4 de junho de 2026

A lógica do parto humanizado

A história do parto humanizado é muito forte.

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Parte de um princípio que, dentro do processo normal de aumento da consciência social, irá se impor sobre a linha de montagem das maternidades. A mulher é a principal protagonista do parto. Portanto, tem direito a definir como quer ter o filho. A maneira de fazer é através de um plano de parto – uma relação de providências que deseja (ter um quarto semelhante ao seu, não tomar determinadas remédios para acelerar o parto etc).

Basta uma análise rápida do processo normal de parto para se dar conta do absurdo dessas linhas de montagem. Fora a cesariana – 80% dos partos em planos de saúde -, injetam-se drogas nas gestantes, para acelerar o parto, corta-se o períneo para alargar a saída do bebê (muitas vezes a seco), marca-se hora para a criança nascer.

friamente, só se mantem pela inércia: são processos medievais que afetam mulheres de todas as classes sociais.

A casa de parto humanizado – que visito agora – tem todas as características de uma maternidade, com exceção da UTI e da sala de cirurgia.

Há uma sala onde senhoras da região entretem as gestantes com trabalhos manuais e calor humano. Os quartos têm camas normais que são transformadas em camas de parto. Alguns deles dispõem de banheiras, para quem quiser dar à luz na água.

Existe uma ambulância permanente, para os casos de complicação no parto. Nesse caso as gestantes são transferidas para hospitais da região por enfermeiras especializadas.

Só se fazem partos de baixo risco. Se a gestante tem alguma complicação, não é recomendado esse tipo de parto.

O que causa espécie é a atitude do Conselho Regional de Medicina (CRM) e do Conselho Federal de Enfermagem.

O CRM não apenas não apoia essas iniciativas como pune com a cassação do registro o médico que participar de um parto desses. Com isso, existem médicos na Casa Ângela que participam dos trabalhos normais, mas não entram na sala de parto. Ou seja, o CRM prefere partos sem a presença do médico a abrir espaço para uma atividade que poderá comprometer uma das principais fontes de renda dos obstetras: a cesariana.

O mesmo ocorre com os conselhos de enfermagem. Apesar das enfermeiras terem curso superior completo, o conselho não dá registro de enfermeira às especialistas em parto natural.

Sem apoio público, a maior parte das gestantes que procura a Casa Ângela são usuárias de planos de saúde. Foi uma opção dura para a entidade, de reduzir a participação das gestantes do SUS, por absoluta falta de recursos e interesse das autoridades médicas paulistanas.

Um pouco da história da enfermeira Ângela

 

Angela Gehrke Nascida e formada na Alemanha, a parteira Angela Gehrke chegou ao Brasil em 1983 para trabalhar na área de saúde da Associação Comunitária Monte Azul e logo passou a se dedicar ao acompanhamento da gravidez, do parto e do pós-parto das mulheres da favela de mesmo nome, na zona Sul de São Paulo. Inspirada em sua formação com o médico obstetra francês Frederick Leboyer e comovida com a falta de acesso das mulheres da comunidade a serviços de saúde adequados, Angela passou a oferecer assistência ao parto e ao nascimento no ambulatório da Associação Comunitária Monte Azul.

A divulgação desse serviço sem precedentes entre as mulheres e adolescentes da favela e dos bairros adjacentes foi enorme, atraindo um número cada vez maior de interessadas. Com o tempo, a fama do parto humanizado oferecido por Angela na Monte Azul ultrapassou os limites da região e chegou até os bairros mais ricos da capital, de onde muitas mulheres passaram a se deslocar para ter seus bebês com a parteira na favela.

Primeira casa de parto Em junho de 1997, foi inaugurada a primeira casa de parto da Associação Comunitária Monte Azul. A proposta da casa de parto era dar prosseguimento ao trabalho desenvolvido por Angela durante 10 anos no ambulatório da Monte Azul. Nesse período, ela realizou um total de 1500 partos normais, com baixos índices de intervenção, alto grau de satisfação das mulheres e nenhum caso de morte materna ou neonatal.

Em 1998, Angela adoeceu. No ano seguinte a casa de parto da Associação Comunitária Monte Azul fechou suas portas. A parteira alemã, que se tornou uma das pioneiras do movimento pela humanização do parto no Brasil, morreu vítima do câncer em 2000. Seu trabalho constitui um importante legado que até hoje, mais de dez anos depois, continua inspirando mulheres de todas as classes sociais, profissionais de saúde e pessoas dedicadas à elaboração de políticas públicas em prol da humanização do parto e do nascimento no Brasil.

Casa Angela: o projeto O primeiro passo foi realizar um levantamento da situação da assistência materno-infantil na região em termos de oferta e de qualidade. Foram encontrados números alarmantes: taxa de cesárea por volta de 50%, taxa de mortalidade materna acima da média do município, além de altos índices de prematuridade e baixo peso ao nascer. Analisando diversos indicadores como esses, chegou-se à conclusão de que existia demanda por uma casa de parto na região.

Em 2004 o projeto foi apresentado à Secretaria Municipal da Saúde (SMS). Na época, houve o entendimento de que, para garantir a manutenção do serviço, inclusive o custeio da equipe profissional, a Prefeitura incluiria a Casa Angela no Programa Saúde da Família por meio de um convênio entre a SMS e a Associação Comunitária Monte Azul. Em contrapartida a entidade, com a ajuda de parceiros internacionais, assumiu os custos com as obras de construção e a aquisição de equipamentos básicos e mobiliário. Em setembro de 2005 o projeto de edificação da Casa Angela foi aprovado pela Vigilância Sanitária. A construção inciou-se em 2006.

Casa Angela: a realidade A Casa Angela ficou pronta em 2008 e começou a funcionar parcialmente em março de 2009, com os primeiros atendimentos de pré-natal e pós parto.

 

 

 

No primeiro ano de funcionamento, de março de 2009 a março de 2010, foram realizadas 734 consultas de pré-natal e 369 de pós-parto (incluindo visitas domiciliares e orientação em planejamento familiar). Em 2008 a Casa Ângela também se tornou sede das reuniões do Comitê de Mortalidade Materna e Infantil da Supervisão Técnica de Saúde M´Boi Mirim. Desde então, 1490 profissionais de saúde participaram de palestras e cursos de capacitação voltados à saúde materno-infantil, realizados pela Casa Angela.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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