

O fotógrafo costumava fazer trabalhos “comerciais” e vendê-los a revistas para financiar seus projetos, como uma viagem de dois anos pela Europa atrás de ciganos. Teve fotografias publicadas em revistas como “Time” e “Newsweek”. No Basetrack, que não tem fins lucrativos, Gardi conta que investiu muito dinheiro, mas realizou o desejo de voltar ao Afeganistão — sua primeira ida, em 2001, foi como fotógrafo do jornal húngaro “Nepszabadsag”; desde então, esteve no país 16 vezes, a maioria delas como freelancer ou pelo coletivo.

— O Basetrack foi um experimento baseado na nossa frustração com a mídia. O que acontecia é que, em 2004, 2005, 2006 e 2007, passávamos anos no Afeganistão e ninguém realmente se preocupava com nossas histórias. Tentávamos muito vender para revistas, porque era o único jeito de publicar, mas não conseguíamos. Para as revistas, o Iraque era mais importante. Havia muita coisa errada acontecendo no Afeganistão, estávamos lá fotografando isso, mas ninguém queria publicar.

Foi então que Gardi e Kuwayama, que $á tinham se encontrado em 2004 no Afeganistão, acompanhando por semanas um batalhão, decidiram se unir. Um capitão que conheciam havia sido promovido a major e, em 2010, convidou a dupla para acompanhar seu batalhão.

— Pensamos: o.k., não vamos tentar mais, faremos nossa própria publicação. Seguiremos mil soldados por seis meses.

Eram quatro, às vezes cinco fotógrafos e um jornalista, que ficavam até três meses sem deixar o batalhão. O conceito era de documentar o cotidiano e garantir, a quem seguisse o projeto no Facebook, “algo novo todo dia” sobre os assuntos do Afeganistão e do Paquistão.

Além das fotos dos soldados, o grupo postava (e ainda posta) notícias, o que faz de seu perfil, segundo Gardi, a mais ampla coleção de imagens e reportagens, até hoje, sobre a intervenção americana no país. Depois de acompanhar o exército por mais de dez anos, Gardi diz que “é muito difícil de dizer se a intervenção foi necessária”:

— A cada ano havia uma estratégia diferente. É uma grande bagunça, um problema que vai ser muito difícil de se resolver. Em 2004, todos no Afeganistão estavam apoiando, porque, depois de décadas de guerra, as pessoas queriam paz, como no Iraque. Mas uma sequência de eventos muito infeliz fez as pessoas mudarem de lado e, agora, elas apoiam os insurgentes. Os americanos poderiam ter sido muito mais cuidadosos, e o resultado teria sido mais positivo. Nunca houve uma estratégia clara.

O Basetrack abandonou o batalhão que acompanhava em 2011. Foi, como conta Gardi, “desconvidado” a ficar no local. As explicações para que não seguissem com o trabalho nunca foram muito claras, mas, segundo ele, a presença dos fotógrafos e de seus iPhones era, muitas vezes, tida como “desconfortável” pelo exército americano.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados